terça-feira, 18 de novembro de 2014

Soterrada.


Era um dia bom, daqueles em que a percepção de detalhes alheios estava bem apurada. Já havia, inclusive, sido surpreendido no caminho, e caminhava na direção de um belo atacadão. Na lista de compras um verdadeiro kit longevidade: mortadela, azeitonas, linguiça e Colônia. Já com os frios petiscáveis devidamente arranjados em minha mão esquerda, caminhei na direção do corredor Colonial. De longe observei, primeiro, um largo carrinho cheio de mercadorias vistosas formando breve relevo e, ao lado dele, apoiado neste, um rapaz. De longe consegui constatar que ele falava, pois mexia os lábios e havia algum som vocal. Conforme me aproximei, passei a ouvir melhor sua voz. De fato, ele falava. Mas não falava ao celular, e nem havia ninguém próximo a ele. Pensei: "eu também falo sozinho às vezes". Mais alguns passos e ouvi uma voz feminina lhe respondendo algo. Parei próximo a ele, olhei os preços de produtos que estavam próximos dali, nenhum deles me interessava, eu queria mesmo era descobrir de onde vinha a voz. Havia uma garota dentro do carrinho, soterrada embaixo de pacotes e mais pacotes de linguiça calabresa, bolachas recheadas, arroz e produtos para higiene. 


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