quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma história nojenta.


Estávamos nos enroscando ali naquela situação havia já um bom tempo. Já conhecia bem tanto aquelas curvas corporais quanto as cores dos lençóis disponíveis para cobrir o colchão, e notava que minhas curvas eram já também conhecidas. Eram lugares bons. Mas, quando me refiro a 'bom tempo', me refiro àquela noite mesmo, foi um bom tempo nos enroscando. Até que num sorrateiro golpe físico de inverter pernas e girar tronco, a percebi sentando-se por cima do meu rosto. O que é sempre bom. Saliência da ponta do nariz e superfície total da língua em plena festa passeando umidamente por ali; e o passeio umedecia mais e gerava uma festa dançante, fazendo com que o mexer fosse, na verdade, um intenso rebolar-se e remexer-se por inteiro. A música era boa também, o som do prazer saindo de dentro pra fora sem plasticidade. Certo instante cessou a movimentação e falou seca: "preciso ir ao banheiro". Quando começou a se afastar de mim lhe perguntei: "peraí, por que?", "preciso ir ao banheiro", repetiu, "mas pra que?", insisti, "por que eu preciso oras", "você vai fazer coco?". Titubeou um pouco, mas respondeu afirmativamente que precisava ir ao banheiro para tal. "Faz em mim", eu falei. Olhando-me no rosto, de cima para baixo (testa-queixo/queixo-testa), o fez com um olhar assustado, franziu a testa em dúvida, enquanto seu olho deu uma piscada e então se fechou. "Você gosta disso?", "não sei, mas, você ai, falou isso de banheiro, ai eu imaginei e não achei tão repulsivo assim, e até fiquei mais excitado quando pensei nisso", "você tem certeza?", "tenho". Desfranziu a testa, perdeu o sentido de dúvida no olhar e, pouco a pouco, o olho dela foi se abrindo, revelando uma grande íris em tom amarronzado que me cobriu toda a face  e o peito em uma história nojenta. Depois trocamos o lençol amarelo-mussarela por um azul-capa-de-bíblia.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eu fui ao médico.


Marquei a consulta por telefone, e fui. Cheguei lá de ônibus, do modo como o site (na internet) havia me informado que era mais fácil de chegar. Inicialmente estranhei se tratar de uma casa com aparência de residência, daquelas térreas, com jardim na frente, típica de região central de cidade do interior paulista. Logo que entrei (o portão e a porta estavam abertos) vi que atrás de uma mesa quadrada com tampo de vidro, estava sentada uma moça que comia um oleoso yakissoba. Ela limpou sua boca na manga do avental branco que vestia, e pediu para que eu me sentasse em um dos sofás, pois o doutor já iria chegar e me atender. Aquela sala de espera estava bem cheia, não havia sequer lugar nos sofás (que pareciam estar úmidos, e exalavam um odor horrível) para que eu me sentasse. Aguardei em pé. Um homem passou em rapidíssimos passos (não consegui ver seu rosto) entrou em um dos quartos, fechou a porta. Depois de dois minutos a abriu e me chamou. Quando entrei no cômodo o homem-médico estava sentado em uma cadeira plástica vermelha ao lado de uma mesa de passar roupas, onde um bloquinho de papel, uma caneta, uma garrafa d'água e um estetoscópio repousavam. Ele reclamava do calor e se abanava com uma caixa de remédios de grandes proporções. Pediu para que eu me sentasse na cadeira plástica ao lado da dele. Reclamou do calor novamente, e tirou a camisa - pude assistir o deslizar de grossas gotas de suor por toda sua volumosa barriga peluda. Atrás de mim uma cômoda, ao meu lado um grande armário embutido, mas sem as portas, o que permitia assistir algumas moscas sobrevoando duas pilhas de roupas brancas em tons amarelados. "Por favor, tire a camisa também, e se sente ali em cima daquela cômoda", ele disse. Me sentei na cômoda e tirei minha camisa, enquanto ele apoiou o estetoscópio em sua nuca e pegou um bloquinho de post-its amarelos. Se aproximou de mim, olhando para o meu tronco com apenas um olho aberto, colou um post-it em cima de cada um dos meus mamilos, e um mais abaixo, entre a linha mamilar e o umbigo. Perguntei o que era aquilo, e ele disse: "é pra eu ter uma referência de onde tenho que por isso aqui", indicando a ponta do estetoscópio, "eu sempre erro o lugar", completou. Pediu que eu me virasse, e repetiu o procedimento em minhas costas - com post-its e estetoscópio. Disse um "pronto", acendeu um cigarro que tirou de um maço amassado do bolso traseiro de sua bermuda bege, "pode se vestir e sair daí, você está bem, vou apenas lhe indicar um anti corrosivo ósseo que agora pode não fazer diferença, mas daqui uns anos, hhhmmm, você vai sentir a ação". Se apoiou na mesa de passar roupas, preencheu um papel prescritivo de receita, o entregou para mim, esticou a mão direita e disse: "passa um dia desses por aqui pra gente tomar um nobillis". Saí do quarto, passei pela sala, me despedi da moça atrás da mesa quadrada de tampo de vidro. Caminhei até o ponto de ônibus mais próximo. Ainda não tinha certeza se compraria o remédio ou não, apenas pensei: "eu moraria naquela casa".



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A moça do ônibus.


O ano era 2007, e eu frequentava um cursinho na região central de São Paulo. Todas as noites da semana, às 23 horas, eu embarcava em um ônibus no terminal lapa com destino à minha casa. Todas as noites eu cumprimentava o motorista e o cobrador (sempre os mesmos) e cerca de 70% dos passageiros (também, sempre os mesmos). Dentre estes 70% havia uma moça, que estava sempre ouvindo música em fones de ouvido grandes (cheios de adesivos de corações e cerejas). Muitas vezes ela estava na fila batendo levemente o pé no chão, certamente no ritmo da música que ouvia, e algumas vezes trocamos risos e olhares. Mas ai acabou o ano, eu fui embora de São Paulo e não nos conhecemos. Na época escrevi pequenas histórias que se conectavam sobre ela; na verdade, sobre por que ela se apaixonaria/ava por mim a cada noite, pois eu o sentia por ela todas as noites (como num filme d'Adam Sandler e Drew Barrymore, mas sem o acidente). Até que um dia nos encontramos na feira do bairro, ela me viu vomitando após comer um pastel e não teve mais motivos para se apaixonar por mim todas as noites. Isso na história que eu escrevia, claro. Hoje embarquei na mesma linha de ônibus, às 23 horas. O cobrador e o motorista não são os mesmos. Mas reconheci aquela moça que entrou na fila logo atrás de mim, que ouvia música em um discreto fone de ouvido e que batia o pé no chão, com leveza. O tempo passa, os ônibus, as moças, os moços e os fones de ouvido também.


O imediatismo daquele professor.


Estou trabalhando na escrita de um trabalho a ser entregue como conclusão de uma disciplina que cursei entre agosto e novembro. Minhas engrenagens cerebrais, já cansadas após um ano cheio, tardam em pegar no tranco. Agora a pouco, por algum motivo (que não sei descrever), me recordei de um professor dos tempos de ensino médio, e não me privei em escrever estas linhas e as abaixo. 

Naquela época já respirávamos o começo do fim dos longos anos trancafiados na escola (como "alunos"), e após um primeiro e segundo anos de ensino médio, muitos já se dedicavam ao "depois": cursinho, apostilas, orientações profissionais, vestibulares...
Antes, no segundo ano de ensino médio, havíamos realizado uma disciplina obrigatória, chamada "projeto monográfico", em que cada aluno realizou uma "pesquisa científica" e apresentou, ao final do ano, uma monografia. 
O meu trabalho, no grupo de "estudos urbanos", foi sobre grafite, pixação e stickers, "arte urbana". Por ele recebi dois prêmios, o que causou certa indignação e/ou questionamentos em alguns setores do corpo docente e discente daquele colégio: como podia um aluno que batia cartão nas recuperações e cujo nome era figurinha carimbada nas aprovações pelo conselho de classe fazer um trabalho notável e, mais ainda, ser premiado por instituições para muito além dos muros da escola?
Me lembro do sorriso amarelo daquela professora do ginásio, que sempre escrevia minha nota em suas provas por extenso ('hum', 'dois', 'quatro', e não passava de quatro mesmo), me dizendo: "parabéns, quem diria hein?". Dava vontade de dizer: "toma essa papudona, a sua matemática não é a unica forma de inteligência que há no mundo, sabia?".

Me recordei hoje de um professor específico, motivo deste texto que ao entrar na sala de aula e ser instigado a comentar sobre as premiações recebidas por alguns alunos, dentre eles, eu, o fez com tom de preocupação. Disse que era legal que tivéssemos essa experiência, mas que tínhamos de nos focar "no futuro, no vestibular, na profissão que seguirão". Na fala dele, aquele "projeto monográfico" em nada ajudava os alunos a pensarem o futuro - que ele sempre ressaltava e limitava na figura do vestibular. 
Ao me ver na tarde de hoje rodeado por textos em xerox, anotações no caderno e de fronte a um computador com alguns documentos de word aberto, acho que cheguei a uma resposta a este professor. Alguém o chame pelo sobrenome (afinal, ele sempre nos tratou com esta impessoalidade) e diga que o Coiso ainda não parou pra pensar direito no vestibular que prestou, pois a minha cabeça nunca funcionou de acordo com o imediatismo daquele professor.

[foto da época]

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

mãos dadas X sapatadas.


(dê o play neste vídeo e leia o texto, ele só fará sentido se a música estiver sendo fruída junto).

No começo tem um enrosco e umas batidas centralizadas no bumbo, não é um enrosco negativo, é mais um rola pra cá e pra lá, que me soa aquela coisa boa de fazer e lembrar e repetir. Ai de um lado surgiu uma certa gravidade (grave mesmo) e pesado. Do outro tem o que me parece um projeto de linearidade mais doce e circular, que parece querer dominar tudo. Mas é só projeto, e o enrosco, a batida no centro do bumbo e o grave impiedoso ainda estão lá. Num outro golpe sorrateiro entrou mais coisa doce, mais sabor, mais suavidade; a linha é tão bonita, tão suave, quase abafa o enrosco que transita entre lá e cá e toma ares de coisa negativa, ao estar disputando espaço com o suave ameno, ainda em projeto. É muita coisa amena, é muito carinho sendo esfregado na cara. Então tudo se esvai e dá lugar a uma implosão ou explosão (eu não saberia definir). Do que se tinha antes - enrosco, grave, doce, projeto de linearidade - nada resta pra contar história, ou de nada se lembra dos conflitos anteriores ao se pensar nas histórias. Outros tons tomam o espaço: seria a derrota da suavidade que tentava em seu projeto dominar todo o espaço? Seria a derrota, também, do projeto de bumbo + grave que, por outro lado, parecia dominar? Nada, logo em seguida a calmaria volta: tranquila, gostosinha, circular, e se funde também com esses novos tons, mostrando que a suavidade e a calma podem combinar com tudo. Na verdade indica-se como um singelo equilíbrio entre tudo o que parecia estar em disputa antes. E elas combinam mesmo, poderiam ficar horas, dias, semanas, quinzenas, meses, bimestres, trimestres, semestres circulando deste modo na minha cabeça. Mas nunca é assim. E, peraí, que tem uma esteira escorregando de um lado, é meio grave, meio arenoso, e do outro tem uns sorrisos bonitos que caminham de mãos dadas com a linearidade-circular-suavidade que outrora tentava se impor. Ela é observada ao longe e de lado por uma sequência repetitiva de sapatadas graves, que começaram discretas, mas que vão vindo, vindo, vindo, vindo. De novo é embate, de novo: de um lado é suavidade querendo reinar, do outro é a gravidade de sapatadas orquestradas. "Vocês não cansam de disputar?", eu pergunto. É centralidade/suavidade contra lateralidade/sapatada. É só isso? É isso o tempo inteiro. Ora o que é doce e dá vontade de saborear de olhos fechados se impõem, ora é a sapatada da qual se tenta fugir por todas as vias quem se impõem, ora não dá pra diferenciar - mas essa indiferenciação não é algo harmônico, é, na verdade, algo bem negativo. Talvez seja um retrato da uniformização fascista, e não da igualdade dialética. A sapatada que se anunciava, que dizia marota "estou indo" voltou com tudo, chegou, explodiu na cara. Pá! Tem sangue pra tudo que é lado na minha avermelhada vista. Não consigo respirar direito, meu nariz travou e não entra mais ar algum; é quase desesperador esperar pra ver se vai passar. Que inferno, parece que estou atravessando um corredor de fumaça preta e não consigo achar nenhum ponto de luz que guie qualquer caminho. A sapatada triunfou, ao bater de frente em meu rosto parece que me retorceu os músculos da cara. Foi forte e está doendo (não sei se quero esperar o metrô abrir). Mas, olha só quem voltou, aquele projeto de suavidade e tranquilidade. Na verdade, ele estava lá, mais ao fundo, o tempo todo. O baque da sapatada me entupiu os ouvidos e eu não conseguia ouvir a tranquilidade acenando com sua circularidade doce, novamente em projeto. Precisei me livrar de tantos 'zum zum zuns', efeitos das sapatadas, para perceber que, na verdade, imperava soberana a beleza do circular-tranquilo-ameno-doce, que pouco a pouco vai sumindo novamente... 
Eu poderia dizer que isso é metáfora para o ano que já desponta como finado, mas, na verdade, é isso a vida inteira, essa repetição constante de embates diversos, aqui encontrada em uma linda música instrumental.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobre sob sub.


Isso não é sobre 
A
B
M
S
G
Ou

Isso não é sobre 
08
10
12
13
09
Ou

Isso não é sobre
D
P
C
R
S
Ou

Isso não é sobre
206
441
46
785
Ou

Isso não é sobre
Z
F
T
C
P
Ou

Isso não é sobre nada,
Mas também não é sob,
E muito menos é sub,
Ainda assim é, foi, será (?)




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

b.a.n.a.n.ã.o.


Breve relato de José Gomes Neto - XXVIII:

"Sentado na poltrona, na verdade, corpo largado-esparramado no compensado de espumas esponjosas já envelhecidas. O chão era aquele marrom escuro meio esverdeado feito pra ser anti sujeira que sempre achei feio. Quando ela apareceu falou pra eu abrir a boca e levantar a língua. Lembro que virei banana bem doce depois disso. Virei um punhado largado de sal. Virei uma bala perdida no ar. Virei uma panqueca bem recheada. Virei tanta coisa, que eu jamais havia imaginado que viraria - e olha que já havia estado largado naquele chão feio antes, inclusive, todo bananão".

José Gomes Neto,
18 de Abril de 2010,
Banana sem aveia.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um diálogo silencioso provocado por uma peça de arte.


As artes têm um papel interessante em minha vida. Não no sentido lúdico/criativo da coisa, mas, sobretudo, no contemplativo, aquele que me enche de ideias (aparentemente boas), aquele que inspira a imaginação e que me leva às aspirações lúdico/criativas. Gosto, aliás, de pensar no processo das coisas artísticas que vejo/ouço e me soam boas: "como será que gravaram essa música?", "qual será que foi a influência/inspiração pra essa pintura?". Viajo nestas imaginações, e me dou por satisfeito em não ter respostas concretas para elas.

Em 2010 tinha no apartamento em que eu morava uma poltrona que eu achei em uma lixeira e levei pra casa. Era muito confortável. Eu gostava de virá-la e colocá-la de frente pra janela da sala, e ouvir música olhando pro céu. Lembro que estava ouvindo o novo de 2010 do Yann Tiersen pela primeira vez nesta posição, alternando entre ficar períodos maiores ou menores com os olhos fechados. Teve uma música que começou estranha, e eu lembro que abri os olhos na hora em que ela explodiu em uma sonoridade tão fantástica e eu via apenas as nuvens no céu azul de Marília. Aquele momento teve um 'quê' de "uau, tem muita coisa nessa música", e tinha realmente: considero "Ashes" uma das músicas mais bonitas dentre as que ouço/ouvi. 
Quatro anos e três álbuns depois, Yann e sua banda enfim voltaram para shows no Brasil (em São Paulo, do lado de casa na verdade). Notei que "Ashes" não estava sendo tocada nos últimos shows, e preparei um pequeno papel com o nome dela, desenhado em laranja e azul. Antes, ainda, do início do show, dei uma pescoçada no set list, e Ashes não estava lá...
Ao término do show, antes do bis, colei no palco, e, durante o bis, mostrei o desenho a eles, que viram e sorriram. O bis acabou, o público não foi embora, eles voltaram para um bi-bis. Tocaram uma música agitada, se levantaram, soltaram seus instrumentos e foram para a frente do palco. Yann se abaixou para pegar um microfone cujo pedestal já estava dobrado, apontou sua mão esquerda para mim e falou sorridente: "we will play Ashes". O malandro que toca pianinhos e ukulele pegou o papel de minha mão e o colocou sobre o piano. Enfim, tocaram Ashes, em uma linda versão acústica
Yann e os demais quatro rapazes com quem divide palco nesta última tour se despediram da platéia, curiosamente, dois deles olharam para mim gesticulando positivos com os dedos e dizendo "thank you". Eu, claro, retribuía os agradecimentos (até por que, o ingresso nem foi tão caro assim, e a experiência músico sensorial do show foi realmente fantástica).
Eles não sabem, jamais saberão o processo todo que levou um rapaz em São Paulo a fazer um papel com o nome da música. Jamais saberão o tanto de vezes que eu voltei aquela música pra ouvi-la do começo mais uma vez. Tampouco saberão que brinco de tocá-la no violão, que adoro a mostrar pros amigos, que volta e meia paro a mais sórdida obrigação pra esvaziar o peito a ouvindo. Eu jamais saberei o processo criativo e de recriação dela (existem tantas versões desta música). Mas no último sábado, na troca de um bilhete por uma canção tocada acusticamente, neste diálogo silencioso provocado pela peça de arte "música Ashes", todos esses processos artísticos/vitais se dissolveram no ar e, como cinzas no vento, se mesclaram da forma mais bela possível: a música foi tocada por quem a fez, e contemplada por quem a admira.