domingo, 2 de novembro de 2014

Em tempos pasteurizados.


Aquela hora a gente estava no carro, aparentemente, todo mundo tranquilo já. Os assuntos, no fim das contas, costumam sempre chegar nos mesmos pontos; não sei se nós que somos monotemáticos e limitados ou se, realmente, as coisas estão interligadas assim (prefiro, obviamente, acreditar na segunda hipótese). Era um final de tarde agradável, e por duas vezes chegamos à ideia da "pasteurização": na música popular e na política eleitoral. A forma pode ser boa, mas um conteúdo ácido, talvez crítico, talvez revelador de algo que está intencionalmente escondido por debaixo dos panos da sociedade, não é bem vindo aos ouvidos, e o som tem de passar por uma pasteurização. No outro caso, as coisas tem de ser amenas, evite brigas nas conversas (não deixe que se tornem discussões). Pasteurizar é esquentar muito, em seguida esfriar à beça e, com esse movimento bipolar, eliminar as bactérias (no caso do universo sem metáfora, as do leite). 
Aquela hora a gente estava na mesa, aparentemente, tudo tranquilo ali. Os assuntos eram os mesmos, com retoques de diferenças malexistentes/maledicentes, meras variações decorrentes de algumas semanas, tombos e singelas reerguidas. Um começo de noite agradável. Lembro que ouvi, ouvi, ouvi, minha opinião foi pedida, e não me privei de a expor (diálogos se constroem assim). Eu sempre esqueço que é necessário ser pasteurizado, sem bactérias, sem impurezas, (por isso é bom que conversas ao fim de tarde cheguem sempre nos mesmos pontos). O corpo e a cabeça até passeiam por entre o muito quente e o muito frio, mas toda e qualquer resposta, a todo e qualquer um destes estímulos, tem de ser ao modo pinguins de madagascar: sorria e acene.

Mas, na verdade, entre a metáfora, a limitação e a vista da janela do carro, acho que o laço se dá de maneira forte na segunda, quando olho em volta e penso: "às vezes faz sentido agir pasteurizado".


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