quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Eu odeio quando alguém conversa comigo assim.


O interessante é que tem uma barreira (que sei lá quem pôs) bem no meio do assunto, e ai ela o fragmenta bem bem bem. Em geral as pessoas acatam a fragmentação dizendo que o que tem de um lado pode e do outro lado não pode; tem uma rapaziada, mais radical, que ignora a fragmentação do assunto e pensa apenas que pode tudo ué; e tem um pessoal que faz nascer da fragmentação outras mais, por exemplo, esse pode, aquele não pode, esse outro pode um pouco e esse aqui só de vez em quando. Enfim, o assunto é fragmentado em assuntos e classificado em uma regulação especulativa restritiva. O interessante é que muitas coisas 'fazem mais mal' (em termos biológicos) do que outras, e muitas vezes as pessoas que dividem em 'pode' e 'não pode' acabam escolhendo uma coisa que faz bem mal como uma das coisas que pode e dizendo que escolheu por que a outra 'faz mal', e ela é que não pode. Por exemplo, o pessoal que fragmenta o assunto em várias partes, se fragmentasse em 5, por exemplo, 2 poderiam (até todo dia), 1 não poderia (de jeito ou maneira) e 2 poderia mas só de vez em quando (duas vezes por ano). Mas ai a pessoa dividiu em dois, um pode o outro não com justificativa de que 'o outro faz mal', mas na verdade é o dela que 'faz mal' (considerando suas preocupações e justificativas biológico-fisiológico). Bom, desse arranjo todo o que se tira? Às vezes você esta com uma barreira nas ideias te embaralhando o modo de ver as coisas e pode estar deixando poder coisas que para você mesmo você não poderia poder enquanto está dizendo que não pode coisas que pra você poderia pois você parece que não entende que, sim, eu posso isso. 
Eu odeio quando alguém conversa comigo assim. Prefiro quando oferecem mostarda.


A balança do meu reclamacionismo.


Num dia desses recentes realizei uma rápida passagem por Marília, fiquei nem 24 horas na cidade. No caminho de ida o ônibus em que eu estava passou e parou na cidade de Vera Cruz, onde, em 2013, eu encarnava um professor
O ônibus saiu da rodovia, adentrou na pequena cidade, passou por ruas estreitas até chegar na rodoviária. Lá ficou cinco minuto, passou por mais algumas ruas estreitas e estava novamente na rodovia. Em cerca de dez minutos o ônibus estava encostando em Marília.
Esse trajeto "Marília-Rodovia-Vera Cruz", cheguei a brincar - cheio de mágoas - num final de tarde de 2013, às vezes parecia ser uma Via Crucis. Quando saía cedo demais, ou quando voltava tarde e cansado demais pra casa, eu pensava "como cansa esse trabalho, como cansa essa estrada". É importante dizer, o trajeto entre a porta da minha casa e a porta da escola, quando muito, demorava uma hora para ser realizado; depois que aprendi os horários dos ônibus, em 45 minutos eu realizava a viagem.
Não vou dizer que eu odiei dar aulas, com o tempo fui sacando como lidar com as crianças, com os demais professores e funcionários, com a burocracia. O que me cansava, mesmo, eram os alunos e as situações idiotas que um sistema de ensino precário e arcaico submetem tanto alunos quanto professores. Isso cansa.
Bom, eu não vou dizer que eu odiava dar aulas, era só um emprego que me chateava e cansava dia-a-dia. 
No entanto, após a uma hora dentro dos ônibus, eu chegava em casa. E era a minha casinha número cinco na Vila do Martinho. Não tinha trânsito, às vezes eu passava no mercado e batia um papo com a Raffaela ou com o pai dela, às vezes com algum vizinho ou vizinha, às vezes não conversava com ninguém, mas era entrar em casa, descansar um pouco e pronto. Às vezes ia pro Cão Pererê, às vezes ia caminhar até o centro, às vezes até um mercado mais longínquo, às vezes só ficava em casa mesmo. Às vezes descia do ônibus no centro e ia fazer qualquer coisa antes de ir pra casa.
Não importava qual dos 'às vezes' eu seguia, havia uma tranquilidade única em cada um deles, e isso me oferecia um rápido descansar. 
Mas dai eu vim pra São Paulo, e daqui dois ou três dias completa-se um ano que eu vim pra cá de fato (embora ainda tenha uma caixa de tralhas minhas em Marília). Poderia dizer: "daqui uns dias faz um ano que eu comecei a ter como sinônimo de viver, reclamar". 
Ao caminhar por Marília semana passada, e ao espiar Vera Cruz (inclusive a escola onde eu trabalhava) dei uma balanceada mental em todo esse meu reclamacionismo, e acho que cheguei num ponto interessante.
Eu vivi, em um período aproximado de um ano, um modo de vida em que eu não era afeito às minhas realizações profissionais, trabalhava com dor na alma por estar gastando a vida naquilo. No entanto, descansava numa boa, tinha a meus pés à tranquilidade: às vezes, quando a aula era muito tensa e desgastante, eu saía da escola e ia caminhar em um dos cafezais de Vera Cruz. Os meus finais de semana eram pequenas pílulas de divertimento e descanso, vividos à plenos pulmões, à flor da pele e, às vezes, à exaustão.
Odiava o trampo, mas tinha descansos saborosos bem próximos de mim.
Então vim pra São Paulo, por um bom período neste um ano, passando por carências financeiras. Às vezes eu não preciso sair de casa para trabalhar, às vezes eu fico o dia inteiro (cerca de 15 horas) fora de casa, apenas trabalhando, às vezes eu perco quatro horas de um dia de trabalho no transporte público, às vezes (quase sempre, na verdade) para ir e voltar de um lugar eu gasto R$11,00. Mas tem uma diferença sensacional aqui: eu gosto muito do meu trabalho. Pesquiso, leio, escrevo, investigo, converso com as pessoas, organizo dados diversos (é isso e mais um pouco o que um antropólogo faz) com um prazer enorme. 
O problema é que a coisa não para. Conto nos dedos de uma mão as vezes em que fui de um ponto A (minha casa) até um ponto B (casa de outra pessoa, local de trabalho, rolê etc) sem ter enfrentado um problema nos meios de transporte público. Tirando quando faço algo no bairro, e vou a pé, são raríssimas as situações em saio para fazer algo e não levo menos de uma hora para chegar, inclusive algum lugar para "descanso" (visto que casa, aqui, se configura mais como local de trabalho e outras dedicações).
Em suma, eu adoro o trampo, mas é raro ter algum descanso saboroso ao alcance.

O que eu quero dizer com isso tudo? 
É que nesta rápida passagem por Marília (na semana passada), consegui entender algo central para pensar a minha vida daqui (um tempo) pra frente: eu prefiro ter um trampo bosta numa cidade em que eu possa tranquilamente relaxar e viver as coisas que me faz sentido viver, do que ter um trampo muito bom, mas viver numa cidade que me faz desgostoso para seguir vivendo.
No entanto, eu posso ser chato, mas não sou idiota, e sei que deve haver alguma cidade, algum lugar por ai em que seja possível viver os dois lados bons dessa moeda (assim como sei que 90% da população paulistana vive os dois lados ruins, e vocês podem me acusar de ser um famoso "reclamador da pança cheia", eu assim me sinto).
Por fim, a minha dica é a seguinte: tenha você um trampo bom ou trampo bosta, "se mate com um tiro na nuca, mas não venha morar em São Paulo (isso aqui não é muito nada saudável)".

Pensem nisso.






quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Em que tipo de estado temos estado?


Em 2013, quando as "grandes manifestações" de Maio e Junho se tornaram de fato grandes - em minha leitura, após a mídia ver que poderia usá-las contra o governo federal e  instigado milhões de pessoas a irem às ruas no país todo - eu não fui em nenhuma das "grandes manifestações". Morava em Marília e lá vivemos duas noites interessantes: na primeira uma frustrada tentativa de ocupação da prefeitura acabou com a tropa de choque (importada de Bauru) lançando bombas sobre nós e com uma colega detida; na segunda, iniciada no pé de uma igreja com a fala de um policial militar... bom, esse ato já começou frustrado por si só.
Fui conhecer uma manifestação grande "Pós-Junho de 2013", como alguns bons amigos militantes se referem a elas, apenas recentemente, em 16 de Janeiro. Ainda não havia passado pela esplêndida experiência do "envelopamento", construído pela rapaziada do choque, e tampouco havia chegado em praça pública para fazer uso de um (digamos) 'direito cidadão' e ter sido recebido como um (digamos) 'criminoso inquestionável'.

No final da tarde e começo da noite de 16 de Janeiro, uma sexta feira, alguns milhares de pessoas se reuniram no encontro da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, para protestar contra o aumento da passagem do ônibus, do metrô e dos trens da CPTM (importante recordar estes dois últimos, competências do governo do estado, que ainda não teve nenhum dos seus endereços simbólicos na cidade como ponto para os atos).
No entanto, antes de chegar ao local, recebi informações via Twitter (e por meio de uma ligação de minha irmã, que trabalha próximo dali) de que toda a região entre a Avenida Nove de Julho e a Rua da Consolação estava ocupada por policiais muito bem armados. No caminho para a Paulista passei de ônibus pela Avenida Rebouças, ela fica a 3,3km (segundo o google) do local da manifestação, e lá estavam eles: grupos volumosos e vistosos de policiais militares com grandes armas a mostra (parecia até um clip dos Cramps, mas sem o mago).
Brinquei: "acho que vai ter mais policial do que manifestante neste ato". Infelizmente minha piada esteve próximo de estar correta, como disse acima: cheguei no local da manifestação e me senti um "criminoso inquestionável", com todos aqueles policiais (de alguns era possível apenas ver os olhos, por de trás das máscaras pretas) me encarando. 
Alinhados ao redor daqueles que queriam se manifestar, policiais militares das mais distintas divisões da corporação seguravam fuzis (com balas de mentirinha e balas de verdadinha), nos encaravam de cima abaixo, alguns já ensaiavam um som de percussão entre cacetete e escudo, e outros conversavam e riam entre eles.
Alguns metros de descida pela Rua da Consolação, e eu vi que dois policiais viram quem era o rapaz que pixou uma agência de banco, poderiam ter feito uma prisão em flagrante ali. Não era a parte mais movimentada ou aglomerada do ato. Era, na verdade, a raspa do tacho do ato. Era só entrar, pegar o rapaz e levar embora. Mas, tendo em vista a teatralidade do espetáculo que ocorreu mais tarde, entendi que pra eles prender um manifestante em flagrante, sem alarde, não interessaria muito.
Mais alguns metros de Consolação e as primeiras bombas, correria, vinagre na cara pra fugir da sensação ruim e um reagrupamento do ato. Mais a baixo, já no Vale do Anhangabaú, mais bombas e mais correria. 
Eu e a minha galera nos escondemos em uma lanchonete na Rua Sete de Abril. Com a porta semi fechada pude ver camburões da "força tática" subindo a estreita rua em alta velocidade e em zigue zague - o que me parece ser uma estratégia para que as pessoas saíam da rua.
Após muito observarmos ao nosso redor, decidimos nos reencontrar com a rapaziada que estava firme no ato, na frente da prefeitura. Quando cruzávamos o Viaduto do Chá, mais bombas, mais correria, desta vez corremos no sentido da estação República, de onde iríamos embora: as pernas já estavam cansadas, a garganta arranhada e o sistema respiratório completamente irritado.
Mas teve mais.
No caminho para a República um ambulante que vendia água reclamava: "por que sempre acaba assim? Sempre acaba assim!". Ainda pude ver policiais militares desfilando suas pistolas automáticas em mãos. O dedo indicador de um deles já estava dentro do espaço onde fica o gatilho, era só apertar e ceifar uma vida; fácil assim, nada de mais.
Paramos a dez metros de uma das entradas do metrô. Já havia jogado o pouco vinagre que restara fora. Bebíamos uma água e observávamos um último grupinho de manifestantes que passava pela Rua Ipiranga, na direção da Consolação, aos cânticos de "que coincidência, não tem polícia, não tem violência".
Três rapazes que vinham ao fundo do pelotão jogaram uns sacos de lixo que estavam na beira da rua, no meio da rua. No tempo de nos levantarmos e chegarmos na entrada do metrô já ouvimos as primeiras bombas lançadas pelos policiais. Eles não estavam longe dali, eles viram quem foram os rapazes que cometeram o delito (e que delito hein?) de jogar os sacos de lixo na rua, eles poderiam tê-los prendido... Mas o circo, ah o circo das bombas explodindo e da população (em manifestação ou não) correndo em pânico parece lhes interessar mais do que qualquer outra ação efetivamente prática para os intuitos de prender quem comete "delitos" (não dá pra considerar jogar lixo na rua um delito, se assim fosse, todas as feiras livres terminariam em tiro, porrada e bomba).
Dentro da estação o cheiro do gás lacrimogênio era forte, beirando o insuportável. Uma mulher levando três crianças (uma delas no colo) não conseguia abrir os olhos para ver o que estava acontecendo; as três crianças choravam. Os seguranças do metrô lacrimejavam. 
Um homem (com crachá de "engenheiro da linha amarela") pedia para que todos descessem para as plataformas, que fosse para esperar um pouco, nos explicou: o sistema de circulação de ar da estação puxa o ar da rua para dentro da estação, se a polícia solta gás na rua - surpresa! - ele entra na estação. "Mas eles sabem disso?", perguntei, "hãm, claro que sabem". Eles também estava puto.
Naquela noite meus olhos e nariz arderam por mais uma hora ainda. 

Não pude ir aos dois atos seguintes (e considero não ir nos próximos até que o alvo deles seja o governo do estado, e não apenas a prefeitura). Também não me surpreendi com as notícias de repressão policial nestes dois atos. No entanto, me chamou a atenção o seguinte vídeo, feito ontem (27/01) ao final de mais um ato:


Nele é possível ver uma estação de metrô (a Faria Lima) repleta de pessoas e sendo tomada por policiais militares. É possível ver que estes querem afastar tais pessoas das catracas. Também podemos ver que bombas de gás lacrimogênio são lançadas pelos policiais no interior da estação. Vemos policiais chutando pessoas com roupas e apetrechos de "trabalhadores de mídia". Vemos um grupo de cinco ou seis policiais imobilizando, apertando o pescoço, jogando no chão um rapaz, mas não vemos mais coisas que ocorreram ali, pois eles 'enveloparam' o rapaz em seus escudos. Vemos também policiais "provando do próprio veneno" e passando mal com os efeitos altamente nocivos do gás. Vemos pessoas que não tem nada a ver com o ato correndo sem saber o motivo. Vemos um rapaz ser pego com violência por um policial por apenas dizer: "desastrosa a sua operação, a sua operação... eu vou responsabilizar o senhor por isso...".
Neste vídeo vemos muitas coisas que não fazem sentido de serem vistas ocorrendo: 1) dentro do espaço fechado que é uma estação de metrô (aliás, penso não existir crime que justifique transformar um espaço fechado em uma câmara de gás, isso soa meio nazista); 2) em termos de força desproporcional contra pessoas desarmadas; 3) em termos de um estado democrático.
E ai chegamos no ponto que eu queria chegar.

Nas manifestações de 2013 dizia-se muito que "não é por centavos, é por direitos". Essa frase é forte, mas, como muitas coisas nas manifestações daquele ano, foi esvaziada de significado, se tornando mero chavão.
Quando minha irmã me ligou, no dia 16 de Janeiro, e pediu para que eu não fosse na manifestação (com medo do que poderia me ocorrer perante policias tão bem armados), lhe falei basicamente esta "frase-chavão": há uma estrutura do poder público (o detentor da violência do estado) muito bem armada para intimidar e acuar as pessoas, para que não se manifestem, não se pronunciem e sigam trabalhando, e pagando caro por um transporte ruim, e chegando em casa e não encontrando água na torneira (mais um motivo pra nos levantarmos contra o governo do estado). A polícia não está indo nesses atos como "força de repressão", e sim tem lá estado como uma força  de opressão, como se dissesse: "não é pra você se manifestar coletiva e publicamente, se mesmo assim você insistir, bom, você está vendo nosso armamento e nós não nos privaremos de o usar contra você".

Isso tudo dito, tanto a situação vivida por mim no ato de 16 de Janeiro, quanto diversos vídeos e relatos que tenho lido (e recomendo acompanhar o site da Ponte), creio que cabe perguntar (com perdão pelo trocadilho): em que tipo de estado temos estado? 
É uma democracia, pois em Outubro fomos às urnas duas vezes? É uma ditadura, pois todo ato-manifestação é vigiado, cercado e implodido pelas forças de violência oficial do estado? É uma "ditadura de ocasião" em que, dependendo da ocasião, as forças policiais podem agir como verdadeiros pelotões para-militares? É uma "democracia de situação", em que, dependendo da situação, os direitos básicos serão garantidos?

Creio que ir em mais alguns atos pode ajudar a refinar tais perguntas. Por ora, segue uma foto que gosto muito. E gosto dela por a odiar e por me causar frio na espinha, pois geograficamente falando eu moro dentro dos limites formado pelas viaturas.






quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Fissura no vidro da panela (oscilação perigosa).


Às vezes a gente fica naquela oscilação perigosa, que parece que não quer mais nada, depois parece que você quer mais - e melhor que seja tudo. Ai você se enrijece todo e diz "não, eu não preciso", mas em seguida já é um "caramba-credo-me-perdoa-preciso-sim". Mas é ai, nesse ponto, acontece a tragédia: você tem um telefone. E nesse telefone (por que é século vim teum meu!) tem mais o número de um monte de telefone. E se no século 19, sobretudo na Franca, era "cada cabeça uma sentença", dá pra dizer que hoje em dia cada telefone é uma sentença. Ou cada cabeça é um telefone. E tem uma dessas cabeças para quem você pode ligar e perguntar se tem, se rola, se dá pra ser agora ou se vai virar só amanhã. Mas você ainda tem te azucrinando aquele mosquitinho diabólico da oscilação perigosa. Ele já picou umas dez pessoas, está recheado com sangues diversos (deve ter umas cinco ou seis doenças sanguinalmente transmissíveis sendo fermentadas dentro da barriga dele), ele está pesado, mas ainda consegue bater asas e voar e mirou no teu pescoço e "zzzzzuuuuiiimmmm", "plác", essa última foi sua resposta (cê tá ligado que esse último foi um tapa auto dado né?), mas é tarde demais. A oscilação perigosa ainda te ronda e te testa e te pica, com perguntas nada concretas como "você tem certeza disso?", "é isso mesmo que você quer?". Mas ai você já pegou o telefone, já ligou, já resolveu o assunto e é uma questão de horas pra você se esbaldar e matar o que tava te matando. 
Você, enfim, ligou pra sua tia avó e ela vai te ensinar a fazer aquele mingau que você comia quando era criança; ainda bem que ela atendeu o telefone. Agora vai lá campeão, vai matar essa fissura no vidro da panela.



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Corre! - em 4 partes.


Parte 1:

-Cooooorre, corre!
-Oi? - pergunta, mas corre.
-Não corre, calma caralho, calma, não corre!
-Oi? - para e caminha.
-Calma rapaziada.

BUM

Sai correndo.
-Corre! Calma, calma!
-Mas é pra ter calma ou pra correr?
-Você é livre pra escolher - coçam as nucas, ambos.
-Mas tudo faz um pouco mal, você não acha?
-Claro. Correr ou ficar parado, cada uma das escolhas faz mal. 
-Uma prum lado, outra por outro. 
-Isso.
-Agora, por que você acha que uma faz menos mal que a outra?
-Não é que eu acho isso, mas uma me diz mais respeito que a outra.
-Assim, assim?
-Não assim.
-Então como?
-Uma eu aceito por que todo mundo aceita. Outra eu temo.
-E por que?
-Por que... como não temer?

CLICK

-É. Deixa quieto. A hierarquização já foi feita. Melhor correr mesmo.
-Correr?
-É?
-Cooorreeee! Corre! Não, calma! Gente, calma.

Parte 2:
Um dia desses eu estava batendo boca. Na verdade era só uma conversa mais áspera ou ríspida. Não sei como defini-la. Meu interlocutor falava coisas que já ouvi muitas vezes sendo dita por ele e outros e outras e outrens diversos. Na verdade, às vezes enche o saco. 
E ai teve outro dia que eu vivi um encontro espantoso. Realmente não esperava que acontecesse aquilo naquele dia, ou em qualquer outro. Foi encontro não calculado, não planejado. E foi bom. Foi um encontro muito bom, embora eu tenha revelado: "faz tanto tempo que eu estou ouvindo as mesmas promessas de um mundo, uma vida etcs. Isso nunca vai chegar?", e isso tenha causado o famoso climão.
Mas ai voltando à primeira conversa desta parte II, ai eu virei e simplesmente disse: "todo dia eu acordo e dedico os cinco primeiros minutos do meu despertar em questionar o que que eu estou fazendo da minha vida. Todo santo dia".
Ai rolou climão também. E eu achei melhor dizer que estava atrasado e sair correndo mesmo.

Parte 3:
Invasão.
  Decepção.
    Repetição.
      Chateação.
        Só sensação.
          Negativa.
            Findada em ão.
              Corrimão.
                 Corridão.
                   Corre irmão.
                      Correntão.
Parte 4:
Ou "a sensação final mais sincera sonora respondida sem rodeios no exercício de dentro pra fora e de fora pra dentro e isso ai mesmo, talvez o melhor seja correr mesmo":




sábado, 17 de janeiro de 2015

Uma sobremesa com Cláudia, Duílio e Sahlins.


Fui almoçar na casa de minha gloriosa e octogenária avó. Não era um almoço qualquer, era uma feijoada. Nos acompanhavam na mesa o irmão dela, Duílio, e a filha dela (e minha tia) Márcia. Após a feijoada, a sobremesa. E sobremesa, em termos de minha família, merece um parágrafo à parte.
Bananas com paçoca. Ou paçoca com bananas.
Foi então que outra companhia se juntou a nós na mesa: Marshall Sahlins, o antropólogo estadunidense gente boa, que em 1997 publicou o artigo intitulado "O 'pessimismo sentimental' e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um 'objeto' em vias de extinção". Em linhas totalmente gerais, defende neste artigo que as culturas não ocidentais não estão (ou estavam, ao longo do século 20) sendo esmagadas pelas culturas dos europeus colonizadores, mas sim estavam passando por mudanças decorrentes dos encontros com estes. 'Coisas' europeias, modernas, industrializadas etc eram somadas às coisas e hábitos não ocidentais e "indígenas".
Dito isto, vamos retornar às bananas com paçocas.
Fazer, comer e distribuir potes de paçoca entre os parentes é algo que é realizado em minha família materna há muitos anos - chutaria que esse hábito já tem por volta de um século. Há, inclusive, um grande pilão que circula pelas casas de meus familiares, cada época está numa morada, embora esteja subutilizado nos últimos anos.
Apesar do pilão estar em um período de aposentadoria (que pode ser mais ou menos durador), a paçoca continua sendo feita, consumida, oferecida como presente aos sobrinhos/as, irmãos/ãs, filhos/as, netos/as (para uma das netas, inclusive, foi criada uma versão dietética) e demais parentes. 
Sem o pilão, os amendoins passaram a ser amassados e mesclados à farinha de mandioca e ao açúcar em um processador elétrico de alimentos. 
Na tarde de hoje minha avó colocou uma cumbuca com paçoca na mesa, Duílio olhou, comentou sorridente: "paçoca!". Minha vó lhe explicou o novo modo de fazer o sagrado doce da família: sem os transtornos do pilão, sem as dores nos braços, com mais rapidez, facilidade e - importantíssimo nessa história toda - mantendo o sabor e o hábito de termos a paçoca de amendoim, comida com bananas, entre nós.
O centenário pilão foi aposentado, o processador elétrico com lâminas de alumínio foi colocado em seu lugar. A paçoca, no entanto, continua firme e forte entre nós. Pena que Sahlins era só uma ilusão-referência textual-ilustrativa em minha cabeça, ele teria gostado muito da paçoca.


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Na minha mãe".


Foi fazer a sua sexta tatuagem, na vida e no próprio corpo. Todas eram pequenos símbolos e sinais que lembravam algo ou alguém ou algum momento ou coisa do gênero. A quinta tatuagem havia sido o símbolo de infinito (um oito preguiçoso, pois deitado) realizado em parceria com uma amiga, há cerca de oito meses. Foi, aliás, a última vez que viu tal amiga. Desta vez foi para tatuar três pequenas estrelas (de 0,5cm por 0,5cm cada) no ombro direito; cada estrelinha representava um de seus sobrinhos, nascidos nos últimos dois anos. Foi em uma tatuadora que não conhecia, indicada intensamente por um colega do novo emprego. Antes ainda de se deitar na maca, a moça lhe perguntou: "vi que você tem uma tatuagem no pé, já está acostumada com as agulhadas?", "já, além dessa no pé tenho uma aqui na cintura, outra aqui no pulso, uma aqui nas costas e essa no tornozelo", "uau", comentou a tatuadora, "então vai ser tranquilo fazermos essas estrelas", "vai sim". Enquanto rabiscava a primeira estrelinha, a tatuadora comentou: "e já sabe qual vai ser a sétima tato?", "a sétima? não sei, não pensei ainda", "sabe que não é bom ficar com tato em número par por muito tempo né?", "é?", "é, dá azar". Antes mesmo de começar a terceira estrelinha, já conversava com a tatuadora sobre fazerem, naquela seção mesmo, outra tatuagem: "você escreve 'mãe' com uma letra bem bonita no meu ombro esquerdo?". Dito, feito e tatuada. À noite o plástico de proteção de ambas tatuagens foi fisgado pelo lençol - e ela nem reparou, pois fisgava-se com o boy magia. Em pé, olhando para baixo (e um pouquinho para trás), e vendo os pés do rapaz, falou com vontade: "vem na minha cara", "na sua cara?", "vem", "vou", "vem". O rapaz errou a mira, ela sentiu uma ardência no ombro direito: "ai, você gozou na minha mãe".




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Teu filho é teu cu.


Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu.

Eu jamais diria que aquele veículo era desconfortável. Pelo contrário, era confortável e foi um pecado tê-lo sujado. Aliás, acho que eu jamais poderei dizer que ele era 100% confortável, uma vez que eu não sei dirigir. Em termos de carros, eu entro, se tiver alguém guiando, iremos para algum lugar, se a responsabilidade de guiar for minha, bem, o carro seguirá parado. Por isso não posso dizer que nenhum carro é 100% confortável. Houve uma vez que foi uma vez bem específica, mas, talvez, pro carro, tenha sido só mais uma vez. Foi específica, pois desconfortável. Foi a unica vez em que o carro foi ocupado por aqueles, digamos, três elementos. Não dá pra dizer que eram sólidos, tampouco líquidos, menos ainda que eram vapores livres, e também não poderiam ser reduzidos à pó; na verdade, era 12,5% de cada, e o restante (os outros 50% de cada um) era algum tipo de matéria bem viva que sempre está conosco até a morte. Havia um rapaz meio revoltado no carro, contava uma história e, não sei se entendi errado, mas parecia que cobrava os demais presentes por algo que não sabíamos o que - ou eu não sabia o que. Era uma história bem passada ("carne sem sanguinho", em linguagem educativa carnívora para crianças), que como raio em copa de árvore velha, rachou uma galera em mil pedacinhos perdidos na cidade. Depois causou um tremor de grandes proporções e desbarrancou todo um lar (daqueles que é nome de linha de ônibus). Não entendia do que se tratava, não entendia mesmo (talvez a minha matéria viva ali fosse só de uns 30 ou 20%). E me recordo apenas do rapaz repetindo que havia repetido várias vezes:

Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu. Teu filho é teu cu.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O ano do peixe.


Era de manhã, bem cedinho, e decidi me sentar sozinho rente a lateral do rio que corta o camping. É o meu último amanhecer por aqui, e decidi que, naqueles instantes, além de me despedir deste espaço, iria pensar na vida (esse exercício por vezes penoso, por vezes conflituoso). O lugar tinha um cheiro agradável para tal.
No entanto, não precisei observar o movimento da água na direção do mar por muito tempo pra encerrar o exercício, com um simples e ameno pensamento dito em voz baixinha para mim mesmo: "não tenho muito o que pensar na vida agora, assinei documentos em 2014, frutos dos planos de 2013, que só vencem em 2016, e o negocio pra agora, 2015, é só fazer o que tenho por vida para esse período, pensando na vida, sempre, mas tentando me manter focado em só fazer mesmo o que tem de ser feito".
Um peixe pulou para fora do rio (falo sério, não é metáfora), se debateu um pouco na areia e conseguiu escorregar de volta para a água. 
Encerrei a despedida ao rio e o momento de 'pensar-não-pensar' na vida de maneira sucinta: "volta e meia eu encontro um curso de rio pra nadar um pouco, não posso me queixar".

Esta iniciado 2015, o "ano do peixe", terceiro estágio na linha de planejar, começar, fazer e terminar.
Calcei os chinelos e caminhei até o banheiro.