terça-feira, 28 de outubro de 2014

O trilho de sequilhos.


Eu cresci urbano, morando na cidade de São Paulo, entre as casas de parentes que variavam entre bairros mais ou menos movimentados - por 'menos movimentado' entenda ruas em que é possível que crianças brinquem sem o risco eminente de atropelamentos brutais. 
Tenho breves lembranças de quando era criança e a escolinha em que estudei organizava excursões para sítios e fazendas próximos a São Paulo, onde as crianças urbanas conheciam (ao vivo!) a vaquinha, o porquinho, a galinha. E, acreditem, era tudo muito diferente pra mim - me lembro de quando vi um guia em uma dessas excursões tirando leite de uma vaca, e aquilo foi chocante.
Em razão deste dia a dia urbano em minha vida de criança crescente, algumas coisas nunca fizeram sentido pra mim, como as historinhas da "Turma da Mônica", em que a "rua do limoeiro" era, na verdade, um grande gramado. As historinhas do Chico Bento então, faziam menos sentido ainda: pé de goiaba? nadar em rio? Absurdos inimagináveis para a criança que por goiaba conhecia apenas a goiabada industrial, e por rio tinha a imagem do fétido tietê, que passa perto de casa.
Uma imagem que foi marcante em um desses quadrinhos do Chico Bento era de uma tirinha em que ele marcava o caminho de ida jogando pedaços de pão no chão de grama, para fazer o mesmo caminho na volta. No entanto, pombas e galinhas comiam o pão, e ele se perdia, sem saber como voltar para casa.
São duas e vinte e três da manhã. Estou tomando chá de folha de maracujá para ver se o sono vem, e, um tanto (jamais negarei) pra driblar a ansiedade que me bate no peito desde ontem: é semana de girar o corpo a 180º e ir para longe da cidade debiloidemente urbana.
Ao meu lado direito à uma pequena tigela com alguns sequilhos. Fiz um trilho de sequilhos em minha cabeça (mais ou menos como o do Chico Bento), pensando que cada sequilho comido são alguns instantes a menos entre estar aqui, na capital em que falta água, e entre lá, a cidade que aprendi a chamar de casa em algum interiorzão.
A tigela acabou, o sono não bateu. O menino urbano, que por uma série de planos catacombicos achou que era uma boa voltar pras urbanidades, só deseja o caminhar tranquilo (e de chinelos) pelas calçadas de sua cidade favorita.


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