quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Qual o problema com meus chinelos?


Acordei, me olhei no espelho. Não era dia útil de ser mais um inútil pela rua ou por salas semi ar condicionadas. A imagem refletida me trouxe uma certeza: "preciso dar um tapa no telhado, tá feio". Café com leite, pão com manteiga, um calor desgraçado.
Corto os cabelos na Lapa, onde o corte é ao modo fast food popular ou (fast cut): R$10,00 e em 15 minutos o assunto está resolvido. Não há filas de espera, nem papo furado por parte dos cabeleireiros e das cabeleireiras. 
Coloquei uma roupa bem arejada, camiseta que absorve o suor, bermuda de praia e um par de chinelos pretos. Nos tempos em que vivi em Marília era tão comum sair de chinelo nestes períodos de tempos mais quentes (que lá, não são poucos ou brandos). Para ir à aula, para ir ao mercado, para ir ao centro, para ir almoçar nalgum restaurante. Aqui em São Paulo noto não ser tão comum usar chinelos por ai, e hoje constatei mais ainda isso.
Ainda antes de sair de casa, ouvi de meu pai a árida pergunta: "você vai sair de chinelo?", "sim", "põem um tênis", "puta calor", olhar de desprezo.
Entrei em um ônibus, dei bom dia ao motorista (embora já fosse tarde). Dei boa tarde ao cobrador (me corrigindo do ato falho de meu fuso horário). Nenhum dos dois me respondeu, mas o cobrador se deu ao trabalho de comentar com o motorista, alto o suficiente para que eu, mais ao fundo no ônibus, ouvisse: "êta que calorão, bom pra sair desfilando de chinelinho por ai hein?".
Já na Lapa, passando por uma estreita calçada onde vendedores ambulantes, distribuidores de panfletos de bordéis e pedestres disputam espaço, um rapaz gritou: "vai lá chinelão meu parça", olhei para ele, que completou: "que chinelão" e riu. Outro, que vendia perfumes embalados em plástico filme de cozinha, me deu um leve tapa do ombro: "vai chinelão, é hoje que vai levar um perfume?".
Enfim, cheguei a um dos salões de dar tapas em telhados, assim que coloquei um pé dentro dele, uma das moças com avental escrito "cabeleireira" se aproximou de mim: "olá, é só o corte?", "isso", e foi me direcionando até uma cadeira. "Raspa em volta e apara em cima?", "isso, mantém o corte por favor", "posso aparar a costeleta também", "por favor", "você é ator de teatro?", "de teatro?", "é", "não, por que?", "pensei quando te vi entrando de chinelo, e agora por causa da costeleta, parecem aquelas coisas de ator de teatro", "o chinelo?", "é, parece, sei lá, coisa de personagem, ainda mais com a costeleta".
Com a cabeça já mais arejada, por conta dos cabelos aparados, voltei para casa pensando: "São Paulo, qual o problema com meus chinelos?", quando notei um rapaz no ônibus olhando para os meus pés com olhar de desdém...


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