sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Incon Sequência.


Às vezes eu tomo atitudes que tem o ar perfumado e requintado das inconsequências. Como naquele dia em que, no começo da noite, eu topei comer um troço que eu sabia que cairia mal. Não é de hoje, tenho os aparelhos digestório e digestivo embaraçados com a vida. O estômago arruinado, os intestinos destroçados (eu acho). Mas comemos o troço, e fez mal, claro. E teve mais. Claro, bom é quando tem mais. Naquela noite eu falei 'não, não, não, não pode; haverá consequências negativas, complicadas, embaços diversos'. Naquela noite o botão da inconsequência estava virado no on. Até que chega esse tal "hoje" - embora haja quem diga que ele não existe, que há só ontem e amanhã. Eu vou tirar a camiseta pra talvezquemsabeaconteça de dormirtãojá, e sinto mais perfume requintado registrado em seu tecido e penso: "caramba, jamais havia imaginado que inconsequência nisso daria".


domingo, 23 de novembro de 2014

O dia em que eu perdi dez reais.


Naquela época eu já havia plugado no cérebro uma espécie de cabo condutor de seriedades alheias a longo prazo, e estava realmente considerando todas as informações e dados que por ele entravam, visto que, naquela época, muita gente me deu os parabéns pois o que eu fazia era entrar nos eixos delas (e eu sabia disso). Quem me acordou foi o sol, na verdade uma espessa fresta de claridade que passava pelos poros respiradouros na janela. Não consigo me lembrar se a cabeça doía ou coisa do gênero, sei que olhei no relógio e achei por bem me apressar em ir ao mercado, que fecharia dentro em breve. Laranjas. Laranjas. Laranjas. Como um torcedor fanático da seleção holandesa, eu só pensava em Laranjas. Era tudo o que eu queria, pois tudo que meu corpo pedia: um suntuoso suco de laranjas. Chinelo, a primeira bermuda que vi e algum pano pra cobrir o tronco. Tinha duas notas de dez dobradas juntas em cima da mesa, as peguei e coloquei entre meu corpo e o elástico da bermuda, pois esta não tinha bolso. Laranjas & Carne & Repolho, este seria o menu, escolhido a olho no mercado. "Caramba moça, cadê meu dinheiro?", falei para a Raffaela. No caminho - que durava cerca de sessenta passos curtos - entre a porta de casa e a porta do mercado, minhas duas notas de dez haviam caído. Retornei. Com olhos cirúrgicos e passos minuciosos refiz esse trajeto, e das duas notas de dez, encontrei apenas uma, entrelaçada entristecida entre os ramos mais altos de algum matinho na esquina. Laranjas & Repolho passou a ser o menu, visto que aquelas eram as duas únicas notas de dez (ou de qualquer valor) para o dia. Passei um bom tempo praguejando aquela esquina cotidiana, ao passar por lá só conseguia pensar/dizer: "e foi aqui que eu perdi dez reais". Perdi também, inclusive, a noção de que a minha seriedade deveria reinar soberana sobre mim mesmo, e não quaisquer outras, injetadas do mundo pra dentro com sorrisos marotos, convites discretos e aceitações minhas; se teve algum momento em que eu me vendi, foi por ali, mas isso é outra história.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Breve explanação sobre a passagem do tempo para uma pessoa ansiosa.


Você esperou muito tempo por algo. Meses, talvez anos. Um algo que pode ser mais ou menos físico, mais ou menos tocável, mas, no exercício cotidiano das palavras que nos ensinam desde pequenos, pode ser chamado de algo (mas não de alga, a menos que envolva praias ou sushis). Minutos, horas, dias, semanas, meses, bimestres, semestres, anos. Eles passam, e então, após contagens mais ou menos expressivas, mais ou menos esperançosas de que este algo estará diante de seus olhos (a matéria registradora de nossas vidas, a meu ver) você, por fim, estará de fato diante dele. A contagem agora não é para se algo vai ocorrer, mas para quando algo irá ocorrer. Você sabe que existem dezenas de deveres por serem cumpridos entre o agora (fluído, líquido e mais ou menos voraz) e o algo, mas a cabeça não sai do algo. Este algo não é alguém, não é nome próprio. Pode ser coisa, pode ser situação, o fato é: você não consegue tirar da cabeça que algo está por vir, você anseia por algo, e de tanto anseio, está plantada a sementinha maligna da ansiedade, que irá suprimir todo um tempo a ser vivido (efetiva e trabalhosamente vivido) como um singelo intervalo, entre o agora e o algo




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Soterrada.


Era um dia bom, daqueles em que a percepção de detalhes alheios estava bem apurada. Já havia, inclusive, sido surpreendido no caminho, e caminhava na direção de um belo atacadão. Na lista de compras um verdadeiro kit longevidade: mortadela, azeitonas, linguiça e Colônia. Já com os frios petiscáveis devidamente arranjados em minha mão esquerda, caminhei na direção do corredor Colonial. De longe observei, primeiro, um largo carrinho cheio de mercadorias vistosas formando breve relevo e, ao lado dele, apoiado neste, um rapaz. De longe consegui constatar que ele falava, pois mexia os lábios e havia algum som vocal. Conforme me aproximei, passei a ouvir melhor sua voz. De fato, ele falava. Mas não falava ao celular, e nem havia ninguém próximo a ele. Pensei: "eu também falo sozinho às vezes". Mais alguns passos e ouvi uma voz feminina lhe respondendo algo. Parei próximo a ele, olhei os preços de produtos que estavam próximos dali, nenhum deles me interessava, eu queria mesmo era descobrir de onde vinha a voz. Havia uma garota dentro do carrinho, soterrada embaixo de pacotes e mais pacotes de linguiça calabresa, bolachas recheadas, arroz e produtos para higiene. 


domingo, 16 de novembro de 2014

Festa.


À minha direita um homem não calvo e sem cabelos brancos brinca com uma garotinha que possui janelinhas em dois dentes frontais.
À minha frente uma senhora desliza o trêmulo dedo indicador sobre a tela de um smartphone para ver fotos recentes de seu bisneto.
À minha esquerda os membros de um casal há muito tempo casado dialogam com uma de suas noras enquanto o filho percorre o salão em busca do filho.
A senhora acompanhada por uma semi-senhora passou apoiada em sua bengala indo na direção dos banheiros e precisou afastar um carrinho de bebê que estava em seu caminho.
Um pouco mais ao longe um moço e uma moça que compõem um casal recém casado bebem água observando com gracejo o zumzumzum inter idades.
Apoiado em uma das paredes do local aquele senhor parecia muito alguém de quem tenho saudades.
Sentado em uma confortável cadeira não bebia nem comia nada apenas observava o universo ao meu redor e o trânsito de histórias vivas entre as tantas pessoas e foi quando constatei em meu hd mental: vida é mesmo coisa que passa.
Ps: não tem vírgula mesmo.





quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Breve história de quem passou a ver o mundo com nitidez.


Dia desses eu estava atrasado, tinha que ir para a zona norte, depois pro centro e depois para Mogi das Cruzes e, antes dessa travessia urbana, precisava ainda almoçar. Um acontecimento inesperado aqui, outro ali e acabei recebendo um convite seu para o almoço. Não neguei.
Enquanto comíamos, quando lhe contava qual seria o meu itinerário naquela tarde, perguntou como seria o trem em que eu embarcaria mais tarde. Nos tempos em que morou em Mogi, o trem que ligava esta cidade ao centro de São Paulo não era elétrico. Foi então que me contou uma história, desta época.
Na história, uma tia sua havia reparado que você esperava o ônibus chegar muito perto do ponto para dar o sinal. Ela desconfiou que você tinha problemas de alfabetização, e por isso não conseguia ler o letreiro do coletivo com agilidade. No entanto, após uma passagem pelo oftalmologista, descobriu-se que era a miopia que se manifestava e embaçava sua vista.
Um par de óculos foi encomendado para você. A ótica ficava no centro de São Paulo, e numa tarde você e esta tia cruzaram a zona leste paulistana, de trem, na direção do centro, para buscar os seus óculos.
Utilizando-os pela primeira vez, você saiu da ótica, caminhou pela Praça do Patriarca, e seguiram a rua São Bento, até o Mosteiro. Foi com os olhos de uma jovem senhorinha ainda encantada que me contou, com um sorriso no rosto, como foi ver todos os detalhes daquela São Paulo, como foi enxergar, pela primeira vez, os ponteiros do grande relógio do Mosteiro. 
Fico imaginando, após ter vestido estes óculos, e visto o mundo com nitidez, quanta coisa não foi vista por você ao longo desta vida, e quantas histórias não existem por me contar em tantos outros almoços.

Feliz Parabéns Vó.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Centenas de pontos vividos/passados cravados no peito - 2/2.


Em uma casa onde todos nós fomos dormir as sete da manhã, não dá pra dizer que eu acordei cedo. O fato inegável daquele sábado é que fui o primeiro a acordar. Ansioso, não me contive muito tempo no colchão, não havia mais sono, e notei que eu tinha um universo em um município por desbravar. Ou melhor, universos por me recordar: eu não tenho medo de arregaçar o corpo todo para a nostalgia entrar e despejar golpes.
É infernal caminhar por entre os caminhos das memórias, sobretudo quando elas possuem locais físicos na cidade tão bem demarcados na cabeça. Mas, dessa vez, não sei (talvez por estar num raro período de "paz"), parecia que seria (e foi) um inferno tão positivo e bacana, quase bonito.
Amarrei bem os cadarços dos tênis e sai, eu não consigo ficar parado quando essas coisas me batem em mente...

A porta de vidro espelhado, é o cenário onde fizemos pose para uma foto pós chuva em janeiro de 2011.
O ponto de ônibus em frente ao banco era o meu oásis após voltar da escola entre outubro e dezembro de 2013.
A pista de caminhada era o meu refúgio nos tenebrosos períodos de 2009 e 2010.
Os carrinhos de lanche onde tentamos construir alguma conciliação em março de 2010 já não existem mais.
Em agosto de 2011 eu resmunguei por meia hora sentado em um banco na pracinha onde havia um coreto. 
Entre fevereiro de 2009 e junho de 2011, em quase todo primeiro sábado posterior ao recebimento do dinheiro, a gente caminhava até o grande mercado da cidade. 
Este imóvel que esta para alugar já foi uma lan house, onde esqueci um celular nos meus primeiros dias por aqui, em março de 2008.
Em setembro de 2009 eu trabalhei num evento em que todas as noites jantávamos neste imóvel que está a venda, ele era uma pizzaria.
No inverno de 2011, rigoroso, cheio de neblina e manhãs geladas, a gente subia essa rua para realizar 'estágios'.
Aquele final de tarde, já em janeiro de 2014, em que o "open happy hour" foi abridor de vontades não contempladas após longas andadas pelos cantinhos semi-escuros da zona oeste.
Aquelas reuniões divertidas, empolgantes e tão cheias de aprendizado, lá embaixo na Avenida Presidente Roosevelt, no primeiro semestre de 2011.

Na ida realizei o caminho mais cumprido, para acessar tudo o que de lembrança eu poderia acessar nele. Na volta, fiz o caminho mais curto (na verdade, com menos ladeiras). Por essas ruas não passam apenas carros e pedestres, diria algum poeta perdido, passam vidas... 
No final, na volta, para finalizar isso tudo com o sabor da glória nostálgica de um peito cravejado de passados bem vividos, parei no supermercado que sempre adorei debochar, por ser tão diário, e comprei meia melancia.
Em um único ponto, pensei carregando a pesada fruta, me orgulho por não ter sido hipócrita: eu nunca reclamei de morar em Marília, como reclamo de morar em São Paulo. Por pior que fossem as fases, a cidade em si nunca me chateou, nunca me baqueou. Não vou dizer que é 'só por isso', mas é 'por esses e outros motivos' que quando caminho por aqui, cada quarteirão é uma saraivada de tiros de memórias em meu peito, desta vez, fazendo abrir largos sorrisos nesta cara tão besta.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Centenas de pontos vividos/passados cravados no peito - 1/2.


Depois de um tempo sem ver, a cabeça esquece que o restaurante tem as mesas retangulares e os bancos redondos, que as partes de madeira destes são brancas, e as de ferro são pretas.
Parece que, dado um intervalo de tempo sem ter os olhos por aqui, a cabeça esqueceu daquela tarde em que fizemos uma faixa escrito "1ª semana de ciências sociais"; bem como, se esqueceu também da outra tarde, em que dissemos: "vamos a prender na parede, quando cair jogamos fora", e, pelo visto, ela ainda não caiu.
Após um bom período sem caminhar por aqui, eu não lembrei que o bebedouro próximo à sala 10 só tem um lado que funciona. Antes, no cotidiano, eu lembrava sempre - e como foi engraçado lembrar que eu lembrava.
Dai vou andando, os olhos percorrem mais detalhes dos espaços, que remetem a mais detalhes vividos nos espaços, que fazem deles espaços físicos privilegiados nos espaços das lembranças. Está tudo guardado no HD da cabeça, e sempre que puder passar os olhos, realizar alguma caminhada por aqui, espero que estes estímulos tão suaves, tão doces (até dos piores momentos), nunca cessem, que nunca sejam esquecidos.
E, por fim, que estas salas e corredores saibam, o quanto sou grato, e que sinto saudades dos tempos em que aqui vivi, estudei, amei, almocei, defequei, odiei, trabalhei, (os poentes de sol mais bonitos que eu já vi), enfim: há centenas de pontos vividos/passados cravados em meu peito por aqui.




domingo, 2 de novembro de 2014

Em tempos pasteurizados.


Aquela hora a gente estava no carro, aparentemente, todo mundo tranquilo já. Os assuntos, no fim das contas, costumam sempre chegar nos mesmos pontos; não sei se nós que somos monotemáticos e limitados ou se, realmente, as coisas estão interligadas assim (prefiro, obviamente, acreditar na segunda hipótese). Era um final de tarde agradável, e por duas vezes chegamos à ideia da "pasteurização": na música popular e na política eleitoral. A forma pode ser boa, mas um conteúdo ácido, talvez crítico, talvez revelador de algo que está intencionalmente escondido por debaixo dos panos da sociedade, não é bem vindo aos ouvidos, e o som tem de passar por uma pasteurização. No outro caso, as coisas tem de ser amenas, evite brigas nas conversas (não deixe que se tornem discussões). Pasteurizar é esquentar muito, em seguida esfriar à beça e, com esse movimento bipolar, eliminar as bactérias (no caso do universo sem metáfora, as do leite). 
Aquela hora a gente estava na mesa, aparentemente, tudo tranquilo ali. Os assuntos eram os mesmos, com retoques de diferenças malexistentes/maledicentes, meras variações decorrentes de algumas semanas, tombos e singelas reerguidas. Um começo de noite agradável. Lembro que ouvi, ouvi, ouvi, minha opinião foi pedida, e não me privei de a expor (diálogos se constroem assim). Eu sempre esqueço que é necessário ser pasteurizado, sem bactérias, sem impurezas, (por isso é bom que conversas ao fim de tarde cheguem sempre nos mesmos pontos). O corpo e a cabeça até passeiam por entre o muito quente e o muito frio, mas toda e qualquer resposta, a todo e qualquer um destes estímulos, tem de ser ao modo pinguins de madagascar: sorria e acene.

Mas, na verdade, entre a metáfora, a limitação e a vista da janela do carro, acho que o laço se dá de maneira forte na segunda, quando olho em volta e penso: "às vezes faz sentido agir pasteurizado".