quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A balança do meu reclamacionismo.


Num dia desses recentes realizei uma rápida passagem por Marília, fiquei nem 24 horas na cidade. No caminho de ida o ônibus em que eu estava passou e parou na cidade de Vera Cruz, onde, em 2013, eu encarnava um professor
O ônibus saiu da rodovia, adentrou na pequena cidade, passou por ruas estreitas até chegar na rodoviária. Lá ficou cinco minuto, passou por mais algumas ruas estreitas e estava novamente na rodovia. Em cerca de dez minutos o ônibus estava encostando em Marília.
Esse trajeto "Marília-Rodovia-Vera Cruz", cheguei a brincar - cheio de mágoas - num final de tarde de 2013, às vezes parecia ser uma Via Crucis. Quando saía cedo demais, ou quando voltava tarde e cansado demais pra casa, eu pensava "como cansa esse trabalho, como cansa essa estrada". É importante dizer, o trajeto entre a porta da minha casa e a porta da escola, quando muito, demorava uma hora para ser realizado; depois que aprendi os horários dos ônibus, em 45 minutos eu realizava a viagem.
Não vou dizer que eu odiei dar aulas, com o tempo fui sacando como lidar com as crianças, com os demais professores e funcionários, com a burocracia. O que me cansava, mesmo, eram os alunos e as situações idiotas que um sistema de ensino precário e arcaico submetem tanto alunos quanto professores. Isso cansa.
Bom, eu não vou dizer que eu odiava dar aulas, era só um emprego que me chateava e cansava dia-a-dia. 
No entanto, após a uma hora dentro dos ônibus, eu chegava em casa. E era a minha casinha número cinco na Vila do Martinho. Não tinha trânsito, às vezes eu passava no mercado e batia um papo com a Raffaela ou com o pai dela, às vezes com algum vizinho ou vizinha, às vezes não conversava com ninguém, mas era entrar em casa, descansar um pouco e pronto. Às vezes ia pro Cão Pererê, às vezes ia caminhar até o centro, às vezes até um mercado mais longínquo, às vezes só ficava em casa mesmo. Às vezes descia do ônibus no centro e ia fazer qualquer coisa antes de ir pra casa.
Não importava qual dos 'às vezes' eu seguia, havia uma tranquilidade única em cada um deles, e isso me oferecia um rápido descansar. 
Mas dai eu vim pra São Paulo, e daqui dois ou três dias completa-se um ano que eu vim pra cá de fato (embora ainda tenha uma caixa de tralhas minhas em Marília). Poderia dizer: "daqui uns dias faz um ano que eu comecei a ter como sinônimo de viver, reclamar". 
Ao caminhar por Marília semana passada, e ao espiar Vera Cruz (inclusive a escola onde eu trabalhava) dei uma balanceada mental em todo esse meu reclamacionismo, e acho que cheguei num ponto interessante.
Eu vivi, em um período aproximado de um ano, um modo de vida em que eu não era afeito às minhas realizações profissionais, trabalhava com dor na alma por estar gastando a vida naquilo. No entanto, descansava numa boa, tinha a meus pés à tranquilidade: às vezes, quando a aula era muito tensa e desgastante, eu saía da escola e ia caminhar em um dos cafezais de Vera Cruz. Os meus finais de semana eram pequenas pílulas de divertimento e descanso, vividos à plenos pulmões, à flor da pele e, às vezes, à exaustão.
Odiava o trampo, mas tinha descansos saborosos bem próximos de mim.
Então vim pra São Paulo, por um bom período neste um ano, passando por carências financeiras. Às vezes eu não preciso sair de casa para trabalhar, às vezes eu fico o dia inteiro (cerca de 15 horas) fora de casa, apenas trabalhando, às vezes eu perco quatro horas de um dia de trabalho no transporte público, às vezes (quase sempre, na verdade) para ir e voltar de um lugar eu gasto R$11,00. Mas tem uma diferença sensacional aqui: eu gosto muito do meu trabalho. Pesquiso, leio, escrevo, investigo, converso com as pessoas, organizo dados diversos (é isso e mais um pouco o que um antropólogo faz) com um prazer enorme. 
O problema é que a coisa não para. Conto nos dedos de uma mão as vezes em que fui de um ponto A (minha casa) até um ponto B (casa de outra pessoa, local de trabalho, rolê etc) sem ter enfrentado um problema nos meios de transporte público. Tirando quando faço algo no bairro, e vou a pé, são raríssimas as situações em saio para fazer algo e não levo menos de uma hora para chegar, inclusive algum lugar para "descanso" (visto que casa, aqui, se configura mais como local de trabalho e outras dedicações).
Em suma, eu adoro o trampo, mas é raro ter algum descanso saboroso ao alcance.

O que eu quero dizer com isso tudo? 
É que nesta rápida passagem por Marília (na semana passada), consegui entender algo central para pensar a minha vida daqui (um tempo) pra frente: eu prefiro ter um trampo bosta numa cidade em que eu possa tranquilamente relaxar e viver as coisas que me faz sentido viver, do que ter um trampo muito bom, mas viver numa cidade que me faz desgostoso para seguir vivendo.
No entanto, eu posso ser chato, mas não sou idiota, e sei que deve haver alguma cidade, algum lugar por ai em que seja possível viver os dois lados bons dessa moeda (assim como sei que 90% da população paulistana vive os dois lados ruins, e vocês podem me acusar de ser um famoso "reclamador da pança cheia", eu assim me sinto).
Por fim, a minha dica é a seguinte: tenha você um trampo bom ou trampo bosta, "se mate com um tiro na nuca, mas não venha morar em São Paulo (isso aqui não é muito nada saudável)".

Pensem nisso.






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