sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Estacionado o mergulho sem porta.


Estacionei o olhar no objeto de construções humanas mais longínquo que meu olhar alcançava. Entre o meu posto de observação e aquele par de prédios em vermelho e branco, alguns bons quilômetros de ruas, calçadas, avenidas e vielas; uma igreja branca e pontuda, centenas de casas (desisti de contar quando cheguei ao número 82 e ainda faltavam muitas mais), outros tantos prédios (29 torres), uma região arborizada e dois viadutos - e, com certeza, mais um monte de coisas que meu olhar e minha imaginação não permitiram alcançar.
Estacionado em uma cadeira ou banquinho, não sei como classificar tal objeto em que estive sentado durante bons minutos, mas que, independente do nome, não é muito confortável, me detive na vontade convidativa de dar um mergulho por estas bandas. Eu sei, não tem água, talvez este fato impeça o uso correto da palavra 'mergulho', mas a sensação de convite (quase como vontade) foi a de mergulhar na direção dos prédios em vermelho e branco (não que eu adore prédios ou essa combinação de cores, foi só vontade de chegar lá nadando).
Não tinha porta no banheiro, e ora estive sozinho, ora acompanhado. E em nenhum dos momentos me senti intimidado ou coisa do gênero, a ponto de me fazer parar ou mudar qualquer realização - de qualquer gênero - que eu estivesse prestes a realizar ou realizando ou experimentando. Simplesmente não havia porta ali, e simplesmente havia em mim a vontade de fechar todas as portas sensoriais, sensitivas e existenciais; "em pleno banheiro?", "rapaz, a vida é minha, eu abro e fecho as portas que eu quiser, onde eu quiser". 
"Disso tudo, algo bastou? Algo prestou? Algo realmente construtivo ficou?", ouvi alguém me perguntando no apartamento vazio entre os gritos da música. "Não sei, talvez não tivesse que ficar nada, a moral desse papo todo é essa, eu acho, acho mesmo, que só dei uma estacionada na vontade de mergulhar após passar um tempo em um banheiro sem porta".





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