sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Três personagens numa noite fria.


Na verdade não fui eu quem chegou cedo, chegaria na hora supra combinada, foram os relógios dos outros que andaram noutras sintonias. Respirei fundo e abri mão de deixar isto se tornar uma cólera ou sentimento do gênero. 
Descobri como chegar onde deveria ir utilizando o transporte público daquela cidade - na qual, da outra vez em que estive, havia andado apenas alguns metros - e em menos de uma hora cheguei no local combinado. Ainda fechado, o jeito foi andar mais um pouco.
"Onde tem um carrinho de lanche por aqui?", "ali naquela esquina, passando os prédios". Embora seja um amante incondicional dos carrinhos de lanche das cidades de interior, não iria comer, pois não estava com fome. 
O terreno da esquina, onde estava o carrinho que me foi indicado, era cerca de um metro mais alto que o nível da calçada, totalmente cercado com uma grade de grosso arame liso e com uma escada para o acesso ao mesmo e às suas mesas de plástico com marcas de cervejas estampadas.
Pedi, aliás, uma cerveja.
Era uma noite fria, a avenida longa e larga, com um canteiro central igualmente largo, funcionava como um corredor de ventos frios. 

Dentro do carrinho de lanches (um trailler com duas geladeiras e uma chapa) trabalhava um homem de bigode preto e grosso. Ao me ver levando uma guitarra perguntou se eu era de banda, respondi que sim e que estava na cidade para tocar. 
Conversamos, e ele falou: "não era pra eu estar nessa vida de chapeiro, era pra eu estar que nem você, pra lá e pra cá tocando. Eu tinha uma banda, a gente tocava samba e pagode, toda semana a gente fazia três shows por ai", falou o nome de um monte de cidades em que tocou, e encerrou a história com tom trágico: "tivemos que acabar a banda, pois tinha uma com o mesmo nome no Rio de Janeiro, e eles nos processaram, ai com o prejuízo não deu pra seguirmos".

Na frente da rústica lanchonete, um homem mais velho fumava sozinho. Gentilmente trocou uma nota de 100 por cinco de 20 para mim, para que eu pudesse pagar a minha cerveja (bebida em cidade de interior, mas com preço da capital). Em clima de cordialidade, querendo retribuir o favor que me fizera, lhe ofereci um copo de cerveja, ao que ele negou, justificando: "vou recusar, muito obrigado, eu meio que sou segurança daqui, entende? Não posso beber. Eu fico aqui na frente, vigiando a movimentação, vendo se está tudo certo. E, outra coisa, eu tenho um problema, não posso beber cerveja por que se não eu me mijo todo, olha", abrindo as pernas e mostrando as calças molhadas nas partes internas das coxas, entendi...

Enquanto bebia o meu último copo de cerveja, ainda na calçada, ainda com o segurança e ainda sem que houvessem meus parceiros chegado (o que não foi um problema em momento algum, como mostra essa crônica), um rapaz se aproximou daquela esquina.
Cumprimentou o homem dentro do trailler, e foi cumprimentado, cumprimentou o senhor-segurança, e foi cumprimentado, me cumprimentou, e foi cumprimentado. Começou a me fazer perguntas, sobre de onde eu era e o que fazia por ali, pois nunca havia me visto. As fez sem agressividade ou coisa que o valha, e começamos a conversar. 
Após algum tempo comentou com o segurança: "é o que eu sempre falo pra você, não aguento mais essa vida de ficar parado aqui nesta esquina, que saco! É toda quinta, toda sexta, todo sábado. Aqui é um dos piores lugares pra ficar de ponto, mas se eu for pros melhores tem 'aquelazinhas' que podem, sei lá, me bater, me esfaquear, ai o que sobra pra mim é ficar aqui, até que chegue um homem bem rico, se apaixone por mim e me leve pra um lugar melhor". Olhou para mim: "moço, essa sua banda que vai tocar aqui é famosa? Vocês ganham bastante dinheiro? Posso viajar com vocês?".


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