sábado, 30 de agosto de 2014

Na verdade eu não gosto desse tipo de análise.


Lembro, quando já não era mais tão jovem assim, e decidi que viveria um reveion tal qual a etiqueta indica: acreditar que um "ano novo" pode significar realmente alguma(s) mudança(s) na vida. "Não vou de branco, mas vou acreditar que, por conta desta meia noite (...) alcançarei meus objetivos, seja lá quais forem", eu escrevi. Hoje em dia eu penso essa sentença de outra forma, talvez obviamente.
No final do ano passado me vi numa situação curiosa com relação à "passagem de ano": mudanças realmente significativas se anunciavam para o período anual iniciado após o 31 do Dezembro, tanto no que diz respeito ao ano vivido, quanto ao ano que estava por vir. E eu bati o pé e fiz questão de viver um reveion mil grau.
Não me vesti de branco (nunca o faço, não gosto de branco), mas fui pra uma praia não cheia, afastada. Levei na bagagem uma champanhe Corinthiana, uma camiseta para usar na ocasião e me recordo de ter acendido um fogo de artifício um pouco depois da meia noite.
Me lembro também dos abraços tão ternos e plenos, das falas positivas entre nós e da minha cabeça falando pra mim: "esse ano vai ser foda, você batalhou, alcançou algo que queria e agora vai viver uma mudança por si".
Todos os meus prognósticos (e de quem estava comigo ali) eram os mais positivos sobre este 2014 que eu viveria. 
Não vou contar quantos dias se passaram, mas já passou praticamente o período de uma gestação completa desde que molhamos as canelas no mar partilhando profanidades reveionescas. Nove meses se foram de todos aqueles votos e certezas, e, hoje, ao me enrolar no cobertor e saborear um pouco mais a sensação de desemprego e inutilidade do meu ser, saboreei que a minha unica certeza é de que realmente eu não gosto desse tipo de análise.
Tudo soa uma merda, todos os planos se mostram furados, e o futuro (que, em tese, faz isso tudo valer a pena) é uma página que parece que não chegará tão bacana assim, quanto parecia naquela meia noite com poucos fogos, pois a praia era isolada.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Larga a coca mano!


Lá pelo meio de 2010, entre inimigos e fugas, quando meu cérebro se tornou algum tipo de esponja de pensamentos ruins, e uma legítima bomba propulsora de negatividades diversar e adversas, tomei a decisão (talvez óbvia) de começar a mudar alguns hábitos. Cortei algumas pessoas da lista de convivências, cortei alguns filetes daquele corpo jovial, procurei alguma ajuda socialmente aceita em termos de farmacos, e parei de beber. Aliás, chegou um momento naquela época em que pensei: "caramba, isso não está saudável". Isso eram os hábitos nada degustantes ou recreativos para com bavarias, chapinhas e cinquenta e uns; decidi parar, por um tempo, que acabou se tornando um pouco mais de um ano. Foi um período bom, além de me sentir melhor com meu corpo, economizei uma boa quantia em dinheiro, o que não vem ao caso, "saúde é o que interessa, o resto não tem pressa", vocês lembram. Nessa época, quando sentia vontade de beber, caminhava até o mercado mais próximo (geralmente, aquele glorioso mercado de bairro em cidade do interior) e comprava dois litros de coca-cola, que não duravam mais do que dois dias. Lembro-me de uma época em que o chão da cozinha possuía diversas garrafas vazias deste refrescorante, alinhadas rentes ao balcão (por que eu tinha preguiça ou esquecia de jogá-las fora). Faz mais de uma semana já que decidi puxar o freio de mão da bebida de novo, por razões cerebrais e corporais semelhantes (mas jamais iguais, é aquele papo do Heráclito sobre o homem e o rio), e já me vejo, em princípio de noite, recorrendo ao mercado mais próximo (agora uma franquia de uma grande rede na metrópole, sem o charme do mercado de bairro interiorano) para trazer para casa dois litros de coca-cola. 
Alguns vícios são mais aceitáveis, outros mais questionáveis, alguns saudáveis ("sou viciado em atividades físicas") e outros são meros estanques, substitutos ruins que ganham espaço no time por que os jogadores principais estão contundidos ou fazendo corpo mole. "Larga a coca mano, essa merda serve pra desentupir privada!", falou uma daquelas vozes desviantes que habitam a consciência, quando eu caminhava de volta pra casa, preocupando-me se a sacola plástica cederia ou não ao peso da garrafa (que agora é de dois litros e meio).


domingo, 24 de agosto de 2014

Cortando o cabelo.


"Bom dia moça, gostaria de cortar o cabelo", "claro, mas tudo bem pra você esperar uns minutinhos? Tenho que acabar o delas duas, depois é você", "tudo bem", "fique a vontade, pode sentar no sofá".
Sentei no sofá esperando a minha vez, e não resisti em, durante os 'minutinhos' (que foram quase uma hora), anotar algumas frases e diálogos travados dentro daquele pequeno salão entre as mulheres (e apenas mulheres) que nele estiveram no mesmo período que eu.

"Olha que corpo lindo! Você olha a barriga, as coxas e não vê uma estriazinha, belo corpo menina! Cuida bem dele que os meninos vão ficar loucos".

"Se você coloca um sapato de salto e faz uma maquiagem boa, sem carregar muito, já fica chique, nem precisa ser um vestido muito bonito cheio de coisa, pode ser o mais simplezinho. É uma maquiagem e um sapato de salto".

"Vocês ficaram sabendo do menino que tem a oficina de moto ali do lado? Na rua depois daqui, virando a esquerda, onde sempre tinha uns meninos com motos e ele fazendo conserto em moto. Baixou a polícia ontem ai, dois carrões, ficaram um tempão olhando as motos e levaram ele preso, algemado e tudo, no porta mala de um dos carros. Tão falando que era tudo moto roubada, e que ninguém sabia de nada, nem o pai dele!", "quem mais sofre são os pais".

"A minha menina nunca foi em casamento, é o primeiro que ela vai, está toda toda, na hora que viu o vestido que arrumei pra ela ficou toda feliz, não vê a hora de se arrumar, ir na festa".

"Antigamente a mulherada passava ferro no cabelo, agora tem chapinha. A minha mãe contava que ficava uma esticando o cabelo de quem ia alisar, ai colocava uma toalha em cima e ela passava o ferro", "a chapinha mudou só por que protege o cabelo, protege tudo, por que ainda é a mesma coisa. Antes teve a touca de gesso, quero ver o que vai ter daqui vinte anos, tão sempre inventando coisa nova".

"Hoje a Maria não veio aqui?", "não, hoje não", "oxi, e onde ela está?", "deve estar lavando roupa, essa semana me disse que ia passar o sábado fazendo isso por que estava com tudo as roupas dos meninos atrasadas, como ela chega só as oito em casa, a essa hora já cortaram a água aqui na vila e não dá tempo dela lavar roupa".


sábado, 23 de agosto de 2014

O charuto.


Não sei por que eu tinha um charuto em casa, não sei mesmo. Talvez algum amigo ou algum familiar tenha viajado para alguma capital das charutarias e me trazido como "recordação". Lembrei dele hoje, e realmente não me lembro de onde ele veio e nem o que fazia em cima da minha mesa. Não lembro também se foi pouco tempo que ele passou ali, em cima da mesa. Mas tenho a lembrança imagética dele ali, sempre ao redor do meu computador, se mesclando às dezenas de coisas jogadas na mesa compondo aquela baderna de que tenho tanta saudade. Lembro da imagem de um charuto, dentro de um saquinho plástico lacrado. Para não dizer que não lembro de mais nada sobre ele, lembro de quando o queimamos em uma noite divert...
Agora, escrevendo, acabo de me lembrar sobre toda a história do charuto, e para ser honesto com ela e coerente com este não-texto, o encerro por aqui; de certa forma, sorrindo, pois me lembrei de toda a história sobre o charuto.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Estacionado o mergulho sem porta.


Estacionei o olhar no objeto de construções humanas mais longínquo que meu olhar alcançava. Entre o meu posto de observação e aquele par de prédios em vermelho e branco, alguns bons quilômetros de ruas, calçadas, avenidas e vielas; uma igreja branca e pontuda, centenas de casas (desisti de contar quando cheguei ao número 82 e ainda faltavam muitas mais), outros tantos prédios (29 torres), uma região arborizada e dois viadutos - e, com certeza, mais um monte de coisas que meu olhar e minha imaginação não permitiram alcançar.
Estacionado em uma cadeira ou banquinho, não sei como classificar tal objeto em que estive sentado durante bons minutos, mas que, independente do nome, não é muito confortável, me detive na vontade convidativa de dar um mergulho por estas bandas. Eu sei, não tem água, talvez este fato impeça o uso correto da palavra 'mergulho', mas a sensação de convite (quase como vontade) foi a de mergulhar na direção dos prédios em vermelho e branco (não que eu adore prédios ou essa combinação de cores, foi só vontade de chegar lá nadando).
Não tinha porta no banheiro, e ora estive sozinho, ora acompanhado. E em nenhum dos momentos me senti intimidado ou coisa do gênero, a ponto de me fazer parar ou mudar qualquer realização - de qualquer gênero - que eu estivesse prestes a realizar ou realizando ou experimentando. Simplesmente não havia porta ali, e simplesmente havia em mim a vontade de fechar todas as portas sensoriais, sensitivas e existenciais; "em pleno banheiro?", "rapaz, a vida é minha, eu abro e fecho as portas que eu quiser, onde eu quiser". 
"Disso tudo, algo bastou? Algo prestou? Algo realmente construtivo ficou?", ouvi alguém me perguntando no apartamento vazio entre os gritos da música. "Não sei, talvez não tivesse que ficar nada, a moral desse papo todo é essa, eu acho, acho mesmo, que só dei uma estacionada na vontade de mergulhar após passar um tempo em um banheiro sem porta".





terça-feira, 19 de agosto de 2014

Na ex-trada.



A cabeça chacoalhava levemente, apoiada entre o encosto do banco de trás do carro e o vidro fechado. A posição não era das mais confortáveis, e até que combinava com o mergulho totalmente desconfortável das sensações e pensamentos recentes. Quando abria os olhos era surpreendido pela estrada à minha frente, sempre tão retilínea - mesmo após tantos anos passando frequentemente por lá, eu ainda me surpreendo.
Havia certo enjoo em mim. Ou, penso, seria mais correto pluralizar esta frase, sem medo de exageros: havia uma dezena de enjoos em mim naquela tarde.
A sensação de que a UTI fracassara (por fracasso próprio meu); de que os fins e as carnificinas se matavam em risos ao me verem como carniça disso tudo; de que coloquei toda a tinta disponível e, mais uma vez (com requintes de nazistices) destruía pinturas em potencial; etc. 
E assim percorri sentado, abraçado à mochila, aqueles últimos quilômetros. 
A cabeça pulsava em dores, os olhos fechados se reviravam por dentro, a ânsia chegava ao seu pico máximo (exigindo sem externalizada). O barulho recomeçou, mas não durou muito, e nem representou grande êxtase. 
No fim do dia, antes de voltar pra estrada, ainda balbuciei ao pé dum velho ouvido: "acho que a diferença entre 'agir como um idiota' e 'ser um idiota' está na recorrência das práticas". Fui respondido com uma fala à lá 'deixe disso', de que sempre há tempo para se repensar, se refazer.
E tive pique ainda pra fazer alguma piada ruim (em geral, sempre tenho pique para fazê-las, mesmo que não ria depois): "em vez de pegar uma ex-trada, que é coisa do passado, vamos para casa por um atual-trada", eu falei, antes de seguir calado observando as poucas luzes que passavam na pista do sentido oposto.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Duro como pedra.


As coisas sempre acabam virando piada, sobretudo quando você é assim, beirando a tosqueiragem da falta total de qualquer seriedade ou aparente desejo de seriedade mínima, como me penso. Às vezes ocorrem lapsos de tentar ser verdadeiro de um modo mais próximo ao conceito correto de ser sério, nas definições corriqueiras para a nossa educação ocidental burguesa metida ora à britânica, ora à francesa, ora à paulistana (no meu caso), ora à brasileirinha, ora ao Vai Corintia. Ops, escorreguei, e não fui sério novamente. Às vezes eu fico feliz com meu jeito de agir, às vezes não. Às vezes olho o que fiz e penso: "fui correto comigo e sério com os demais, foda-se a opinião ocidental, me acho certo comigo mesmo e estou legal aqui pra dormir". Às vezes penso no que fiz e olho: "merda merda, foda-me, mate-me, estou podre, estou quebrado, fui duro como pedra e, como pedra atirada, quebrei janelas, remendem, me tragam remendos, eu remendo este vidro", mas não tem jeito, tolo. Às vezes penso em tantas coisas (como diz uma canção do meu pai "as coisas já fazem dez anos") e já faz uma década que patino entre pataquadas mil. Às vezes eu sou duro como pedra, às vezes sou poroso como esponja. Às vezes (e isso é tão comum que dói) eu penso que destruí coisas e pessoas e janelas e situações tão bacanas e semi-perfeitas que não eram dignas desse tipo de ação. Se eu fosse cristão acreditaria em perdão, mas não; só quero parar de oscilar entre a pedra e a esponja.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Quem é o bem sucedido aqui?


Breve relato de José Gomes Neto - XXIV:

"Estou sem emprego, hoje são completos 54 dias da assinatura da demissão. Faz 7 que o dinheiro do FGTS caiu, e suponho que sobreviverei dele pelos próximos três meses. Espero arrumar outro emprego até lá. Por enquanto tenho me preocupado em sair, e depois eu volto e vejo o que acontece. Num dia de semana qualquer, por volta do meio dia, eu estava sentado em um banco de vagão de trem, voltava pra casa após passar a noite na casa de uma pessoa que havia conhecido horas antes, em um bar. Passamos a noite juntos. Meu cabelo estava oleoso, as roupas amassadas, a cara semi inchada e fazia 24 horas que não escovava os dentes. Um rapaz de terno entrou no vagão, me olhou nos olhos e veio até mim: "José? Quanto tempo!". Começou a me perguntar da vida e a contar da sua própria. Havíamos estudado juntos há uns dez anos. Se explicou que precisou usar o trem aquele dia pois sua esposa estava com o carro para levar o filho não sei onde ("fazia anos que não pegava metrô, ou trem, não sei a diferença", ele disse). Também reclamou da gravata, que o apertava, "mas tenho que usar". Quando desceu, antes que eu, me desejou sorte na vida e, sarcástico-positivo, disse que um dia eu alcançaria o sucesso, como ele. Tenho trinta e um anos, não possuo uma gravata me enforcando, passei uma quarta feira inteira bebendo e fazendo sexo com um recém conhecido: "quem é bem sucedido aqui?", pensei ao vê-lo subindo a escada da estação, berrando com alguém ao celular".

José Gomes Neto,
09 de Abril de 2012,
Sucesso e insucesso.



sábado, 9 de agosto de 2014

Tem uma dezena de pás na minha cabeça.


Não sou tão pinta estranha assim, e nem tenho esse ar de roqueirinho de ontem ou de hoje, estou, é verdade, com uma touca de trancinha e vim sozinho pro rolê, pra ficar apoiado no balcão do bar sozinho tomando a unica cerveja que tomarei na noite (por que não tenho dinheiro) e vendo as bandas calado só batendo o pé no chão mesmo sem comentar nada com ninguém por que eu vim sozinho e sem dinheiro pra fazer só isso mesmo.
Caralho, que espancamento foi esse? Achei interessante quando começou a espancar e parecia que eram pás vindo de todo lugar e a situação se tornou espácamento direto por dezenas de lados e por dezenas de espápápápá - acho que eram as guitarras entrando pelos ouvidos e passeando livremente pelo cérebro. Dentro dele, sem medo, as rochas mais duras da minha cabeça não temiam as pauladas das pás, visto que são rochas duríssimas, mas ficou a completa sensação de um derramamento de sangue por entre as pás perambulando na minha cabeça.
Na hora que começou o trombone, as outras guitarras, dezenas de efeitos e uma voz doce, foi como se as pás tivessem sido erguidas novamente pelos bravos operários (que descansavam após um grandioso almoço) e que se lembraram: "caramba, a gente tem que voltar a espancar o cérebro desse rapaz". Foi, que foi, que foi, que foi, que eu só consegui ficar sozinho, malemá batia o pé no chão seguindo o ritmo do bumbo, como era minha proposta.
Quando cheguei ao ponto de ônibus, voltei a ser só um barbudo com touca bege, mas a experiência sonora recente havia criado algum tipo de úlcera musical a percorrer perfurar e corroer o meu cérebro. 
E isso foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido naquela noite de sexta feira, oito de agosto, na Casa do Mancha, em São Paulo, com os shows do E a terra nunca me pareceu tão distante e o Lisabi.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Concentrando os pés nos pedais.


Ouvi um ruído, que de longe reconheci. De longe temporalmente em minha memória, e não espacialmente; espacialmente ele foi ouvido exatamente bem ao meu lado. Era o som de uma correia metálica, rolando entre coroas redondas de metal e fazendo duas rodas e um quadro de alumínio se moverem por cima de um jardim de pequenas pedras, as quais também soavam um ruído característico ao serem irrompidas pelos pneus. Se tratava de uma bicicleta.
"Alguém quer dar uma volta de bike?", falou a voz que eu conheci naquela noite mesmo, de simpatia ímpar. 
O convite soou messiânico, na hora o topei.
Aceitei o selim, o guidão, as marchas e os pedais, coloquei o meu corpo em interação plena com eles. E que delícia.
Há quanto tempo não pedalava sem rumo? Apenas pensando: "onde será que vai dar essa rua? O que será que há além daquelas árvores?".
Madrugada, ventos frios, blusão fechado até o pescoço, toquinha de lã atolada na cabeça até os olhos, e um eu repleto de energia. 
E-N-E-R-G-I-A. 
Pedalei por metros, talvez quilômetros, e não saberia precisar quanto tempo durou o exercício. Não conheço as ruas e avenidas por onde passei, o meu referencial era um posto de gasolina, uma farmácia, uma praça; ia e voltava, ia e voltava, e se me perdesse, haveria pernas e pés para me concentrar nos pedais e buscar outra rota.
Não conheço aquelas vias, não sei por onde passei ou quando voltarei. Mas, ah, como foi bom, como fez bem, pedalar contra o vento frio de uma madrugada enérgica em Campinas.