segunda-feira, 28 de julho de 2014

A campainha da memória.


Não raramente penso, com meu semblante mais desanimado, que vida é uma espécie de matéria vaga, intocável e imaterial que vivemos no embalo do ar que respiramos para nos mantermos neste "jogo da vida". Talvez as matérias que tocamos e os momentos que vivemos sejam meras ilustrações dos exercícios de respirar - pensa o meu semblante mais desanimado.

Precisei ir na rua em que cresci da infância para e por alguma adolescência buscar algo na casa de um amigo, que se tornou amigo neste tempo remoto dos finais da infância. Aliás, o que mensura o fim de um tempo e começo de outro nesta vaguidão toda? 
Subi a rua, como subia em todos os períodos de férias vividos naquela rua. A cada passo dado sobre o asfalto preto, me lembrava de tantos passos, corridas, pedaladas e tombos por ali levados. 
Subia a rua e passava por portões, que, ante o meu olhar, jamais serão portões de casas, e sempre serão gols em potencial, para as partidas de futebol de rua com os menino
Cheguei na casa do meu amigo, toquei a campainha e aquilo me emocionou. A casa é a mesma, embora as cores das paredes e do portão tenham mudado, aquelas matérias tão tocáveis (no caso da campainha, literalmente tocável) me fizeram retornar a um Gabriel de tantos anos atrás.
O pai dele saiu à garagem, trazendo em mãos o que me entregaria. Notei seus cabelos e barba já completamente brancos, e os tomei como sendo mais matéria significando vida vivida, passada, atual. 
Papeamos por alguns minutos, brinquei com ele: "só não estou me sentindo mais garoto por subir a rua e tocar a campainha aqui por que não tenho uma bola de futebol em mãos". Ele riu, nossos olhos marejaram, e falou apenas: "tempo bom...".

Desci a rua, pensando que aquela matéria toda ao meu redor (e ao meu centro também) eram vida em si, tocáveis na realidade concreta atual, e jamais tocáveis no campo das memórias. Aquilo tudo ao meu redor, portões, gols, casas, árvores, placas, postes são matéria quase viva, testemunhas não oculares de que essa vaguidão toda é repleta de coisas tão boas.
Por fim permiti que algumas lágrimas corressem pelo rosto até que eu chegasse à esquina: matéria líquida, salgada, nada vaga e significante de todo sentido e saudade que há por ali, entre aquela rua, este ser e outros tantos sujeitos e situações. Meu semblante até se des-desanimou um tanto para refletir sobre vida, matérias, ares, respiração.
Cheguei ao começo da rua, parei, a olhei, tirei uma foto, sequei as lágrimas e segui o rumo do Gabriel atual - curiosamente tropecei numa valeta antes de completar o primeiro passo adiante.


Ps: vida é um troço vago demais pra eu perder tempo azucrinando os outros, tem tantas materialidades e tocabilidades pra eu ficar me apegando em cretinice. Me desculpem, vou voltar a perambular mais pelas ruas para me reencontrar com minha humanidade.


Nenhum comentário: