quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

mãos dadas X sapatadas.


(dê o play neste vídeo e leia o texto, ele só fará sentido se a música estiver sendo fruída junto).

No começo tem um enrosco e umas batidas centralizadas no bumbo, não é um enrosco negativo, é mais um rola pra cá e pra lá, que me soa aquela coisa boa de fazer e lembrar e repetir. Ai de um lado surgiu uma certa gravidade (grave mesmo) e pesado. Do outro tem o que me parece um projeto de linearidade mais doce e circular, que parece querer dominar tudo. Mas é só projeto, e o enrosco, a batida no centro do bumbo e o grave impiedoso ainda estão lá. Num outro golpe sorrateiro entrou mais coisa doce, mais sabor, mais suavidade; a linha é tão bonita, tão suave, quase abafa o enrosco que transita entre lá e cá e toma ares de coisa negativa, ao estar disputando espaço com o suave ameno, ainda em projeto. É muita coisa amena, é muito carinho sendo esfregado na cara. Então tudo se esvai e dá lugar a uma implosão ou explosão (eu não saberia definir). Do que se tinha antes - enrosco, grave, doce, projeto de linearidade - nada resta pra contar história, ou de nada se lembra dos conflitos anteriores ao se pensar nas histórias. Outros tons tomam o espaço: seria a derrota da suavidade que tentava em seu projeto dominar todo o espaço? Seria a derrota, também, do projeto de bumbo + grave que, por outro lado, parecia dominar? Nada, logo em seguida a calmaria volta: tranquila, gostosinha, circular, e se funde também com esses novos tons, mostrando que a suavidade e a calma podem combinar com tudo. Na verdade indica-se como um singelo equilíbrio entre tudo o que parecia estar em disputa antes. E elas combinam mesmo, poderiam ficar horas, dias, semanas, quinzenas, meses, bimestres, trimestres, semestres circulando deste modo na minha cabeça. Mas nunca é assim. E, peraí, que tem uma esteira escorregando de um lado, é meio grave, meio arenoso, e do outro tem uns sorrisos bonitos que caminham de mãos dadas com a linearidade-circular-suavidade que outrora tentava se impor. Ela é observada ao longe e de lado por uma sequência repetitiva de sapatadas graves, que começaram discretas, mas que vão vindo, vindo, vindo, vindo. De novo é embate, de novo: de um lado é suavidade querendo reinar, do outro é a gravidade de sapatadas orquestradas. "Vocês não cansam de disputar?", eu pergunto. É centralidade/suavidade contra lateralidade/sapatada. É só isso? É isso o tempo inteiro. Ora o que é doce e dá vontade de saborear de olhos fechados se impõem, ora é a sapatada da qual se tenta fugir por todas as vias quem se impõem, ora não dá pra diferenciar - mas essa indiferenciação não é algo harmônico, é, na verdade, algo bem negativo. Talvez seja um retrato da uniformização fascista, e não da igualdade dialética. A sapatada que se anunciava, que dizia marota "estou indo" voltou com tudo, chegou, explodiu na cara. Pá! Tem sangue pra tudo que é lado na minha avermelhada vista. Não consigo respirar direito, meu nariz travou e não entra mais ar algum; é quase desesperador esperar pra ver se vai passar. Que inferno, parece que estou atravessando um corredor de fumaça preta e não consigo achar nenhum ponto de luz que guie qualquer caminho. A sapatada triunfou, ao bater de frente em meu rosto parece que me retorceu os músculos da cara. Foi forte e está doendo (não sei se quero esperar o metrô abrir). Mas, olha só quem voltou, aquele projeto de suavidade e tranquilidade. Na verdade, ele estava lá, mais ao fundo, o tempo todo. O baque da sapatada me entupiu os ouvidos e eu não conseguia ouvir a tranquilidade acenando com sua circularidade doce, novamente em projeto. Precisei me livrar de tantos 'zum zum zuns', efeitos das sapatadas, para perceber que, na verdade, imperava soberana a beleza do circular-tranquilo-ameno-doce, que pouco a pouco vai sumindo novamente... 
Eu poderia dizer que isso é metáfora para o ano que já desponta como finado, mas, na verdade, é isso a vida inteira, essa repetição constante de embates diversos, aqui encontrada em uma linda música instrumental.


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