terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um diálogo silencioso provocado por uma peça de arte.


As artes têm um papel interessante em minha vida. Não no sentido lúdico/criativo da coisa, mas, sobretudo, no contemplativo, aquele que me enche de ideias (aparentemente boas), aquele que inspira a imaginação e que me leva às aspirações lúdico/criativas. Gosto, aliás, de pensar no processo das coisas artísticas que vejo/ouço e me soam boas: "como será que gravaram essa música?", "qual será que foi a influência/inspiração pra essa pintura?". Viajo nestas imaginações, e me dou por satisfeito em não ter respostas concretas para elas.

Em 2010 tinha no apartamento em que eu morava uma poltrona que eu achei em uma lixeira e levei pra casa. Era muito confortável. Eu gostava de virá-la e colocá-la de frente pra janela da sala, e ouvir música olhando pro céu. Lembro que estava ouvindo o novo de 2010 do Yann Tiersen pela primeira vez nesta posição, alternando entre ficar períodos maiores ou menores com os olhos fechados. Teve uma música que começou estranha, e eu lembro que abri os olhos na hora em que ela explodiu em uma sonoridade tão fantástica e eu via apenas as nuvens no céu azul de Marília. Aquele momento teve um 'quê' de "uau, tem muita coisa nessa música", e tinha realmente: considero "Ashes" uma das músicas mais bonitas dentre as que ouço/ouvi. 
Quatro anos e três álbuns depois, Yann e sua banda enfim voltaram para shows no Brasil (em São Paulo, do lado de casa na verdade). Notei que "Ashes" não estava sendo tocada nos últimos shows, e preparei um pequeno papel com o nome dela, desenhado em laranja e azul. Antes, ainda, do início do show, dei uma pescoçada no set list, e Ashes não estava lá...
Ao término do show, antes do bis, colei no palco, e, durante o bis, mostrei o desenho a eles, que viram e sorriram. O bis acabou, o público não foi embora, eles voltaram para um bi-bis. Tocaram uma música agitada, se levantaram, soltaram seus instrumentos e foram para a frente do palco. Yann se abaixou para pegar um microfone cujo pedestal já estava dobrado, apontou sua mão esquerda para mim e falou sorridente: "we will play Ashes". O malandro que toca pianinhos e ukulele pegou o papel de minha mão e o colocou sobre o piano. Enfim, tocaram Ashes, em uma linda versão acústica
Yann e os demais quatro rapazes com quem divide palco nesta última tour se despediram da platéia, curiosamente, dois deles olharam para mim gesticulando positivos com os dedos e dizendo "thank you". Eu, claro, retribuía os agradecimentos (até por que, o ingresso nem foi tão caro assim, e a experiência músico sensorial do show foi realmente fantástica).
Eles não sabem, jamais saberão o processo todo que levou um rapaz em São Paulo a fazer um papel com o nome da música. Jamais saberão o tanto de vezes que eu voltei aquela música pra ouvi-la do começo mais uma vez. Tampouco saberão que brinco de tocá-la no violão, que adoro a mostrar pros amigos, que volta e meia paro a mais sórdida obrigação pra esvaziar o peito a ouvindo. Eu jamais saberei o processo criativo e de recriação dela (existem tantas versões desta música). Mas no último sábado, na troca de um bilhete por uma canção tocada acusticamente, neste diálogo silencioso provocado pela peça de arte "música Ashes", todos esses processos artísticos/vitais se dissolveram no ar e, como cinzas no vento, se mesclaram da forma mais bela possível: a música foi tocada por quem a fez, e contemplada por quem a admira.


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