domingo, 23 de novembro de 2014

O dia em que eu perdi dez reais.


Naquela época eu já havia plugado no cérebro uma espécie de cabo condutor de seriedades alheias a longo prazo, e estava realmente considerando todas as informações e dados que por ele entravam, visto que, naquela época, muita gente me deu os parabéns pois o que eu fazia era entrar nos eixos delas (e eu sabia disso). Quem me acordou foi o sol, na verdade uma espessa fresta de claridade que passava pelos poros respiradouros na janela. Não consigo me lembrar se a cabeça doía ou coisa do gênero, sei que olhei no relógio e achei por bem me apressar em ir ao mercado, que fecharia dentro em breve. Laranjas. Laranjas. Laranjas. Como um torcedor fanático da seleção holandesa, eu só pensava em Laranjas. Era tudo o que eu queria, pois tudo que meu corpo pedia: um suntuoso suco de laranjas. Chinelo, a primeira bermuda que vi e algum pano pra cobrir o tronco. Tinha duas notas de dez dobradas juntas em cima da mesa, as peguei e coloquei entre meu corpo e o elástico da bermuda, pois esta não tinha bolso. Laranjas & Carne & Repolho, este seria o menu, escolhido a olho no mercado. "Caramba moça, cadê meu dinheiro?", falei para a Raffaela. No caminho - que durava cerca de sessenta passos curtos - entre a porta de casa e a porta do mercado, minhas duas notas de dez haviam caído. Retornei. Com olhos cirúrgicos e passos minuciosos refiz esse trajeto, e das duas notas de dez, encontrei apenas uma, entrelaçada entristecida entre os ramos mais altos de algum matinho na esquina. Laranjas & Repolho passou a ser o menu, visto que aquelas eram as duas únicas notas de dez (ou de qualquer valor) para o dia. Passei um bom tempo praguejando aquela esquina cotidiana, ao passar por lá só conseguia pensar/dizer: "e foi aqui que eu perdi dez reais". Perdi também, inclusive, a noção de que a minha seriedade deveria reinar soberana sobre mim mesmo, e não quaisquer outras, injetadas do mundo pra dentro com sorrisos marotos, convites discretos e aceitações minhas; se teve algum momento em que eu me vendi, foi por ali, mas isso é outra história.


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