sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A moça do ônibus.


O ano era 2007, e eu frequentava um cursinho na região central de São Paulo. Todas as noites da semana, às 23 horas, eu embarcava em um ônibus no terminal lapa com destino à minha casa. Todas as noites eu cumprimentava o motorista e o cobrador (sempre os mesmos) e cerca de 70% dos passageiros (também, sempre os mesmos). Dentre estes 70% havia uma moça, que estava sempre ouvindo música em fones de ouvido grandes (cheios de adesivos de corações e cerejas). Muitas vezes ela estava na fila batendo levemente o pé no chão, certamente no ritmo da música que ouvia, e algumas vezes trocamos risos e olhares. Mas ai acabou o ano, eu fui embora de São Paulo e não nos conhecemos. Na época escrevi pequenas histórias que se conectavam sobre ela; na verdade, sobre por que ela se apaixonaria/ava por mim a cada noite, pois eu o sentia por ela todas as noites (como num filme d'Adam Sandler e Drew Barrymore, mas sem o acidente). Até que um dia nos encontramos na feira do bairro, ela me viu vomitando após comer um pastel e não teve mais motivos para se apaixonar por mim todas as noites. Isso na história que eu escrevia, claro. Hoje embarquei na mesma linha de ônibus, às 23 horas. O cobrador e o motorista não são os mesmos. Mas reconheci aquela moça que entrou na fila logo atrás de mim, que ouvia música em um discreto fone de ouvido e que batia o pé no chão, com leveza. O tempo passa, os ônibus, as moças, os moços e os fones de ouvido também.


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