terça-feira, 19 de agosto de 2014

Na ex-trada.



A cabeça chacoalhava levemente, apoiada entre o encosto do banco de trás do carro e o vidro fechado. A posição não era das mais confortáveis, e até que combinava com o mergulho totalmente desconfortável das sensações e pensamentos recentes. Quando abria os olhos era surpreendido pela estrada à minha frente, sempre tão retilínea - mesmo após tantos anos passando frequentemente por lá, eu ainda me surpreendo.
Havia certo enjoo em mim. Ou, penso, seria mais correto pluralizar esta frase, sem medo de exageros: havia uma dezena de enjoos em mim naquela tarde.
A sensação de que a UTI fracassara (por fracasso próprio meu); de que os fins e as carnificinas se matavam em risos ao me verem como carniça disso tudo; de que coloquei toda a tinta disponível e, mais uma vez (com requintes de nazistices) destruía pinturas em potencial; etc. 
E assim percorri sentado, abraçado à mochila, aqueles últimos quilômetros. 
A cabeça pulsava em dores, os olhos fechados se reviravam por dentro, a ânsia chegava ao seu pico máximo (exigindo sem externalizada). O barulho recomeçou, mas não durou muito, e nem representou grande êxtase. 
No fim do dia, antes de voltar pra estrada, ainda balbuciei ao pé dum velho ouvido: "acho que a diferença entre 'agir como um idiota' e 'ser um idiota' está na recorrência das práticas". Fui respondido com uma fala à lá 'deixe disso', de que sempre há tempo para se repensar, se refazer.
E tive pique ainda pra fazer alguma piada ruim (em geral, sempre tenho pique para fazê-las, mesmo que não ria depois): "em vez de pegar uma ex-trada, que é coisa do passado, vamos para casa por um atual-trada", eu falei, antes de seguir calado observando as poucas luzes que passavam na pista do sentido oposto.



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