quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Em que tipo de estado temos estado?


Em 2013, quando as "grandes manifestações" de Maio e Junho se tornaram de fato grandes - em minha leitura, após a mídia ver que poderia usá-las contra o governo federal e  instigado milhões de pessoas a irem às ruas no país todo - eu não fui em nenhuma das "grandes manifestações". Morava em Marília e lá vivemos duas noites interessantes: na primeira uma frustrada tentativa de ocupação da prefeitura acabou com a tropa de choque (importada de Bauru) lançando bombas sobre nós e com uma colega detida; na segunda, iniciada no pé de uma igreja com a fala de um policial militar... bom, esse ato já começou frustrado por si só.
Fui conhecer uma manifestação grande "Pós-Junho de 2013", como alguns bons amigos militantes se referem a elas, apenas recentemente, em 16 de Janeiro. Ainda não havia passado pela esplêndida experiência do "envelopamento", construído pela rapaziada do choque, e tampouco havia chegado em praça pública para fazer uso de um (digamos) 'direito cidadão' e ter sido recebido como um (digamos) 'criminoso inquestionável'.

No final da tarde e começo da noite de 16 de Janeiro, uma sexta feira, alguns milhares de pessoas se reuniram no encontro da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, para protestar contra o aumento da passagem do ônibus, do metrô e dos trens da CPTM (importante recordar estes dois últimos, competências do governo do estado, que ainda não teve nenhum dos seus endereços simbólicos na cidade como ponto para os atos).
No entanto, antes de chegar ao local, recebi informações via Twitter (e por meio de uma ligação de minha irmã, que trabalha próximo dali) de que toda a região entre a Avenida Nove de Julho e a Rua da Consolação estava ocupada por policiais muito bem armados. No caminho para a Paulista passei de ônibus pela Avenida Rebouças, ela fica a 3,3km (segundo o google) do local da manifestação, e lá estavam eles: grupos volumosos e vistosos de policiais militares com grandes armas a mostra (parecia até um clip dos Cramps, mas sem o mago).
Brinquei: "acho que vai ter mais policial do que manifestante neste ato". Infelizmente minha piada esteve próximo de estar correta, como disse acima: cheguei no local da manifestação e me senti um "criminoso inquestionável", com todos aqueles policiais (de alguns era possível apenas ver os olhos, por de trás das máscaras pretas) me encarando. 
Alinhados ao redor daqueles que queriam se manifestar, policiais militares das mais distintas divisões da corporação seguravam fuzis (com balas de mentirinha e balas de verdadinha), nos encaravam de cima abaixo, alguns já ensaiavam um som de percussão entre cacetete e escudo, e outros conversavam e riam entre eles.
Alguns metros de descida pela Rua da Consolação, e eu vi que dois policiais viram quem era o rapaz que pixou uma agência de banco, poderiam ter feito uma prisão em flagrante ali. Não era a parte mais movimentada ou aglomerada do ato. Era, na verdade, a raspa do tacho do ato. Era só entrar, pegar o rapaz e levar embora. Mas, tendo em vista a teatralidade do espetáculo que ocorreu mais tarde, entendi que pra eles prender um manifestante em flagrante, sem alarde, não interessaria muito.
Mais alguns metros de Consolação e as primeiras bombas, correria, vinagre na cara pra fugir da sensação ruim e um reagrupamento do ato. Mais a baixo, já no Vale do Anhangabaú, mais bombas e mais correria. 
Eu e a minha galera nos escondemos em uma lanchonete na Rua Sete de Abril. Com a porta semi fechada pude ver camburões da "força tática" subindo a estreita rua em alta velocidade e em zigue zague - o que me parece ser uma estratégia para que as pessoas saíam da rua.
Após muito observarmos ao nosso redor, decidimos nos reencontrar com a rapaziada que estava firme no ato, na frente da prefeitura. Quando cruzávamos o Viaduto do Chá, mais bombas, mais correria, desta vez corremos no sentido da estação República, de onde iríamos embora: as pernas já estavam cansadas, a garganta arranhada e o sistema respiratório completamente irritado.
Mas teve mais.
No caminho para a República um ambulante que vendia água reclamava: "por que sempre acaba assim? Sempre acaba assim!". Ainda pude ver policiais militares desfilando suas pistolas automáticas em mãos. O dedo indicador de um deles já estava dentro do espaço onde fica o gatilho, era só apertar e ceifar uma vida; fácil assim, nada de mais.
Paramos a dez metros de uma das entradas do metrô. Já havia jogado o pouco vinagre que restara fora. Bebíamos uma água e observávamos um último grupinho de manifestantes que passava pela Rua Ipiranga, na direção da Consolação, aos cânticos de "que coincidência, não tem polícia, não tem violência".
Três rapazes que vinham ao fundo do pelotão jogaram uns sacos de lixo que estavam na beira da rua, no meio da rua. No tempo de nos levantarmos e chegarmos na entrada do metrô já ouvimos as primeiras bombas lançadas pelos policiais. Eles não estavam longe dali, eles viram quem foram os rapazes que cometeram o delito (e que delito hein?) de jogar os sacos de lixo na rua, eles poderiam tê-los prendido... Mas o circo, ah o circo das bombas explodindo e da população (em manifestação ou não) correndo em pânico parece lhes interessar mais do que qualquer outra ação efetivamente prática para os intuitos de prender quem comete "delitos" (não dá pra considerar jogar lixo na rua um delito, se assim fosse, todas as feiras livres terminariam em tiro, porrada e bomba).
Dentro da estação o cheiro do gás lacrimogênio era forte, beirando o insuportável. Uma mulher levando três crianças (uma delas no colo) não conseguia abrir os olhos para ver o que estava acontecendo; as três crianças choravam. Os seguranças do metrô lacrimejavam. 
Um homem (com crachá de "engenheiro da linha amarela") pedia para que todos descessem para as plataformas, que fosse para esperar um pouco, nos explicou: o sistema de circulação de ar da estação puxa o ar da rua para dentro da estação, se a polícia solta gás na rua - surpresa! - ele entra na estação. "Mas eles sabem disso?", perguntei, "hãm, claro que sabem". Eles também estava puto.
Naquela noite meus olhos e nariz arderam por mais uma hora ainda. 

Não pude ir aos dois atos seguintes (e considero não ir nos próximos até que o alvo deles seja o governo do estado, e não apenas a prefeitura). Também não me surpreendi com as notícias de repressão policial nestes dois atos. No entanto, me chamou a atenção o seguinte vídeo, feito ontem (27/01) ao final de mais um ato:


Nele é possível ver uma estação de metrô (a Faria Lima) repleta de pessoas e sendo tomada por policiais militares. É possível ver que estes querem afastar tais pessoas das catracas. Também podemos ver que bombas de gás lacrimogênio são lançadas pelos policiais no interior da estação. Vemos policiais chutando pessoas com roupas e apetrechos de "trabalhadores de mídia". Vemos um grupo de cinco ou seis policiais imobilizando, apertando o pescoço, jogando no chão um rapaz, mas não vemos mais coisas que ocorreram ali, pois eles 'enveloparam' o rapaz em seus escudos. Vemos também policiais "provando do próprio veneno" e passando mal com os efeitos altamente nocivos do gás. Vemos pessoas que não tem nada a ver com o ato correndo sem saber o motivo. Vemos um rapaz ser pego com violência por um policial por apenas dizer: "desastrosa a sua operação, a sua operação... eu vou responsabilizar o senhor por isso...".
Neste vídeo vemos muitas coisas que não fazem sentido de serem vistas ocorrendo: 1) dentro do espaço fechado que é uma estação de metrô (aliás, penso não existir crime que justifique transformar um espaço fechado em uma câmara de gás, isso soa meio nazista); 2) em termos de força desproporcional contra pessoas desarmadas; 3) em termos de um estado democrático.
E ai chegamos no ponto que eu queria chegar.

Nas manifestações de 2013 dizia-se muito que "não é por centavos, é por direitos". Essa frase é forte, mas, como muitas coisas nas manifestações daquele ano, foi esvaziada de significado, se tornando mero chavão.
Quando minha irmã me ligou, no dia 16 de Janeiro, e pediu para que eu não fosse na manifestação (com medo do que poderia me ocorrer perante policias tão bem armados), lhe falei basicamente esta "frase-chavão": há uma estrutura do poder público (o detentor da violência do estado) muito bem armada para intimidar e acuar as pessoas, para que não se manifestem, não se pronunciem e sigam trabalhando, e pagando caro por um transporte ruim, e chegando em casa e não encontrando água na torneira (mais um motivo pra nos levantarmos contra o governo do estado). A polícia não está indo nesses atos como "força de repressão", e sim tem lá estado como uma força  de opressão, como se dissesse: "não é pra você se manifestar coletiva e publicamente, se mesmo assim você insistir, bom, você está vendo nosso armamento e nós não nos privaremos de o usar contra você".

Isso tudo dito, tanto a situação vivida por mim no ato de 16 de Janeiro, quanto diversos vídeos e relatos que tenho lido (e recomendo acompanhar o site da Ponte), creio que cabe perguntar (com perdão pelo trocadilho): em que tipo de estado temos estado? 
É uma democracia, pois em Outubro fomos às urnas duas vezes? É uma ditadura, pois todo ato-manifestação é vigiado, cercado e implodido pelas forças de violência oficial do estado? É uma "ditadura de ocasião" em que, dependendo da ocasião, as forças policiais podem agir como verdadeiros pelotões para-militares? É uma "democracia de situação", em que, dependendo da situação, os direitos básicos serão garantidos?

Creio que ir em mais alguns atos pode ajudar a refinar tais perguntas. Por ora, segue uma foto que gosto muito. E gosto dela por a odiar e por me causar frio na espinha, pois geograficamente falando eu moro dentro dos limites formado pelas viaturas.






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