quarta-feira, 24 de setembro de 2014

cinco.


lembro de quando cheguei e parei e olhei e perguntei pra mim mesmo se era aquilo mesmo que eu esperava ou que eu queria, perguntei fundo, mas vi que era meio inútil perguntar, por que eu já tinha colocado meu nome em tudo mesmo. pouco a pouco foi ganhando cara, foi ganhando expressão, curva, um pouco de cor e um pouco de outras coisas que iam caindo pelo chão e eu simplesmente deixava, e era gostoso pra caramba assim. quer dizer, teve uma época que foi pesado e estranho, mas eu fui deixando e consegui ser ligeiro pra ir deixando mesmo; às vezes eu nem lembro que teve um começo de tarde nazista em que eu bati com a cabeça na pia do banheiro, de bate pronto eu costumo me lembrar de tantas outras situações. e quando eu me lembro disso tudo, eu tenho saudades de quando a gente corria de uma polícia imaginária que sempre existiu na minha cabeça (talvez você nem soubesse que estava correndo disso, e talvez eu jamais vá saber que estava correndo de algo imaginário que existia na sua cabeça), e olhávamos para trás mas sem olhar, por que, na verdade, eu nunca virava a cabeça pra trás, era sempre um pretexto pra virar pro lado e olhar pra você mais um pouco. mas a polícia, eu sabia que era imaginária, mas sempre achava que estava atrás de nós, pois "quem não deve não teme", e como eu temia que aquela imaginação não o fosse e fosse, sim (caramba!) uma polícia atrás de nós. como é que você brincava?: "lá vem a polícia de não sei o que", em tantas situações. e teve aquela vez também que eu estava tranquilo, você também, nós estávamos tranquilos, e ai eu tinha certeza de que não havia polícia atrás de nós, na verdade isso nem passava pela minha imaginação nessa e noutras situações, em que era tudo mais tranquilo, mais arrumadinho, sem pressa; e eu tenho saudade disso também. por que era tudo tão tranquilo e certinho, mesmo quando o (aparente) errado era o chão em que pisávamos ou estava ali, bem defronte aos nossos narizes e fingíamos que tava tudo certo, que não tinha nada, nem pessoas de olho nem polícias (reais). passou um tempo de frio, passou um tempo de mais ou menos, passou um tempo de calor e ai parecia que ia vir outro tempo de mais ou menos mas não veio, quer dizer veio, mas não veio; e no tempo de calor eu não tinha preocupação com as polícias imaginárias, mas sim com as baratas concretas que pareciam brotar de todos os cantos, elas nunca tinham aparecido por ali, mas logo que apareceu uma já vieram mais três no mesmo dia, depois era quase todo dia e eu não conseguia dormir sem um sapato do meu lado ou os seus golpes de judô, e eu sinto falta disso também. e ai depois de correr e olhar pra trás (que na verdade era pro lado) e correr e ter lua e ter sol e ter tido frio e estar começando a ter calor e ter mais calor por ali e tudo, era o momento em que, não que o corpo parava, os corpos, mas sim que havia alguma mínima concentração pra se parar, parar o corpo mesmo, e parar de pensar em polícias, baratas, certo, errado, frio, calor, sol ou lado. até a hora de abrir os olhos, fazer aquele check up tão comum a quem passou a noite fugindo de polícias imaginárias, respirar fundo colocando pra dentro do corpo a poeira e as raspas de tinta da parede que descascava e caía pelo chão perto do colchão embaixo de mim. tudo era sujo, tudo tinha defeito (do chuveiro ao armário, do sofá à porta da cozinha) mas tudo era certo, toda a polícia imaginária que sempre existe na minha cabeça olhava praquilo e dizia que era certo. "mas caramba, já passou o tempo de uma gestação, você não tem vergonha na cara não?", "não, eu tenho saudade, estampada na cara".


Pinocchio Ltda.


Foi em 2007, eu assistia televisão na sala de casa e parei em um canal de videoclipes, talvez tenha sido na Mtv, que deus a tenha. Passava um compilado de imagens muito bem filmadas que dava vida visual a uma música do Evanescense. Nunca gostei da banda ou do estilo, mas fiquei o vendo. O videoclipe e a música falavam sobre mentiras, de um modo bem básico e direto: a moça chorava e esperneava enquanto a música ecoava versos e refrões sobre o tema, pois tudo no mundo é uma mentira, não se iluda, é mentira, é falso, é tudo falso, uma grande mentira, uma enorme enganação; a ideia era essa. Meu pai apareceu por lá, e ficou vendo o tal videoclipe. Não se furtou, claro, de fazer um comentário extremamente crítico àquela peça. Claro que eu não lembro as palavras que ele disse, faz sete anos isso, mas foi algo como: "sabe, não sei a quem interessa ficar enfiando na cabeça dos adolescentes que nada presta, que está tudo errado; parece que tem uma indústria que quer fabricar a ideia de que é tudo errado e ruim, que nada presta no mundo". Sei lá se existe essa industria, e se existir, devo dizer, eu sou mais um produto dela, por que os anos passam, e eu ainda acho tudo uma mentira, uma pinocchisse absurda, um saco, e calculo as enganações sem fim que circulam por ai, nos discursos, nas práticas, nos ônibus, nos formulários, nos remédios etc.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Rabiola de nós mesmos.


1.
Vesti o meu melhor e único blusão de moletom preto, com bolso na frente e capuz embutido. Desci e fui ao banheiro, me olhei no espelho, pensei: "eu não troco esse moletom por um beijo apaixonado. Ou por uma dúzia deles".
2.
Coloquei para eclodir por toda a sala, cozinha e quintal o melhor som dos tempos recentes. "Tem mais gente na casa, talvez incomode". A música tem esse poder de preencher todo e qualquer espaço, seja lugar, seja corpo, seja essa matéria inominável, mas sentível que é esse 'eu'.
3.
Abri sobre o chão do quintal uma cadeira de praia, que se conheceu o prazer de entrar em contato com as areias praieiras por uma ou duas vezes, foi muito. "Somos urbanos, numa cidade mais questionável que universitário em show de milhão". Ao meu lado, algumas plantas (sem flores).
4.
O vento frio não seria suficiente pra fazer subir uma pipa, mas o é para que eu sinta as canelas semi geladas, quase como picolés. "Alcatrão refresca o pulmão e é boa companhia ao café", é um bom modo de sentir o vento (por fraco e pouco circulante que seja) nas canelas e no rosto.
5. 
Vesti o capuz (pois ele não é enfeite). Acabou a música e passou o carro que pede para olhar para a Cândida. Deitei um pouco mais a cadeira de praia. Goteja uma chuva fina, estou no coberto. "Deus é o nome que deram pras coisas que não possuem sentido lógico explicável dentro dos ditames e domínios humanos; é tudo aquilo que foge ao controle das mãos, dos pés, do olhar etc".
6.
Um pássaro começou a berrar em algum telhado próximo. Outro o acompanhou. "Às vezes parece que toda a vida tá interligada, como se cada vivência e/ou época fosse uma tirinha de saco plástico em uma rabiola da pipa de nós mesmos".


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Name Tade.


"Olha pra esses homens sérios, seus futuros perfeitos, eles vivem e não vivem. Olha esse povo todo com asas de cera se atirando dos prédios. Toda essa gente correndo atrás de nada. E olha pra você: qual é o seu lugar?".
No segundo ônibus do retorno pra casa (embarquei ainda em um terceiro), ao fim de um dia cheio (embora com considerável vazieza em si), levei um chute no cérebro por meio desta música; não sei por que escolhi este álbum para tocar em meus fones de ouvido.

Já deve fazer uns 8 ou 9 meses que voltei a morar em São Paulo ("uma oportunidade única, o stress compensará", hãm). Nove meses parceir@... E eu ainda me pego cometendo o erro metodológico de comparar um passado (não tão) recente assim, de aromas doces e belos, com o presente (entendido como o que é mais recente, no aparente pra frente ou no recordável pra trás) com cheiro de fumaça de coisa podre sendo queimada - aqui, sem metáforas: São Paulo tem esse cheiro mesmo.
Sentado na escadinha do fundo do ônibus lotado, observava as pernas e bundas que, paradas no mesmo trânsito que eu, levavam corpos do trabalho pra casa (nem asas de cera existem pra dar uma enganadinha). Levei 2 horas e meia pra chegar em casa, registre-se de passagem.
Tirei os fones das orelhas, alguns minutos no silêncio do ônibus lotado. Quando os retornei para seu lugar de função, e recoloquei a mesma música para tocar, a letra veio diferente: "olha esse homem sentado na escadinha, que presente perfeito, ele vive e não vive", como um milagre bíblico, o mp3 virou um disco riscado em uma vitrola velha, repetindo apenas: "não vive, não vive, não vive".

Numa matemática simples, rápida e auto piedosa, concluí esperançoso: "metade já passou".


domingo, 14 de setembro de 2014

Um exército de robôs da bosta.


Existe uma máquina de formação de robôs da bosta, é, na verdade, o "exército de robôs da bosta" - ou "robôs do exército da bosta". Após meses (diria que anos) de uma investigação meticulosa, apresento aqui os primeiros resultados deste árduo trabalho.

Estes robôs não são construídos com micro chips, latarias ou com tecnologia japonesa repleta de bancos de dados virtuais, mas sim com base em um modo de doutrinamento muito específico, embora indireto: a "educação em banho maria", aquela que não cria o robô a partir de máquinas, mas que o forma ao longo de encontros, conversinhas, jantares, viagens, esporros e conselhos, o que se inicia quando o mesmo se encontra nas 'fases primeiras de crescimentos' - físico, mental e moral - e perdura até a certeza de que ele é, agora, plenamente um robô do exército (quaisquer indícios de rebelião aos conteúdos do 'banho maria' [que ficarão claros adiante] devem ser reprimidos pelos superiores com cortes diversos e humilhações públicas).
O exército se reproduz a si mesmo a partir do encontro com outros que, se não passaram pelo mesmo treinamento milítico-robótico-bosta, passam a aceitá-lo ou tolerá-lo e, em alguns bons casos, a reproduzi-lo, se tornando também robôs do exército (mostrando que a "educação em banho maria" pode, sim, doutrinar aquele que já deixou há tempos as 'fases primeiras de crescimentos'). 
A base moral de toda a existência deste exército (e, logicamente, de cada robô) é crer que tudo é uma bosta. Exceto, claro, aquilo que diz respeito a si e/ou ao próprio exército. 
Por exemplo: toda e qualquer ação (ou produto de ação) que outros - alheios ao exército - fazem, é uma bosta. Toda situação (festas, pratos, falas cotidianas etc) que terceiros criam, é uma bosta. O que os robôs e o exército criam, é inquestionavelmente exemplar da beleza, do certo, da purificação.

Falei dos olhos de raio-cheese (ou "raios-x")? 
Os robôs do exército da bosta, para conseguirem detectar com a maior perfeição possível (eles são perfeitos) o máximo de bosta alheia que lhes for cabível, possuem olhos de raio-cheese. 
Por exemplo: se um terceiro (externo ao exército) surge vestindo uma camiseta (que pode até ser simpática e bacana) olham todos os detalhes do tecido, da estampa, das costuras. Encontrando um mínimo fio desfiado, fora de lugar, guardam a imagem do mesmo em sua "base de dados da bosta" - local separado em suas "mentes fictícias" para armazenarem o que acharam uma bosta (vulgo: tudo) - para, adiante, quando apenas entre membros do exército, dizerem algo como: "que absurdo aquela pessoa se dirigir a nós com a camiseta desfiada; não possui classe; não possui estilo; não possível noção do que é se vestir direito; não possui o mínimo respeito pela nossa alta pompa; só possui bosta e jamais será reconhecida por nós como algo além de bosta por que é bosta e só essa bosta é bosta meu deus que bosta".
Aliás, os robôs do exército da bosta possuem em seu vocabulário um limitado repertório verbal, que conta com curtas frases, articuláveis entre si, como: "isso é uma bosta", "fulano é um bosta", "aquele lugar é uma bosta", "aquilo que ele fez ficou uma bosta". Em geral, quando voltam de algum lugar ou após algum breve encontro, suas conversas giram em torno de: "sabe o que é uma bosta? essa bosta toda é uma bosta que só serve pra bosta e não tem bosta que bosta se compare a bosta sabe? Por que bosta mesmo é essa bosta que é só bosta o tempo bosta todo como bosta hoje aqui nessa bosta fez bosta e saiu toda bosta por ai bosta".
Se trata, realmente, de um seleto grupo de semi-humanos, perfeitos em suas existências, plenos em suas atitudes e cujas posturas deveriam servir de exemplo total para toda a humanidade - que é, ao ver do exército, uma bosta.

Ass: Captain Bosta Coiso.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

100 xatiassão.


De um modo bem didaticamente matemático (1 + 1 = 2) coloquei os dias no papel - na verdade, pensei neles apenas - e vi que não tem kaô (como diz o pessoal do Rio): "a semana foi bacana", "e o que você fez de especial para tal?", "o que tinha que ser feito, sem tirar nem por", "sem tirar nem por?", "tirei e pus um pouquinho sim, mas não vem ao caso", "e isso é bom?", "veja (mostra algo no rosto, entre o queixo e o nariz) 100 xatiassão".


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Isso aqui é uma enganação!


Quase todas as noites eu dou uma choradinha.
Lembrando das piores e melhores histórias que os tempos de semi-professor me permitiram viver.
Lembrando das piores e melhores paixões desenfreadas que os tempos de boas me permitiram viver.
Lembrando das mais amargas situações que os empurrões negativos me fizeram viver.
Lembrando de todos os nuances da vida já-não-tão-recente-assim que não exitei em viver.
Lembrando de todas as coisas que não existiram pois me privei de viver.
Lembrando de todas as coisas que, aaaaaah, babaca... Sobre isso:
"Ontem eu estava estudando o cara que fala da rinha de galos e imaginei dois galos brigando na minha cabeça e um dizia que eu era babaca e outro dizia como tenho sido babaca", nota ao despertar no meio da madrugada.

Considerando que ao acordar eu serei mais um chato observando a poluição ou dando passos curtos no corredor da baldeação, insatisfeito com a vida pensando: "que merda boa tenho me permitido viver?". Sempre acabo esperando a hora da noitona chegar.

"Mariângela, isso aqui é uma enganação, Mariângela!".
Tudo bem, a noite eu deito a cabeça no travesseiro e dou mais uma choradinha. "É temporário", eles/as dizem. "É temporário, é temporário, é temporário", eu repito.
"Mas, sabe, posso resmungar mais uma vez?", juro, não vai ser a última, nem a antepenúltima, a gente sabe. "Rapidinho, só mais uma coisa".
Às vezes eu estou vivendo, fazendo as coisas que tem que fazer ou reclamando das que tenho que viver, pois, de fato, fui eu que escolhi (parecia que ia ser tão bom...), e me lembro de um verso com duas estrofes.
"Agarro meu sonho entre minhas mãos,
Mas por entre meus dedos eles se vão".
E é assim que eu me sinto todas as noites após dar a minha choradinha cotidiana. É como se isso tudo fosse o sonho que eu sonhei viver, e agora, que é a hora de os agarrar com as mãos, pois estou os vivendo, eles se vão por entre os dedos, escorrem de volta pro oceano dos sonhos a serem sonhados em nome de um cotidiano mais bacana.
Olho minhas mãos vazias, olho a poluição, a fila da baldeação, os textos antigos, as cretinices que eu disse, olho para tudo (até pro que não é passível de ser espiado) sinto vontade apenas de gritar: "isso aqui é uma enganação porraaaaaaaaa!".



terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dança Ponta Vaca.


Lembro que naquela noite, depois que passou o inchaço do local, e já era possível sentir o efeito da presença circulante dos ventiladores (o que não era alívio algum, pois era uma noite fria), aquela moça mexeu o corpo perto de mim. Eu nunca havia a visto, nem lá, nem em lugar algum. Enfim, com a parte interna do corpo já totalmente mexida e remexida, comecei a mexer as partes externas do corpo próximo e no ritmo às dela. Depois me falou quem era, de onde vinha. Mas então sumiu, e eu continuei mexendo, e continuei o fazendo sem estar sozinho, e depois ela me deu tchau meio de longe e eu não sabia como proceder. Uns dias depois a vi pela rua, ela me deu um 'oi' entre tímido e caloroso (parece impossível, pois contraditórios, mas não é/são). Acho que nunca mais a vi depois - mas segui mexendo as partes internas/externas do corpo.

Não houve fogos de artifício em proporções copacabanescas, o que foi bom, e o que representava, de certa forma, os intuitos para a situação. Teve um ou outro segurando pipocos de doze por um, uns gritos e alguns breves estampidos de rolhas voando, garrafas de champanhe a fora. Houve também o barulho do fósforo sendo riscado pra acender a metade que ficou sem ser queimada antes da meia noite, e o som dos risos e medos (ou risos por medos) da água gelada que havia entre nós e o mar. A escuridão plena também fazia parte dos intuitos para a situação. Não sei se foi o vento, ou a falta de luz, ou alguma onda ou o que, só sei que se disse: "ixi, essa foi pra iemanjá".

Às vezes eu me sinto olhando e pensando no que ocorreu e nas coisas que vivi não como se olhasse para trás, como diz aquela velha metáfora temporal-espacial, mas sim como se olhasse de cima. Longe de mim achar que o presente é superior ao passado (sou dramático, otário e sincero o suficiente pra reconhecer que talvez eu faça o oposto). Simplesmente sinto como se as situações de passados já mais longínquos da minha vida ocorressem no pátio de um prédio, e eu observasse o desdobrar dos acontecimentos, sei lá, da janela do quinto ou do oitavo andar. Ou, melhor, você lembra daquela vaca do filme "twister", que é jogada para o alto de um furacão e, em seguida, tragada pra dentro do mesmo? No presente atual, falando dos passados mais recentes (ou 'já não tão recentes'), eu me sinto como a vaca, no momento em que gira no topo do furacão e observa cientistas babacas (na verdade atores) com suas picapes.

Quando que este turbilhão de tudo vai parar de girar e jogar a vaca da minha consciência pra tudo que é lado de conjugação verbal-mental e tragá-la/tragar-me pro olho de um furacão caolho? 


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Não existem receitas.


Breve relato de José Gomes Neto - XXVII:


"Naquela época eu assistia um desses programas de culinária na televisão. Só assistia, não tentava cozinhar nada do que faziam ali, como me parece ser com a maioria que assiste a esses programas. Até que um dia passaram uma receita interessante, de um bolo. Soou tão interessante na TV que me fez ir atrás do site do programa para encontrá-la e tentá-la fazê-la em casa. Separei todos os ingredientes, e fui os colocando na tigela e mexendo do jeito que o texto indicava. Da tigela passei para uma forma (untada com margarina e farinha de trigo), que foi para o forno. Após 50 minutos, quando a tirei de lá de dentro, conforme indicado na receita impressa, encontrei uma massa murcha no meio, dura nas laterais, completamente esquisita, que nem de longe lembrava o bolo feito na TV. Pensei "devo ter feito algo de errado na hora de operacionalizar a receita". Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas entendo: em geral (na vida?) te ofertam a receita, te mostram os ingredientes e o caminho, e nem sempre o resultado é o (justo?) esperado".

José Gomes Neto,
01 de Novembro de 2011,
Cozinhar pra quê?


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Queria ter levado aquele soco.


Se levantou de onde estava sentado, pois lhe soava estranho e sem sentido demais ouvir absurdos sendo ditos por alguém que estava em pé. Diria que era quase covarde (aquele que estava em pé), mas vou guardar esse adjetivo para mais adiante no texto.
É importante ter opiniões, e também lembrar que opinião não é tudo. Mas, na minha leitura dos fatos, e de muitas e muitos outras e outros, com suas opiniões, a babaquice reinaria absoluta entre os ali envolvidos.
Se levantou, e ao questionar os argumentos que eram ditos foi acusado de algum outro crime, e lançou outra acusação como réplica (havia muitas acusações e crimes cretinos entre ambos) e essa troca foi se mantendo, até o argumento alheio se mostrar totalmente furado e o porta voz deste ter se revelado a plena covardia (eu disse que empregaria o adjetivo), verbal e física.
Mas tinha um terceiro por ali, que segurou o braço e evitou o consumar da covardia física, que se daria por meio de um soco. Pegaria na lateral esquerda da face, em cheio. E, olha, sabe que queria ter levado aquele soco? Não iria reagir, talvez levasse mais um ou outro - o que, em sua matemática débil, seria bom também.
Claro, na hora da porrada ia doer, mas ia poupar tanta dor de cabeça que aconteceu depois e, mais ainda, encerraria qualquer tipo de argumento que ouviria nos anos seguintes, sobre exagerar ou fantasiar ou procurar pelo em ovo ou ser o calculista das matemáticas débeis mesmo. 
"Um soco vale mais do que mil canalhices", pensou.
Aquele soco na cara (podemos contar a intenção, Seu Árbitro?) encerra(ria) qualquer assunto, nos poupa(ria) deste texto, pode(ria) dizer: "porra, mas eu levei um soco na cara!", e etc. 
Mas não, tinha a mão do terceiro.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Do sorvete podre.


Breve relato de José Gomes Neto - XXVI:


"Numa tarde quente qualquer, em que fomos fazer nada travestido de algo semi importante no centro da cidade, inventamos de variar de sorveteria. Não lembro quem sugeriu a variação, e isso tampouco importa. Quando entramos na sorveteria pedimos cada um uma bandeja com dois sabores diferentes. Pedimos, basicamente, os mesmos sabores que pedíamos na sorveteria de sempre. Não foram necessárias muitas passadas de pá entre as massas coloridas e gélidas e nossas línguas para que percebêssemos que não eram lá muito boas. Um dos sabores, inclusive, ficou por ali na bandeja, até se derreter por completo: era intragável, impalatável, de um gosto podre. Você saiu de lá com a cara da revolta, exalando braveza, e citou o episódio para diversas pessoas próximas, tratando de as alertar: "nunca vá naquela sorveteria". O sorvete era horrível, ruim mesmo, mas se serviu a algo saboroso, foi descobrir que até as suas expressões de desgosto e revolta faziam-te linda. Faz um tempo que lamento, ter sido eu, o sorvete ruim a te maltratar o paladar da vida.".

José Gomes Neto,
22 de Outubro de 2012,
Do sorvete podre.