terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eu fui ao médico.


Marquei a consulta por telefone, e fui. Cheguei lá de ônibus, do modo como o site (na internet) havia me informado que era mais fácil de chegar. Inicialmente estranhei se tratar de uma casa com aparência de residência, daquelas térreas, com jardim na frente, típica de região central de cidade do interior paulista. Logo que entrei (o portão e a porta estavam abertos) vi que atrás de uma mesa quadrada com tampo de vidro, estava sentada uma moça que comia um oleoso yakissoba. Ela limpou sua boca na manga do avental branco que vestia, e pediu para que eu me sentasse em um dos sofás, pois o doutor já iria chegar e me atender. Aquela sala de espera estava bem cheia, não havia sequer lugar nos sofás (que pareciam estar úmidos, e exalavam um odor horrível) para que eu me sentasse. Aguardei em pé. Um homem passou em rapidíssimos passos (não consegui ver seu rosto) entrou em um dos quartos, fechou a porta. Depois de dois minutos a abriu e me chamou. Quando entrei no cômodo o homem-médico estava sentado em uma cadeira plástica vermelha ao lado de uma mesa de passar roupas, onde um bloquinho de papel, uma caneta, uma garrafa d'água e um estetoscópio repousavam. Ele reclamava do calor e se abanava com uma caixa de remédios de grandes proporções. Pediu para que eu me sentasse na cadeira plástica ao lado da dele. Reclamou do calor novamente, e tirou a camisa - pude assistir o deslizar de grossas gotas de suor por toda sua volumosa barriga peluda. Atrás de mim uma cômoda, ao meu lado um grande armário embutido, mas sem as portas, o que permitia assistir algumas moscas sobrevoando duas pilhas de roupas brancas em tons amarelados. "Por favor, tire a camisa também, e se sente ali em cima daquela cômoda", ele disse. Me sentei na cômoda e tirei minha camisa, enquanto ele apoiou o estetoscópio em sua nuca e pegou um bloquinho de post-its amarelos. Se aproximou de mim, olhando para o meu tronco com apenas um olho aberto, colou um post-it em cima de cada um dos meus mamilos, e um mais abaixo, entre a linha mamilar e o umbigo. Perguntei o que era aquilo, e ele disse: "é pra eu ter uma referência de onde tenho que por isso aqui", indicando a ponta do estetoscópio, "eu sempre erro o lugar", completou. Pediu que eu me virasse, e repetiu o procedimento em minhas costas - com post-its e estetoscópio. Disse um "pronto", acendeu um cigarro que tirou de um maço amassado do bolso traseiro de sua bermuda bege, "pode se vestir e sair daí, você está bem, vou apenas lhe indicar um anti corrosivo ósseo que agora pode não fazer diferença, mas daqui uns anos, hhhmmm, você vai sentir a ação". Se apoiou na mesa de passar roupas, preencheu um papel prescritivo de receita, o entregou para mim, esticou a mão direita e disse: "passa um dia desses por aqui pra gente tomar um nobillis". Saí do quarto, passei pela sala, me despedi da moça atrás da mesa quadrada de tampo de vidro. Caminhei até o ponto de ônibus mais próximo. Ainda não tinha certeza se compraria o remédio ou não, apenas pensei: "eu moraria naquela casa".



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