quarta-feira, 30 de julho de 2014

O espelho do banheiro.


Moro com meu pai.
E com a minha mãe.

Mas eles não moram juntos, como as frases acima, é um de cada lado, e eu um tempo em cada lado. Isso é provisório. Eu morar com eles, não eles morarem cada um de um lado. Cada casa tem um jeito, uma cor, um ar, um peso, um etc distinto da outra. Isso é curioso, mas esquisito. E não vem ao caso.

Meu pai colocou um espelho no banheiro próximo à sala (aquele que antigamente era chamado de 'lavabo'). Um grande espelho, diga-se de passagem. Ele é oval, tem uns 60 centímetros de altura por 30 de largura. Quando paro na frente dele vejo o reflexo de todo o meu tronco, da cintura até a cabeça, e acima da cabeça vejo o reflexo de grande parte da parede. Acho que ele está mal posicionado.
Estudo e trabalho na sala, com o computador em cima de uma mesa. Vou até a cozinha para fazer mais um café solúvel. Saio para fumar no quintal. Vou até a garagem esticar o corpo e observar a rua. Acesso o banheiro quando quero urinar.
E sempre que vou urinar, ao abrir a porta do banheiro, sempre fechada, pra que não entre fumaça do cigarro (que fumo no quintal) pela janela do banheiro e esta passe para a sala, dou de cara com a minha cara estampada/refletida/mal-esculpida no espelho do banheiro. Em geral, quando isso ocorre, e meus olhos se encontram com meus olhos, minha primeira reação é dar um grito e/ou um berro. 
Fico tão espantando em me ver, tão irreconhecível de dentro pra fora, tão chocado por ainda existir corpo além destes pensamentos débeis, que às vezes eu até me esqueço de urinar. E vou embora.



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