terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dança Ponta Vaca.


Lembro que naquela noite, depois que passou o inchaço do local, e já era possível sentir o efeito da presença circulante dos ventiladores (o que não era alívio algum, pois era uma noite fria), aquela moça mexeu o corpo perto de mim. Eu nunca havia a visto, nem lá, nem em lugar algum. Enfim, com a parte interna do corpo já totalmente mexida e remexida, comecei a mexer as partes externas do corpo próximo e no ritmo às dela. Depois me falou quem era, de onde vinha. Mas então sumiu, e eu continuei mexendo, e continuei o fazendo sem estar sozinho, e depois ela me deu tchau meio de longe e eu não sabia como proceder. Uns dias depois a vi pela rua, ela me deu um 'oi' entre tímido e caloroso (parece impossível, pois contraditórios, mas não é/são). Acho que nunca mais a vi depois - mas segui mexendo as partes internas/externas do corpo.

Não houve fogos de artifício em proporções copacabanescas, o que foi bom, e o que representava, de certa forma, os intuitos para a situação. Teve um ou outro segurando pipocos de doze por um, uns gritos e alguns breves estampidos de rolhas voando, garrafas de champanhe a fora. Houve também o barulho do fósforo sendo riscado pra acender a metade que ficou sem ser queimada antes da meia noite, e o som dos risos e medos (ou risos por medos) da água gelada que havia entre nós e o mar. A escuridão plena também fazia parte dos intuitos para a situação. Não sei se foi o vento, ou a falta de luz, ou alguma onda ou o que, só sei que se disse: "ixi, essa foi pra iemanjá".

Às vezes eu me sinto olhando e pensando no que ocorreu e nas coisas que vivi não como se olhasse para trás, como diz aquela velha metáfora temporal-espacial, mas sim como se olhasse de cima. Longe de mim achar que o presente é superior ao passado (sou dramático, otário e sincero o suficiente pra reconhecer que talvez eu faça o oposto). Simplesmente sinto como se as situações de passados já mais longínquos da minha vida ocorressem no pátio de um prédio, e eu observasse o desdobrar dos acontecimentos, sei lá, da janela do quinto ou do oitavo andar. Ou, melhor, você lembra daquela vaca do filme "twister", que é jogada para o alto de um furacão e, em seguida, tragada pra dentro do mesmo? No presente atual, falando dos passados mais recentes (ou 'já não tão recentes'), eu me sinto como a vaca, no momento em que gira no topo do furacão e observa cientistas babacas (na verdade atores) com suas picapes.

Quando que este turbilhão de tudo vai parar de girar e jogar a vaca da minha consciência pra tudo que é lado de conjugação verbal-mental e tragá-la/tragar-me pro olho de um furacão caolho? 


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