quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Breve história de quem passou a ver o mundo com nitidez.


Dia desses eu estava atrasado, tinha que ir para a zona norte, depois pro centro e depois para Mogi das Cruzes e, antes dessa travessia urbana, precisava ainda almoçar. Um acontecimento inesperado aqui, outro ali e acabei recebendo um convite seu para o almoço. Não neguei.
Enquanto comíamos, quando lhe contava qual seria o meu itinerário naquela tarde, perguntou como seria o trem em que eu embarcaria mais tarde. Nos tempos em que morou em Mogi, o trem que ligava esta cidade ao centro de São Paulo não era elétrico. Foi então que me contou uma história, desta época.
Na história, uma tia sua havia reparado que você esperava o ônibus chegar muito perto do ponto para dar o sinal. Ela desconfiou que você tinha problemas de alfabetização, e por isso não conseguia ler o letreiro do coletivo com agilidade. No entanto, após uma passagem pelo oftalmologista, descobriu-se que era a miopia que se manifestava e embaçava sua vista.
Um par de óculos foi encomendado para você. A ótica ficava no centro de São Paulo, e numa tarde você e esta tia cruzaram a zona leste paulistana, de trem, na direção do centro, para buscar os seus óculos.
Utilizando-os pela primeira vez, você saiu da ótica, caminhou pela Praça do Patriarca, e seguiram a rua São Bento, até o Mosteiro. Foi com os olhos de uma jovem senhorinha ainda encantada que me contou, com um sorriso no rosto, como foi ver todos os detalhes daquela São Paulo, como foi enxergar, pela primeira vez, os ponteiros do grande relógio do Mosteiro. 
Fico imaginando, após ter vestido estes óculos, e visto o mundo com nitidez, quanta coisa não foi vista por você ao longo desta vida, e quantas histórias não existem por me contar em tantos outros almoços.

Feliz Parabéns Vó.



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