sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Rabiola de nós mesmos.


1.
Vesti o meu melhor e único blusão de moletom preto, com bolso na frente e capuz embutido. Desci e fui ao banheiro, me olhei no espelho, pensei: "eu não troco esse moletom por um beijo apaixonado. Ou por uma dúzia deles".
2.
Coloquei para eclodir por toda a sala, cozinha e quintal o melhor som dos tempos recentes. "Tem mais gente na casa, talvez incomode". A música tem esse poder de preencher todo e qualquer espaço, seja lugar, seja corpo, seja essa matéria inominável, mas sentível que é esse 'eu'.
3.
Abri sobre o chão do quintal uma cadeira de praia, que se conheceu o prazer de entrar em contato com as areias praieiras por uma ou duas vezes, foi muito. "Somos urbanos, numa cidade mais questionável que universitário em show de milhão". Ao meu lado, algumas plantas (sem flores).
4.
O vento frio não seria suficiente pra fazer subir uma pipa, mas o é para que eu sinta as canelas semi geladas, quase como picolés. "Alcatrão refresca o pulmão e é boa companhia ao café", é um bom modo de sentir o vento (por fraco e pouco circulante que seja) nas canelas e no rosto.
5. 
Vesti o capuz (pois ele não é enfeite). Acabou a música e passou o carro que pede para olhar para a Cândida. Deitei um pouco mais a cadeira de praia. Goteja uma chuva fina, estou no coberto. "Deus é o nome que deram pras coisas que não possuem sentido lógico explicável dentro dos ditames e domínios humanos; é tudo aquilo que foge ao controle das mãos, dos pés, do olhar etc".
6.
Um pássaro começou a berrar em algum telhado próximo. Outro o acompanhou. "Às vezes parece que toda a vida tá interligada, como se cada vivência e/ou época fosse uma tirinha de saco plástico em uma rabiola da pipa de nós mesmos".


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