domingo, 6 de dezembro de 2015

As cenas que Serra não viu.


Muita gente deve ter visto a publicação do Senador José Serra no Facebook no domingo da semana passada (29/11), criticando o Prefeito Fernando Haddad e a ação de abrir a Avenida Paulista para o trânsito de pedestres, ciclistas e realização de atividades diversas. Para quem não viu, segue o replay aqui embaixo (clique na imagem para vê-la grande):

Quem estava em São Paulo naquele domingo se recorda da chuva pesada e constante que caiu sobre a cidade durante quase todo o dia, e também deve ter ouvido falar que ocorria prova da Fuvest, vestibular que mobiliza grande parte da juventude da cidade - sobretudo da juventude rica.
Bom, hoje (06/12), assim como em 29/11, passei de bicicleta pela Avenida Paulista. Hoje estava sol, uma tarde quente na cidade, clima oposto ao da semana passada. E, assim como nos recentes domingos, a Paulista foi aberta para a vida social e fechada para os carros. Havia muita coisa acontecendo: shows musicais, aulas de dança, pessoas fazendo pic nic, crianças correndo, gente fazendo bolhas de sabão enormes etc. Fotografei alguns desses acontecimentos.
Como infelizmente não vi o Senador por ali publico aqui as fotos para que ele as veja. Atenção Zé, as cenas a seguir podem ferir o seu bom senso, aquele de rapaz apalavrado com os munícipes mas que abandonou o mandato da prefeitura em 2006.
Abaixo os "infelizes paulistanos" do Serra:












quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Lavar as mãos para almoçar.


Olhei para as mãos sujas e pensei se seria melhor lavá-las no banheiro mais distante do restaurante ou no que há próximo a sua entrada. Me recordei de outro restaurante, em que não havia tanto esta opção: a pia ficava ao lado da entrada, e se passava por ela antes de acessar os alimentos. Em razão do espaço ser relativamente pequeno, e os rostos deveras conhecidos entre si, havia certa expiação: "Gabriel, não vi você lavando as mãos", "é que eu já tinha lavado no banheiro antes", "sei...". Era curioso. Teve uma época que até se sentar e comer era necessário participar de três filas: para pagar, para lavar as mãos e para pegar a comida, às vezes havia uma quarta, para esperar vagar um lugar nas mesas brancas com ferros pretos. Neste modo de organização, muita comida ia pro lixo, e houve uma reorganização no modo de acesso a ela, que representou mais filas: uma para comprar um bilhete (frequentemente mais disputado do que tickets para show de reunião de banda caquética de roque), mais tarde, uma para entrar no restaurante, outra para lavar as mãos, para pegar comida e, às vezes, a de esperar um lugar vago. Certa vez me questionei: "com quantas pessoas distintas já me sentei nesses bancos? Será que em um futuro mais distante me lembrarei delas?". Me perco nestes redemoinhos de lembranças, e quase me esqueço que preciso lavar as mãos para almoçar.


domingo, 29 de novembro de 2015

Imaginando Manchetes.


Pela manhã, nas bancas de jornais, a manchete da página principal d'O Estado de São Paulo (Estadão) indica: "Bicicleta, a nova aliada de São Paulo". Na Folha de São Paulo (Folha), seguindo a mesma lógica, o caderno Cotidiano teria uma página inteira com textos comentando os benefícios da bicicleta para a cidade, para o trânsito, para as pessoas, para o meio ambiente etc.
Hora do almoço, tv ligada na Globo, SPTV. César Tralli aparece sorridente, com um pedaço de Marginal Pinheiros ao fundo do cenário feito de vidro. Falando e sorrindo, se aproxima do telão que há no estúdio, e comenta feliz: "tá todo mundo entrando na nova moda da bicicleta. Você anda na rua, nas grandes avenidas e é bicicleta pra lá, bicicleta pra cá, uma maravilha! Parece que essa moda veio mesmo pra ficar entre os paulistanos, né Fulana?". Fulana é uma repórter, que está ao vivo em alguma rua de São Paulo, mostrando o intensivo movimento de pessoas em bicicletas. Ela comenta o fenômeno com o mesmo entusiasmo do apresentador.
Na hora do intervalo uma chamada das Casas Bahia começa com uma família heteronormativa, branca e sorridente. Pai mãe, filho e filha, nessa ordem. Todos estão utilizando capacetes e pedalam alegremente suas bicicletas pela Avenida Paulista. A voz grossa do narrador anuncia: "a Casas Bahia está quebrando os preços de bicicletas. Compre já a sua, em até doze vezes sem juros. Várias marcas e modelos, para crianças e adultos. Confira as ofertas". E ai passam os preços - e possivelmente alguma promoção: "na compra de uma bicicleta da Caloi você ganha um capacete, comprando duas bicicletas ganhas dois capacetes e garantia estendida".
Mais tarde, já na Bandeirantes, José Luís Datena começa o "Brasil Urgente" chamando um link ao vivo, em alguma grande avenida de São Paulo. Com a revolta ditando o tom da voz, esbraveja: "Estamos com o Comandante Hamilton sobrevoando onde ocorreu o atropelamento de outro ciclista. É um absurdo isso! Isso tem que acabar! Como pode numa cidade como São Paulo ter tanto ciclista atropelado? Eu não sei nem o que tem que acontecer com uma criatura dessas que atropela um ser humano que está de bicicleta! Já prenderam o assassino Comandante?". Hamilton também está indignado.
Novela das oito na Record, em uma nada sutil ação de merchandising, uma personagem entra numa loja da Riachuelo, acompanhada de uma amiga. Seguem direto para a seção de roupas esportivas, e provam muitas roupas "para pedalar". As personagens travam o seguinte diálogo: "nossa amiga, eles estão com uma promoção super massa nessa loja, a cada duas peças de roupas para andar de bicicleta que você compra, ganha um cupom para concorrer a uma bicicleta por dia", "sério?", "sério!", "nossa, então eu já vou comprar seis peças, pra ter mais chance no sorteio, por que a minha bicicleta está tão velhinha, coitada", risos.

Assim seria um dia comum na mídia paulista, caso a implantação de ciclovias e ciclofaixas fosse ação de uma gestão municipal com interesses aliados aos da grande mídia.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dois anos sem dormir.


"Vinte meses em claro, quase dois anos sem dormir, prece rezada em longos atos, 
'Senhor, arraste-os para onde eles não possam mais mentir'".

Conto nos dedos os compromissos para fechar mais um ano. O vigésimo sexto na vida, o segundo no retorno à São Paulo, o segundo como mestrando, o quarto como cientista social, o vigésimo como Corinthiano etc.
Começo essa prosa lamuriosa com verso de um "grande nó", do Ludovic (não consegui ir em nenhum dos shows de reunião realizados este ano), não por acaso.
Gostaria de esvaziar o conteúdo metafórico do assunto, e retomar os dados numérico-anuais expostos acima, ressaltando o término do segundo ano como tal e tal. Quase dois anos sem dormir.
Me diziam, ainda neste ano - que parece que durou uns três - que é curioso ter de transitar entre tantos espaços distintos como eu faço. É mesmo. E eu sempre dizia: "é curioso, e é um saco". E que saco, por que em nenhum deles eu consigo dormir direito.
Faz vinte meses, na verdade vinte e um, se eu for ser rígido com os números, que essa palhaçada de não conseguir dormir direito começou. Eu sempre tive, aqui e ali, uns probleminhas pra empacotar no sono. Teve uma época que um remedinho ajudava, teve outra época que era outro remedinho, cheguei até a acampar em casa, e tem essa época, em que é o barulho incessante dos carros na rua, as rangeções do portão, os gritos estranhos que ecoam pelo bairro, o barulho do motor do portão do prédio da quadra de baixo, a ventania na árvore do jardim ao lado, os passos pesados do rapaz do andar de cima, o cachorro do vizinho brigando com a sua tigela de água e por ai vai. Tudo isso me faz estralar os olhos e acordar, ou sequer dormir.
Os ouvidos nunca se fecham por completo, os olhos parece que não pregam mais, e a cabeça não alcança mais o estado de relaxamento total (ou semi total) de outrora. Que merda eu tinha na cabeça quando achei que seria uma boa ideia? Não há descanso, isso não existe por aqui: estou há dois anos sem dormir.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Jovialidade & Sustos.


Não é do meu feitio olhar para as coisas e situações vendo mais o lado ruim do que o bom, mas esse ano a gente levou um sustão, hein? E depois do susto, depois que as pernas param de tremelicar e a gente volta a ver e viver as coisas em um ritmo mais ou menos ordinário, a gente senta e toma um café - ou um capuccino - adoçado pela prosa.
Você já morava em São Paulo, naquela casa na Aclimação, que a cada relato sobre ela faz a minha imaginação voar tão longe, para a cidade daquela época, para o seu jeito de ser jovial - jovialidade mantida, apesar dos sustos.
Havia um jardim, uma garagem e um cachorro nesta casa, e certa vez apareceram alguns filhotes de gatos por lá. Como havia um cachorro, as vozes que orquestravam as regras da casa orientaram que os gatos fossem levados para outro lugar, uma fazenda, se não me falha a memória.
Ah a jovialidade, a sua jovialidade. Me contou com um riso tão gostoso, maroto, de uma malandragem pueril, que escondeu um dos gatos dentro de casa, para que não fosse levado ao sítio. Passados alguns dias o gato já era parte da casa.
Imagino você, garota, jovial no jardim, na garagem, com o gato, com o cachorro, rindo e sorrindo - eu já falei que sou encantado pelo seu sorriso e por você. Imagino as vozes das ordens da casa se assustando com você ao verem o gato em casa. Lhe imagino desde sempre, causando sustos e sorrisos, muitos sorrisos.

Feliz Parabéns Vó!




segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Revisitando, reconceituando e repensando.


Lembro que naquele fim de tarde não fazia sol, o céu definia um tempo bem nublado, mas fazia calor. Talvez era o mormaço de um dia inteiro de vapor subindo da rua aos céus e sendo bloqueado pelas nuvens, causando uma massa escrotamente quente. Naquela época, inclusive, eu era professor de geografia, e naquele dia havia dado as quatro primeiras aulas da manhã, minhas sextas feiras eram assim. Voltei para casa, almocei, dormi, acordei inquieto, e após horas brigando comigo mesmo, me obrigando a ser útil, entendi que nada sairia de mim trancafiado em casa, e que o melhor era sair para fazer qualquer coisa para além do portão. Olá sociedade de consumo. Fui para o supermercado mais próximo, eu precisaria fazer um estoque de bebidas e alguns alimentos pro final de semana mesmo. A minha lembrança, rolando sofregamente o pdf para baixo aqui & agora, na verdade, começou depois que saí do mercado. Uma sacola com algumas latas de cerveja barata quente, algum tipo de comida fast, um saquinho de amendoim com tempero/veneno vermelho e uma garrafa de uma cerveja um pouco diferente do usual gelada. Me sentei em um banco de cimento a frente do estacionamento a frente do mercado. Tomei a cerveja comendo os amendoins e escrevendo algo no caderninho que me acompanhava na época (de capa vermelha). Havia saído sem o celular, não queria ser encontrado, não queria saber das horas. Quando a cerveja e os amendoins acabaram, e a claridade que passava pelas nuvens cinzas já era baixa, decidi que era hora de voltar para casa. Passos curtos, as sacolas batendo nos calcanhares. Cruzei o pontilhão no instante em que a chuva começou a gotejar, e me escondi da pancada forte de água debaixo do toldo de uma fábrica de produtos químicos para limpeza. Esperei a chuva passar, não tinha pressa, e lembro que fui caminhando por uma rua de lama, pelo puro prazer de sujar os tênis. Quanto tempo dura a alegria por um título? Me perguntaram certa vez. Ao chegar em casa e ligar o computador, no dia desta lembrança, a ansiedade se tornou explosão das mais positivas, das mais campeãs. No entanto, não demorou para que começasse a se dissolver, como o amaciante para roupas que rende mais - apenas um copinho em cinco litros de água - e ao pressionar o ponto no final desta frase voltarei a rolar sofregamente o pdf para baixo e a me questionar: "onde eu estava com a cabeça em achar que seria uma boa ideia?". 


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Malcriadinho passa mal.


Ninguém estava destruído, a casa era boa, o sofá confortável e o almoço tinha sido bem do bom sim. Confabulávamos, sem semelhança alguma nos discursos. Fosse presente a imagem clássica da moça com a venda nos olhos segurando uma balança rústica, ela teria erguido um pouco o lenço sobre os olhos para tentar entender se o que ocorria em suas mãos era mesmo o aparente e tamanho desequilíbrio. No entanto, havia certo tom harmonioso - talvez um respeito mútuo, talvez alguma esperançazinha guardada nalgum canto - que dava um clima cordial de resolução adulta à questão. Dentre tantas falas sinceras uma se destacou: "só queria te pedir pra não fazer tal coisa". Lembro quando era criança e as tomadas de casa tinham um protetor plástico pois eu teimava em colocar o dedo (e demais objetos) nos furos atraentes delas. Não existe natureza humana, tampouco acredito numa "personalidade inata", eu só era teimoso. Era, sou, fui. Respondi meio de pronto, meio sem pensar, "não te importa o que eu vou fazer" (de certa forma eu já sabia que iria fazer "tal coisa"). A cordialidade acabou, o sofá ficou desconfortável, o desequilíbrio tornou a ser lógica ambiente. "Você é bem malcriadinho às vezes, credo". Malcriado. Deveria ter dito: "não me ensinaram a lógica para não cutucar tomadas, simplesmente as tamparam", isso configuraria mal criação? Mas não é disso que eu quero falar com isso tudo. Gostaria de dizer que até aqui intercedeu o Senhor, e deveria ter lhe dado ouvidos, pois a "tal coisa" na verdade foi apenas uma desgraça que veio para desgraçar mais ainda as desgraças dos meus dias. Fui malcriadinho, e como passei mal.


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

E mergulhou.


[Antes de ler, dê o play aqui, e então comece a ler].

Sei que é ousado, mas digo (de maneira pretensiosa) que estou ouvindo o som da sola dos seus dois pés batendo sobre a superfície da água em uma piscina de azulejos azuis fincada no meio de um chão gramado no meio de uma área arborizada que me lembra um lugar bonito onde já estive mas nem de longe é tão bonito assim. Bato os pés e não me canso por que a sensação é uma delícia, e o som é também prazeroso. Repetitiva e multiplamente prazeroso. E essa passarinhada que chegou em seguida? Chegou uma nuvem: centenas, talvez tenha um milhar. São coloridos, não são da mesma espécie nem nada do gênero - os especistas já foram dormir. É uma nuvem de pássaros distintos mesmo; é tipo naquele filme preto e branco clássico com urubus dentro da sala, mas aqui é diferente, eles são bem suaves e se dão super bem e cacete passarinho com dentes sorrindo eu nunca tinha visto. Cantam numa harmonia tão intensa que até parei de bater as solas dos pés na superfície d'água da piscina de azulejos azuis para ouvir apenas eles, e para observar os movimentos que realizam no céu me focando apenas nisso. E os pássaros fazem um revezamento muito bonito, olha essas cores todas fundindo no céu azul claro - como os azulejos da piscina e as asas daqueles pássaros que se separaram da rapaziada de asas pra emitir outros tons, outros temas, outras linhas no céu. Olho para a água e vejo as nuvens de passarinhos dispersos se refletindo nela. Que espetáculo essa piscina cheia, de água e de gente, e empolgação, todos batem os braços, riem animadamente, sorriem, estamos todos nos divertindo. Parece o tipo de cena que eu jamais achei que viveria ou o tipo de cena que nos vendem como ideal de felicidade em comerciais fajutos mas é mais. Não é possível esses passarinhos mergulhando fundo na água da piscina e se fundindo às pessoas e se tornando pessoas e as pessoas ganhando asas e alçando voos e retomando mergulhos; e não há papéis fixos nessa dança toda. Vou fazer uma pausa para registrar isso mentalmente como uma foto............. Pronto.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma cena qualquer nesse cenário.


Tomando um copo de suco tóxico gelado,
Esperando um xixizinho quentesperto descer.
Um alarme estoura alardeante na rua,
Estouraram antes um vidro.
O tapete listrado aqui macio é gostoso,
O barulho do vidro estilhaçando no chão.
Desligam o alarme entre ofensas,
Outro gole ácido na geladez tóxica.
O xixi desceu quentesperto,
Devo agradecer por essa rotina?


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Rua suja, rua viva.


Segunda feira, doze de outubro de dois mil e quinze. Foi quase as seis da tarde que aproveitei o fechamento de um semáforo na Avenida Francisco Matarazzo para encostar a bicicleta perto de um poste e tomar uma água. Durante a pausa notei que o ponto de ônibus em frente ao Parque da Água Branca estava lotado. Adultos, crianças e balões flutuantes com formas de personagens de desenhos animados ocupavam aquele espaço. Vozes e risadas eram ouvidas do outro lado da avenida, onde eu estava. O Parque estava fechando, e não parava de sair gente de dentro dele. Olhei o chão, tanto do ponto quanto da rua, e o vi repleto de latinhas de alumínio, garrafas plásticas, saquinhos vazios de pipoca, picolé, salgadinho etc. Como parte da estrutura do ponto de ônibus, feito com algum tipo de aço, duas lixeiras, que transbordavam estes mesmos vestígios de produtos consumidos em um feriado de lazer no Parque. "Não adianta dizer que a população não joga o lixo no lixo se o lixo já está cheio de lixo", pensei. Tornei a pedalar, e mais a frente, onde há duas ou três baladas, mais lixeiras cheias e mais resquícios de garrafas e embalagens diversas na calçada e na rua. 
Por um lado é ruim ver a rua suja, por outro lado é muito bom, é sinal de que pessoas passaram ali, pessoas viveram ali, pessoas consumiram picolés entre risos, pessoas beberam com os amigos, pessoas fizeram com que a rua se tornasse coisa viva, tirando-a da condição de mero trecho de passagem para carros segundo o google maps ou o waize. 
Já a rua muito limpa não me soa sinônimo de rua bem tratada, penso eu, mas sim de rua não vivida, não frequentada. 


terça-feira, 13 de outubro de 2015

A hipótese e a confirmação da tese.


Este texto surgiu de uma conversa com meu amigo André no dia em que fizemos isso: clique aqui
Aviso logo de antemão que usarei conceitos complexos apenas como palavras. Interprete como quiser, mas lembre que só deus pode me julgar.

A nossa sociedade lida com modos de vida muito cristalizados, verdadeiras fórmulas para tocar o viver adiante. Não creio que sejam cristalizadas pela eficácia em proporcionar uma boa vida - até por que, como diz o Peixe Morto, se estamos no auge dos tempos, por que tanta angústia?. Não acho, na verdade, que proporcione uma boa vida, vide as caras bravas dentro do ônibus e do trem, a quantidade de garrafas de corote que vejo largada pelas ruas, as filas gigantes em farmácias e o lucro inabalável da Ambev. 
Acho que isso ai que oferecem pra gente é só um modo de vida cristalizado pela conveniência. A busca pela estabilidade financeira, a compra da casa própria, o respeito ao patrão, a aceitação a tudo que não é tão bom assim mas tudo bem, poderia ser pior...
Se você começa a fugir um pouco dessas convenções pode ser que o pessoal te olhe com certa desconfiança, olhos arregalados ou um pouco entortados. Talvez até parem de olhar pra ti. Pode ser que comecem a falar mal sobre você, mas não mal para você, pra você tá legal, vão falar mal de você entre essa rapaziada, que vê o corromper à norma como negativo, como desvio-débil - ai o Fulaninho ali é louco ele mexe com uns negócios de banda de roque; ai a Fulaninha ali olha ela faz uns negócios esquisitos com tambor; olha ali ele de novo seguindo o caminho errado parece que não aprende que tem um caminho certo.
Saiu da norma é um tal de eeeeeeeppppppaaaaa ao tom mais Jorge Lafond possível. Histeria, não aceitação, gritos, preocupação, desnormatizações do próprio comportamento normativo para denunciar a fuga da norma por parte do outro: precisamos trazer a pessoa de volta à norma.
Nesse processo todo tem duas perguntas que me saltam à vista pela recorrência com que são feitas e pela lógica empregada para a realização destas.
A primeira pergunta soa mais como uma hipótese: "você tem merda na cabeça?". Geralmente é realizada quando as batidas fora do bumbo ainda não foram sistematicamente identificadas e mapeadas como um desvio frequente da norma. A pessoa fez um troço estranho aqui, outro dia ficamos sabendo que ela fez outra coisa assim. "Será que ela tem merda na cabeça?", o pessoal da firma ou do departamento vai perguntar na hora do cafezinho.
Já a segunda pergunta tem um tom de confirmação implícita: "que merda você tem na cabeça?". Aqui já há um diagnóstico: o de que há merda na cabeça, a dúvida agora é qual tipo de merda permite à pessoa se sentir à vontade para consumar tais desvios em suas ações. Normalmente essa pergunta é empregada por alguém que convive com um desviante e já reparou que aquela pessoa não pertence ao Olodum ou ao Timbalada, pois suas batidas com intensa frequência se dão fora do bumbo.
Desta forma, noto que pessoas que me conheceram, por exemplo, no ano passado, frequentemente dão risadas em algumas situações e comentam, "nossa, você tem merda na cabeça?", com um riso de desagradável desconfiança. Já a minha mãe, quando me sento ao lado dela no sofá e compartilho o que tenho feito, se lamenta: "que merda você tem na cabeça?", sem riso, é só lástima mesmo.
"Dito isso tudo, que conselho você daria para quem é jovem?".
Resposta: desvie, desvie muito, essa normas não valem a pena. Uma sociedade que se preocupa em comer iogurtinho direitinho para defecar bonitinho mas não olha pro próprio cocô e só toma merda como referencial para o que ela própria decidiu que é ruim não merece que você siga as normas dela.
Gostaria também de agradecer ao André, que já foi mencionado, também o Manolos e alguns autores das ciências humanas (eles sabem quem são). 


Napa Daria.


Teve uma época na vida, não me recordo ao certo qual, creio que eu tinha por volta de uns treze ou quatorze anos, em que eu gostava muito de comer sonhos, e as pessoas em volta me estimulavam nessa fissura cotidiana pelo prazer e pelo desejo de comer sonhos de maneira intensa, extrema, por vezes até exagerada, creio. Lembro que não raro chegava na casa de meus avós e havia uma caixinha com três ou quatro sonhos dentro; não raro algum outro parente ia à padaria e me trazia dois sonhos. "Coma, coma tudo, pode comer, você gosta, você adora, e se gosta tanto, coma, se esbalde". Educação para o exagero. Essas coisas criam marcas bem fortes na personalidade da gente, vejo hoje; parece besteirinha do dia a dia, mas não é não.
Mas não é disso que eu quero falar, mas foi bom ter falado disso.
Um tempão depois dessa época, uns dez anos, eu fiz um trabalho com uma rapaziada tão sangue bom que tenho certeza que se fossem doar sangue cada litro doado facilmente se tornaria uns dez litros nos bancos de sangue. Era realmente prazeroso fazer aquele trabalho, ouvia com atenção o que diziam, fazia alguns registros etc. Falavam muito sobre sonhos. Lembro que o cara mais falante da rapaziada uma vez explicou por que o cara que "comanda a coisa toda" era de pouco falar, às vezes até ficava no fundo da casa para não ter que falar muito - não vou contar o motivo - mas me recordo que ele disse: "o Fulano tinha um sonho, e ai ele abraçou esse sonho e tocou a vida dele em razão disso".
Agora a pouco eu entrei no site deles, noite passada tive um sonho que me lembrou das coisas que a gente conversava e vivia e eles faziam e eu observava e anotava e depois de um ano, mais ou menos, eu entreguei um relatório pra alguém, alguma instituição. Mas não falei de sonho, pros burocratas isso não interessa. Sonhei e entrei no site da rapaziada, que, de certa forma, representa uma materialização foda do sonho do cara.
Volta e meia eu sempre lembro das conversas sobre sonhos, não só com eles, mas com um monte de gente. Penso no último ano, que foi meio barra forçada em porta de vidraça - eu não precisava ter vivido um monte de coisa que me obriguei a forçar viver. Penso que talvez a gente não dê tanto valor assim pros nossos sonhos.
Dai foi agora a pouco, já tarde da madrugada, que lembrei dos sonhos comidos de maneira exagerada, dos sonhos que os rapazes falavam, do sonho que tive noite passada e parei pra pensar em busca de qual sonho eu tenho corrido. Observei que me deixei ser engolido pela rotina de obrigatoriedades imediatas. 
Coloquei uma música do meu compositor favorito, de certa forma me emocionei ao ver que, porra, o cara está fazendo isso há uns vinte anos já, e já declarou que era um sonho pra ele. Eu me sinto um babaca nessas situações. É necessário demarcar exatamente qual o sonho, qual o motivo disso tudo, e abraçá-lo com vontade, com intensidade, com a vida, comer com exagero quando ele chegar para conseguir tocá-lo adiante, tocar-me adiante. 
O resto é a mentira que bate na cara quando a gente acorda e vê que bosta, só mais um dia nessa merda. Volte a sonhar Gabriel, você não pode se deixar ser só mais um burocrata pra quem isso não interessa, você não pode ser só mais um entrando despretensioso napa daria dessa vida toda. Não seja babaca seu troxa, volte a sonhar e abrace com vontade o que soar verdade.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sobre viralatismo e vinhos.


O ano era 2007, e algum canal de tv aberta (Gazeta ou Rede TV, não lembro) exibia após o seu show futebolístico aos domingos à noite (composto por homens tentando vencer discussões sobre os lances dos jogos na base do berro) um programa sobre vinho. O apresentador era um rapaz chamado Lopes. Lopes aparecia sempre bem vestido em um terno alinhadinho, em gravações realizadas em um ambiente feito de madeira, com pouca luz - a maior parte da iluminação ia nele, auto intitulado "o homem do vinho". Lembro que os patrocinadores do programa eram lojas e importadoras de vinho: vendedores internacionais de drogas que causam alterações sensitivas, comportamentais, psicológicas e dependência naqueles que as consomem, ou seja, verdadeiros Pablos Escobares.
Lopes, o homem do vinho mostrava rótulos e fazia degustações deles. Falava dos sabores, das uvas envolvidas na produção, de com quais tipos de comidas combinariam. Lopes, o homem do vinho dava dicas de como montar uma adega em casa, de quais vinhos servir em qual tipo de ocasião social, estação do ano, cor de toalha, cor de roupa etc.
Me inquietava o fato de que o homem do vinho não falava de vinhos produzidos no Brasil, e, em razão disso, algumas vezes mandei e-mails para Lopes pedindo uma análise dos meus rótulos favoritos naquela época: San Goés, Sangue de Boi, Chapinha e Lazzari (este último fabricado sob demanda da rede de supermercados populares "Dia%"). Lopes nunca me respondeu, e nem nunca analisou meus vinhos na televisão. Eram só "rótulos chilenos" para cá, "novidade francesa" para lá, "combinação italiana" acolá. 
Esses dias, por agora mesmo, fui comprar um vinho de marca brasileira. Fazia tempo que não consumia tal droga sacra, e fui procurá-la em um canto do mercado onde há uma "climatização" para a venda dos vinhos: o chão é feito com um piso em taco de madeira, diferente do solado emborrachado do restante do mercado, as prateleiras, igualmente em madeira, diferem-se das demais. 
Nesta noite havia uma degustação, um rapaz vestindo terno servia vinhos em pequenas taças plásticas para pessoas vestindo ternos ou sapatos de salto, que conversavam de maneira amena em pequenas rodas. No ambiente, complementando a "climatização", uma música clássica - não identifiquei qual - era reproduzida em um volume agradável. Um segurança posicionava-se em uma espécie de entrada a este setor, e observava cada movimentação das pessoas.
Acessei o espaço com as prateleiras e transitei por entre elas, observando que eram divididas por países, indicados pelo nome e a bandeira. Assim, havia a prateleira do Chile, a da África do Sul, a da França, a da Alemanha, a da Itália, a da Argentina. E nada do Brasil. Perambulei duas vezes por entre todas as prateleiras: "será que não tem vinho brasileiro aqui nesse mercado?".
Foi então que observei, para lá da demarcação do piso em tacos de madeira, para lá da área ambientada como "de vinhos", uma placa indicando os "vinhos nacionais".
Se pensam viradores de taças finas mas me parece que, na verdade, essa rapaziada apreciadora de vinhos é um bando de vira latinhas, hein? O que é do Brasil é "nacional", não merece o nome do país, não merece o desenho da bandeirinha, não merece o piso de taco, não merece a musiquinha clássica, não merece que o segurança observe. Não merece uma análise sobre o sabor, o que combina e o que não combina com ele, não merece espaço em sua adega pessoal. 



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Autoconhecimento - I


"Onde você vai almoçar?"
Naquele lugar que eu frequento,
Em troca de dinheiro,
E um futuro documento.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Autoconhecimento.


Eu queria trabalhar na C&A,
No antedimento ao cliente,
Só para poder passar,
O dia inteiro falando com gente.




domingo, 6 de setembro de 2015

Fragmento - XIV.


Tem uma rapaziada ai que se remete às coisas da vida em sociedade se valendo de frases extremamente rebuscadas e bem elaboradas e exageradamente elaboradas; na verdade, parece que ficam tanto tempo elaborando as frases e enxertos que estes se tornam incompreensíveis; e ai parece que, na verdade, com tanto tempo gasto na escrita do incompreensível acabam por se afastar de todo e qualquer social a que se dedicam a falar. Uma pena jovens, além de gastarem papel e energia, creio que no meio daquele emaranhado de linhas deve realmente ter algum suquinho gostoso. Utilizam muito a expressão "fragmento" ou "fragmentação" e outras afins; "fermento" e "fermentação" eu acho que não; ou ainda não cheguei nesse capítulo; ou ainda não entendi. Quando a gente é criança falam pra gente sobre ser feliz, sobre alegria e coisas afins. Ser feliz, aliás, é a meta inalcançável nessa nossa sociedade: você vai viver fragmentos (pequenos ou um pouco mais extensos) de breves alegrias, e se dê por satisfeito. Trabalhe, produza para outrem, e usufrua de algum tempo livre. Não saia muito da borda, e se você queimar o bico da boca no mingau procure a farmácia mais próxima; sempre nos indicam uma farmácia: "esteja bem, amanhã...", afinal, amanhã você bate o cartão. "Bem que os pequenos enxertos de alegria poderiam ser mais duradouros, longínquos, extensos na configuração do espaço tempo cotidiano". Se propor a tocar a vida assim é uma grande subversão; talvez seja a utopia do século vinte e um - onde não se bate mais o cartão, mas sim se verifica a digital. Mas vamos falar de felicidade. Mas eu não quero falar disso assim. Não vou me perder nos floreios como aqueles rapazes, vou fazer aqui um fragmento sobre felicidade. Farei. Tronco de árvore. Tampa de lixeira. Graveto graúdo. Estrada de pedrinha. Cantos de olhos. Banco de ônibus. Cadeira de praia fora da praia. Luzes enfileiradas. Problemas hidráulicos. Não se enganem queridos, a felicidade não está na quantidade de linhas que tem o texto ou nos fragmentos de alegrias e felicidades, está na densidade. Você esfola a ponta dos dedos de tanto passá-los nos sensores que verificam sua presença e registram sua exploração cotidiana, mas você mantém o ritmo do batuque por treze minutos ininterruptos; os olhos sorriem, os dentes sorriem, aquela pequena bolota de cocô que não saiu e se alojou em uma curvinha do intestino delgado, ela também sorri. São treze minutos, densos e intensos, compensam, talvez, todo esfolamento nas pontas dos dedos. Não tem jeito, estamos fadados, como alcançar a utopia contemporânea? "Esse ano não vai dar, talvez ano que vem.............................................". Mas quanto sabor tem nesses momentos, isso é inegável. Concluímos, então, que a felicidade é um processo, e cabe a cada qual destas coletividades se reconhecer nos tesouros encontrados como frutos intrínsecos das próprias etapas encenadas nestes processos - eles sempre acabam os textos assim, já percebeu?


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

meio.


Doze horas
Meio dia
Quarta feira
Meia semana
Meio saco
Meio cheio
Meio dia
Quarta feira
Meia semana
Fecho olhos
Abro-me meio
Inteiro


sábado, 29 de agosto de 2015

Meu riso peralta de frente pra Hitler.


Hitler bateu na porta, "você tem cinco minutos?", "ninguém tem minuto nenhum", "pra mim...", "como?", "pra eu falar com você", "jamais", "mas posso falar?", "pode" (que foi abreviação para: "pode, quem impede os outros de falar ou pensar ou quem fica monitorando os passos alheios numa nazistice bem organizada é você, e não eu; eu só não vou deixar de fazer nada para ouvir você falar").
"Desculpazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz" - foi assim que eu ouvi: Hitler voltou para pedir desculpas.
Que flor, que graça, que humano, que belezinha, que amorzão, que coração, que alma, que demonstração tão digna de respeito e compaixão ao próximo e valorização tão ampla da diversidade da humanidade por sobre a terra. Mas a gente sabe que não, só ele finge por ai que não.
Ouvi a groselha hitlerista toda e respondi: "Olha, vou te falar a real..." - mas na verdade eu vomitei as mentiras mais desleais e inventivas e criativamente fantasiosas que a minha cabeça pega de surpresa poderia criar ali. Menti como o melhor dos escritores de ficções e novelas que articulam trezentos pontos distintos de situações, atuações e personagens em um tema amplo formando um enredo único em que os pontos M, D, Z, S, P da história se encontram em um sentido e uma lógica arrebatadores. O intuito, babaca, claro (olha quem era o interlocutor), era metralhar e chocar a pseudo fala de um pseudo atual e pseudo arrependido Hitler.
Fui um escroto com ele para deixá-lo pasmo, mas o fiz com mentiras fantasiosas, diferentemente das atitudes dele, que me chocavam conforme ocorriam, pois demonstravam os seus mais sinceros e bem tramados ideais e leituras da vida.
"Hitler, vá comer mortadela azeda" (deixar de comer carne animal nunca te fez um humano melhor, você tinha que parar com esse canibalismo medíocre, isso sim; pedir desculpazzzz, risos). "Coma a mortadela azeda e depois encoste o nariz numa parede e arrote bastante, para sentir o aroma do seu bafo fedorento - reflexo do próprio modus operandi? - bem em cima do seu próprio bigodinho". 
Falava e ria, ao notar que Hitler acreditava. Ria, inclusive, na cara dele, sem deixar de mostrar os dentes enquadrados na curvatura dos lábios indicando um sorriso. Um riso que corroborava todas as mentiras desfiladas ali. Um riso, na verdade, bem peralta, que me acompanhou em todo o resto do dia.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Uma salada com Odradek.


Meu pai gosta de ralar cenoura e beterraba para comermos na salada. As rala cruas e as guarda em potes separados na geladeira. Eu gosto da salada bem temperada, exageradamente mesmo, com vinagre, azeite e sal (meu coração um dia explode de tanto sal que eu coloco). Dai decidi almoçar ouvindo em sequência os três EP's do Odradek. Preparei um suntuoso prato de salada, com dois grandes punhados dos citados legumes ralados e dei play. Que ideia feliz. Conforme mexia o garfo sobre os alimentos no prato (para que o tempero se espalhasse) e tentava o fazer no ritmo rompido das músicas, notei como é impossível perseguir a matemática de números quebrados e dividendos indubitavelmente bem registrados que compõem estas músicas. Parecia que na verdade eram as beterrabas que iam me engolir, e não o contrário. Jack passou e levou o meu garfo, "porra, e agora como que eu como aqui?". Peguei outro garfo no chão e as folhas de alface fugiram pela porta que se abriu - que porta que se abriu? não sei, mas eu ouvi o rangido dela abrindo, vocês ouviram? "Ananias volta aqui rapaz, não morre não, devolve o prato seu malaco". Nossa, credo, come logo isso tudo e se foca no som se não vai dar congestão alimentar auricular-estomacal por que a salada e o arroz e o feijão junto com os Odradek's é muita proteína, muito ferro, muito carboidrato e essas coisas você tem que ser moderado pra comer, não pode se empanturrar, nenhum corpo consegue digerir essas coisas todas duma vez só.
Ouça Odradek aqui.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

As sombras enganam.


Quando eu pedalo entre as quatro e meia e as cinco e meia da tarde em alguma avenida larga de São Paulo, seguindo no sentido leste, portanto, dando as costas para a direção em que se põem o sol, é assustador acompanhar os carros que vem atrás de mim olhando para as sombras destes. Em geral elas se formam à minha esquerda, e indicam que há carros enormes se aproximando. Parecem maiores do que caminhões, ônibus; parecem que são tanques de guerra, monstros de pesadelos infantis invadindo a Marques de São Vicente. Parecem vir e crescer a mil por hora. Quando enfim se alinham a mim e me passam, vejo que são apenas carros, em tamanhos e velocidades habituais, que não podem me assustar mais do que já assustam - são carros, de aços diversos, contra meus ossos em cima de uma bicicleta barata. Às vezes eu sinto que estou bem perto de me acostumar com a ideia de que são apenas carros, e as sombras não mais irão me assustar, pois sei do real tamanho do que está por vir. Às vezes eu penso que, assim como diz  a música, já já eu vou perceber que "as coisas todas não estavam contra mim". São apenas carros, monstros assim (ainda) não existem.


domingo, 9 de agosto de 2015

Cara, no quê que cê tá pisando, cara?


[Leia ouvindo essa música].
A conversa começa tão bonita, tão graciosa, né? Me recorda os melhores dias que eu nunca vivi; na verdade me recorda os melhores dias que já vivi e me faz pensar nos que ainda não vivi. Mas não demora. Nunca demora. Quando percebo que não demorou, eu paro pra soltar um "êpa, que que é isso rapaz? no quê que cê tá pisando mêu?". Por que tem um cara pisando em algo! Olha lá gente, caramba, tá vendo? E é uma pisada que não é firme (talvez seja por isso que ela soe atraente) e é seguida de tantas outras coisas. Tanto mais sólidas, quanto mais limpas, quanto mais claras, quanto mais crescentes, progressivas (olha o progresso com forma de estrelinha surgindo junto ai gente, que brilho lindo meu deus, progresso me leva!). E são coisas sóbrias, daquelas que você consegue imaginar andando na linha em linha sem problemas com a linha sem pisadas fora da linha é só a linha a vida inteira. Ah a linha, tão tênue, é só achar uma fresta olhar e entrar e depois você volta ou não tanto faz. Mas ele tá sempre lá, quem está espertinho reparou. Ele são eles na verdade. E eu não sei se esse sujeito na terceira do plural corresponde aos passos do cara (nem sei se é um cara, na real pode ser uma mina, ou o que tal ser humano desejar se classificar ou não se classificar, beleza, mas eu já demarquei que é um ser humano, sorry); se correspondem ao cara (idem acima); ou à superfície em que os passos são dados. E continuam moles, e continuam frequentes, e continuam preguiçosos, e continuam acompanhadas por uma gama enorme de objetos e pessoas e animais e vegetais e sons e pratos de arroz e ressoagens do sopro divino concebedor da vida (vocês perceberam que começou um som que parece soneca após a merenda na pré-pré-escola?). (Olha o progresso em forma de estrelinha voltando rapaziada; êêêêêê). Voltou tudo. (Será que esses passos podem ser de dança?) Caramba que disposição, do cara, dos passos, da superfície, das estrelinhas, dos objetos em volta. Mas se estivesse se mantido naquela praia do começo já era uma linha válida pra consumir cinco minutos - os melhores dias que ainda vou viver. E ai os passos vão sumindo, parece, na verdade, que seguem o caminho e eu que fico parado olhando de longe (teve uma hora também que não pareciam passos). Vão sumindo, somem, desaparecem, e desaparece também tudo aquilo que o acompanhava e então chega ao fim a odisseia - e eu fico sem saber no quê que o cara tá pisando.


domingo, 2 de agosto de 2015

O creme chocolatoso chama essência.


Teve uma hora em que eu sai, subi a escadinha de concreto que dá pra calçada e fiquei por ali observando o movimento de pessoas no final da tarde. Parecia que não ia dar muita gente mesmo, e isso faz parte; aliás, isso faz parte das ansiedades, e não esmorecer ante o fiasco possível, também ocupa parcela nisso. Mas não tem problema se deu ruim, quer dizer, não pode dar sempre ruim nem sempre bom, mas ai você ergue a cabeça, está em boa companhia (gente a ser levada à sério de verdade, sem afrouxar a gravata), vocês tomam um lanche conversando sobre o fiasco partilhado, e concluem que ele também tem de ser celebrado, claro, como não, estamos vivos aqui e vamos em diante. "Vamos?", eu pensei. Tanto pros intuitos daquela noite, quanto pros intuitos da vida em um plano mais a longo prazo: "qual será o próximo 'adiante' a ser seguido?", essa pergunta que tanto tem me consumido. Passei um tempo pensando e, tanto nos momentos anteriores quanto nos imediatamente posteriores ao fiasco, estive sentindo a pele ser recoberta por um creme chocolatoso de prazer. Depois, quando já estava meio decidido a ir, mas poderia não ir, caso julgasse melhor, resolvi refazer um percurso dito maldito por uma boca deveras maldita (podre + podre = bom?). Perambulei, conversei com as pessoas, fiz mais coisas prazerosas e singelas por ali (como vender CD's, de mão em mão), foi tão bom, que como em um jogo de vídeo game da década de 1990, passei mais uma fase e o prêmio foi mais uma porção de creme chocolatoso: "então vamos, caralho!". Fomos Fui e decorreram-se uma série de fragmentos registráveis e louváveis - subi as escadas pensando, degrau a degrau, como é bom fazer as coisas pensando com calma, sem se apressar, sem se forçar a nada; me sentei em um sofá pulguento e me recordei de um conselho dado por uma amiga em 2004; aquela música que diz 'estou aprendendo a andar de novo' não poderia ter sido executada em melhor momento. E assim seguiu-se a noite, com o eu sujeito ativo presente de maneira auto crítica, sensível e sempre perceptível e retornando mentalmente, tanto aos pensamentos recentes quanto aos valores antigos, clássicos, elementos vitais a mim. Quando acenderam as luzes e disseram "é hora de ir embora", bem, me assustei com o sol já ligado, com os movimentos e aromas e cabelos. Os primeiros passos, enquanto vestia minha blusa de moletom, foram seguidos de pensamentos repetitivos: "isso ainda faz tanto sentido, isso ainda é tão meu, isso ainda sou tão eu". Minhoquei pela cidade, entre o cedo e o tarde, e desci do ônibus (que jamais será uma das minhas linhas favoritas em são paulo), e quando vi, eu tinha pegado a chave errada pra abrir a porta.
Acho que entre subir as escadinhas de cimento e descer do ônibus o que ocorreu foi saborear o creme chocolatoso que construí ao longo da vida na última década - "foi no site daquele cara que eu conheci as bandas que ouço até hoje, foi no programa de rádio daquele cara que conheci outras tantas". Tem uma coisa que entendo como "essência", uma certa base, uma certa noção de valores que me fazem e me faço no mundo (como diz o ditado "eu não nasci ontem"). Agora, deste universo de metáforas, o que fica de prático e concreto é que eu noto que é óbvio que a vida vai ser uma bosta se eu estiver distante da minha essência, da minha própria construção e das minhas próprias lógicas e bases - pois, como diziam aqueles versos escritos em 2006: "eu sou do rock, eu vou pro inferno e gosto de clichês" - e como não sorrir largamente ao sentir-me abraçando e abraçado novamente por alguns dos cremes chocolatosos que compõem tal essência? Quando parei de sorrir?


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Diálogo sobre permanência.


-Sabe, eu estive pensando na minha vida, as pessoas que conheci, me envolvi, me aproximei, me afastei, e decidi que tenho que mudar.
-Uau, como assim?
-Eu decidi que preciso ser um ser humano melhor pra lidar com as pessoas, não dá pra ser do jeito que eu sou sabe?
-Do jeito que você é como assim?
-Eu não tenho uma articulação muito boa com noções de respeito, calma, tranquilidade e igualdade relacional sabe?
-Bom. . . . . . Mas isso é com tudo, com todos, com todas? Explica melhor, não sei.
-Acho que isso vem da educação familiar. Em casa é todo mundo assim, meio carga explosiva. Sabe, meio intolerante briguento cascudo põem-pra-fora-sem-nem-pensar?
-Sei, sei. E você vai fazer o que pra (faz sinal de aspas com os dedos das mãos) ser um ser humano melhor?
-Primeiro eu mandei fazer uma faixa, de vinte metros por três, pra colocar ali embaixo no cruzamento da minha rua com a avenida, estará escrito: "a partir de hoje eu sou um ser humano melhor". Também passei numa estamparia lá no Brás e mandei fazer dez camisetas, cada uma de uma cor, com essa frase estampada em times new roman vinte e seis espaçamento duplo na cor preta na altura do peito.
-Legal! E o que mais?
-O que mais o quê?
-O que mais vai fazer pra ser um ser humano melhor?
-Ah, tipo, sei lá, isso ai eu espero as coisas irem acontecendo pra ver como vou reagindo e medindo e agindo e melhorando como ser humano.
-Mas você não pensou em nada?
-Uma coisa de cada vez né?
-Vamos supor, se uma pessoa com quem você se relaciona dedicou o dia a ir num enterro ou celebração fúnebre que seja, e à noite você sente que algo dela feriu seu ego, o que você faz?
-Vou discutir, claro. Se aquilo ferir meu ego e minhas convicções e minha formação e meu modo de ver o mundo. Claro que vou discutir, eu tenho que discutir, não dá pra fugir disso.
-Mas a pessoa foi num velório ou enterro naquele dia.
-Mas uma coisa não tem a ver com a outra, sobretudo se for algo tão grave assim a ponto de ferir meu ego. Não tem nem o que pensar, eu discuto sim.
-Bom...
-Tenta outra coisa.
-Vamos supor aqui . . . . . . . Que a pessoa está nervosa, ansiosa, chateada, cheia de coisa na cabeça, problema na família e está tendo um dia terrível.
-Teve enterro?
-Não.
-Certo.
-Mas teve a concentração de um monte de coisa ruim em poucas horas. Ela está indo te encontrar te ligou meio chorosa dizendo que ia atrasar e que os motivos disso a deixavam mais irritada ainda. Quando ela chegar, como você vai agir?
-Vou esperar ela chegar e sorrir e me beijar e me abraçar e dizer que estando comigo o mundo faz todo sentido e ela se esqueceu de todas as coisas ruins só por ter me visto de longe.
-Hm. Mas e sua atitude?
-Minha atitude é esperar algo dela. Óbvio. Ela que faça algo para mim antes de esperar algo meu para ela.
-Você faria um comentário, sei lá, deixa eu ver, sobre a roupa dessa pessoa?
-Depende, se eu achar tosca vou comentar sim. Tipo "ai que tosco, parece as roupas daquele pessoal tosco de quem sempre falo mau". 
-Mas você vai dizer isso pra pessoa que você sabe que está irritada? Você vai zoar mais ainda o dia dela?
-Vou falar sim. E isso não é zoar mais o dia dela, é só falar que a camisa é tosca e rir dela. Rir na cara dela. Normal. Se ela ficar mais irritada ou achar ruim é coisa da cabeça dela ué.
A conversa é interrompida por uma ligação no telefone celular do ser humano que visa melhorar:
-Alô, oi, sim, sou eu. Ah as camisetas ficaram prontas, ótimo. Tô indo buscar. . . . . . .Olha, depois a gente conversa mais, vou lá na estamparia buscar as camisetas pra mostrar pro mundo que virei um ser humano melhor. Beijo, seu merda.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

O poder do minimalismo.


Então me encontrei com aquele um tanto quanto conhecido interlocutor. De certa forma estava me preparando para tal fazia alguns dias (pessoas espirituosas diriam que foi o destino). Quando chegou já começou a falar "tracacás" e "querequequés", gaguejou e balbuciou um pouco. Eu havia me preparado para o momento não combinado criando algumas respostas para possíveis perguntas, previamente imaginadas como cabíveis e realizáveis por ele. Uma delas foi feita exatamente como eu havia imaginado (que bom seria se todo roteiro mental imaginário se confirmasse na argamassa concreta dos dias). Não tive problemas em contar até três e libertar, por meio das palavras vocais, o que havia sido gestado mentalmente, nalgum momento de rancor para responder a tal pergunta. Era uma frase a minha resposta. Eu respondi com uma frase, encerrando o assunto. Com uma frase, aliás, encerrei uma fase. Curta, sem pirilampices vocais ou floreios verbais, eu falei a frase. Foi então que percebi o poder do minimalismo bem moldado, lapidado e acalmado (sobretudo acalmado). Subitamente todo o rancor se dissipou. Com uma frase, encerrou-se uma fase.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Fragmento - XIII.


[ou: "Diz equilíbrio"].
Ninguém nunca questionou o equilíbrio ou a falta deste no outro ou a necessidade de alcançá-lo por que sim ou ficamos floreando sobre "nossa como somos equilibrados e como isso é bom óh humanidade nos tome como exemplo". Acho que o equilíbrio era tamanho, tão bem dosado, que nem dava tempo de ficar preocupado com essas coisas metalinguísticas. O tempo era preenchido vivenciando esta qualidade coletiva, o que consistia em saboreação mútua, claro, do tal equilíbrio. Demorei pra perceber que aquilo era sinônimo de equilíbrio. Por um tempo, na verdade, me vi desejoso daquilo como um referencial de desequilíbrio, o que o tornava atraente. Mas ao entendê-lo como equilíbrio passei a vê-lo, justamente, como creme saboroso a ser reconstruído. Dai eu olho no espelho e digo: "diz equilíbrio", e é tudo mais falso que pobre que se diz de direita.


sábado, 25 de julho de 2015

Fragmento - XII.


[Ou: "Afa Xina"].
Lembro que um dos caras mais bacanas que eu conheci naquele período chegou tarde da noite aquele dia, o que era estranho, ele sempre estava entre os primeiros. Falou que estava em outro evento, que combinava mais com suas preferências musicais e vitais. Justo. Correto. Certíssimo. Ele chegou e pediu uma raiquenem, disse que onde estava tinha apenas uma outra cerveja muito ruim de nome inominável e indizível nesta página. Lembro-me até hoje dele rindo e passando a mão do seu pescoço até a sua barriga e dizendo: "preciso dar uma limpada depois de passar a noite bebendo aquilo", fazendo uma careta característica para falar o nome d'aquilo. Olho em volta e vejo aquilo; fecho o documento de texto pois vejo aquilo demais; converso com amigos e amigas do peito e só falo daquilo; durmo, sonho, acordo, levanto, retorno a dormir, torno a sonhar e é só aquilo passeando pela cabeça. Eu preciso dar uma limpada, passou da hora da faxina, Gabriel, vai tomar suas rainequem.



sexta-feira, 24 de julho de 2015

O cara do banco.


"É necessário que você abra uma conta na agência tal do banco tal", "mas a conta que eu tenho não serve?", "não, tem de ser esse tipo de conta nessa agência e desse banco, se não não vai dar certo", "óh quei". No trajeto, que nem era tão longo assim, me recordei de quando abri a conta que já não servia mais. Na verdade, me lembrei de quando a conta que eu havia aberto em 2009 foi transferida de agência, e eu fui até esta para assinar um documento que indicava que eu estava ciente da transição de agência. O rapaz que me atendeu era franzino, magro, meio baixo, tinha poucos fios de cabelo na tampa do cucuruco e uma folhagem ralha nas laterais e parte traseira do crânio. Os olhos eram cansados, a pele das bochechas e do queixo enrugadas e castigadas pelas lâminas dos barbeadores. Me fazia perguntas de maneira mecânica e sem empolgação ou ânimo. Enquanto digitava dados de maneira intensa no teclado do computador, desviei o olhar de seu rosto para o seu peito, onde balançava, no ritmo das mãos digitantes, um crachá. "Funcionário desde 1989" (não me recordo do dia ou do mês, mas gravei o ano, por ser o mesmo do meu nascimento). Acima desta informação a foto três por quatro de um rapaz jovial, semi sorridente, com uma barba que margeava toda a boca (um legítimo cavanhaque), o cabelo loiro brilhante cobria toda a cabeça e uma franja tímida caía sobre a testa. Atrás do crachá estava pendurado um óculos, que ele posicionou a frente dos olhos quando foi ler as informações presentes em meus documentos. "Deus me livre perder a vida atrás de um balcão de banco", pensei. No dia seguinte à abertura da nova conta na nova agência do mesmo banco, resmungava a vida e meu pai sugeriu: "preste um concurso e garanta a vida". Me lembrei da lembrança do rapaz, me lembrei do "deus me livre" que falei em 2009 e ainda falo. Subi as escadas para o meu quarto, voltei a perder investir a vida na frente de um computador.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Fragmento - XI.


Eu estava apoiado na janela, junto de mais três pessoas. A idade de uma delas fazia com que a média etária daquela rodinha subisse uns dez ou quinze anos. Naquela época eu estava ainda assombrado pela proximidade do passado recente, e quando essa rapaziada começou a tecer comentários maldosos sobre terceiros e a sobrevalorizar os seus pares me lembrei de sujeitos com os quais estive em rodinhas no à época "passado recente". Nenhum desses tem uma janela daquelas, isso é: naquela cidade, naquele bairro, com aquele preço de aluguel, aquele preço de condomínio, aquele custo de vida, aquela padaria outro lado da rua. Nenhum desses rivaliza posições em um ambiente extremamente hierarquizado e polarizado e insalubre; nenhum desses em nenhuma daquelas rodinhas investia o tempo sacro da cabeça bem moldada em listar ozinimigos e os depreciar. Você nunca lerá os nomes deles nos jornais. Mas tem uma coisa, na verdade várias, e os adjetivos estão espalhados por este fragmento, e eu sei que vocês entenderam que eu estou falando dos meus referências vidográficos de prestígio e conduta.