quinta-feira, 31 de julho de 2014

Unidade de Terapia Intensiva.


Escrevo na madrugada de quinta para sexta. Publicarei na sexta mesmo, tudo bem. Mas, ah, a sexta possuí várias vertentes, talvez vetores, talvez possibilidades, talvez situações, talvez talvez seja o melhor a dizer. Hoje é sexta, volto segunda: "e ai Gabriel, vai curtir o final de semana?", não parça, vou largar uns monstros no amplificador da guitarra, uns demoninhos no microfone, vou viver boas pessoas que por ai eu conheci e que, uah, veja só, ainda se fazem por perto trazendo sorrisos, e vou conhecer outras tantas, uehn. Vou viver minha Unidade de Terapia Intensiva, com meu parceiro, meus brother e o que mais pintar de positivo no caminho. Saio já já, no começo da tarde, e volto segunda, após tocar em três oportunidades, assistir, no mínimo, outras oito ou nove apresentações musicais sensacionais e, neste meio tempo, reencontrar bons conhecidos, conhecer novos encontros, novos lugares etc. 
Até já!


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Às vezes você simplesmente não ri.


Quem me conhece, ou convive comigo, ou já conviveu, ou já passou alguns minutos perto de mim, ou me lê aqui ou coisa do gênero, conhece uma das minhas características favoritas de mim em mim mesmo: eu faço piada. Não importa se boa, se ruim, se com sentido, se sem sentido, o meu raciocínio todo se baseia em fazer piadas, sempre.
Lá em meados de 2010 a porca da minha cabeça deu uma torcida forte no rabo, parecia um nó cego (desafio para qualquer escoteiro), e eu precisei recorrer à psiquiatra, anti depressivo, essas coisas. Em momento algum parei de fazer piadas, só que, não foram raras as situações em que eu fazia as piadas, mas não ria. Os outros riam, e era legal assim.
Certa vez, em uma mesa de bar, um amigo veio encher meu copo com cerveja, eu estava na coca-cola, e falei a ele que não estava bebendo, ao ser questionado por que, falei que estava tomando um anti depressivo, que não podia misturar com bebida. Assustado, incrédulo, ele questionou: "mas cara, você é todo bom humor, todo cheio de fazer piadas, como que um cara como você precisa tomar antidepressivo?".
A resposta é simples, às vezes você não ri. Às vezes, simplesmente, você não quer rir, embora faça os outros o fazerem.

Não é exagero, não é comoção momentânea lhes dizer que o 'Hermes & Renato' foi importantíssimo para essa formação do meu caráter e cotidianos ironicamente metido às graças e piadas. Também não é exagero dizer que fiquei muito chateado com a notícia da morte de Fausto Fanti (pelas primeiras notícias que leio, um suicídio por sufocamento utilizando um cinto).
É pesado pensar que o cara em quem me espelhei durante o fim da infância e toda adolescência (alcançando até este esboço de adultescência) para olhar o mundo com mais sarro tenha encerrado sua trajetória desta maneira. 
No entanto, às vezes você simplesmente não ri.



O espelho do banheiro.


Moro com meu pai.
E com a minha mãe.

Mas eles não moram juntos, como as frases acima, é um de cada lado, e eu um tempo em cada lado. Isso é provisório. Eu morar com eles, não eles morarem cada um de um lado. Cada casa tem um jeito, uma cor, um ar, um peso, um etc distinto da outra. Isso é curioso, mas esquisito. E não vem ao caso.

Meu pai colocou um espelho no banheiro próximo à sala (aquele que antigamente era chamado de 'lavabo'). Um grande espelho, diga-se de passagem. Ele é oval, tem uns 60 centímetros de altura por 30 de largura. Quando paro na frente dele vejo o reflexo de todo o meu tronco, da cintura até a cabeça, e acima da cabeça vejo o reflexo de grande parte da parede. Acho que ele está mal posicionado.
Estudo e trabalho na sala, com o computador em cima de uma mesa. Vou até a cozinha para fazer mais um café solúvel. Saio para fumar no quintal. Vou até a garagem esticar o corpo e observar a rua. Acesso o banheiro quando quero urinar.
E sempre que vou urinar, ao abrir a porta do banheiro, sempre fechada, pra que não entre fumaça do cigarro (que fumo no quintal) pela janela do banheiro e esta passe para a sala, dou de cara com a minha cara estampada/refletida/mal-esculpida no espelho do banheiro. Em geral, quando isso ocorre, e meus olhos se encontram com meus olhos, minha primeira reação é dar um grito e/ou um berro. 
Fico tão espantando em me ver, tão irreconhecível de dentro pra fora, tão chocado por ainda existir corpo além destes pensamentos débeis, que às vezes eu até me esqueço de urinar. E vou embora.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

A campainha da memória.


Não raramente penso, com meu semblante mais desanimado, que vida é uma espécie de matéria vaga, intocável e imaterial que vivemos no embalo do ar que respiramos para nos mantermos neste "jogo da vida". Talvez as matérias que tocamos e os momentos que vivemos sejam meras ilustrações dos exercícios de respirar - pensa o meu semblante mais desanimado.

Precisei ir na rua em que cresci da infância para e por alguma adolescência buscar algo na casa de um amigo, que se tornou amigo neste tempo remoto dos finais da infância. Aliás, o que mensura o fim de um tempo e começo de outro nesta vaguidão toda? 
Subi a rua, como subia em todos os períodos de férias vividos naquela rua. A cada passo dado sobre o asfalto preto, me lembrava de tantos passos, corridas, pedaladas e tombos por ali levados. 
Subia a rua e passava por portões, que, ante o meu olhar, jamais serão portões de casas, e sempre serão gols em potencial, para as partidas de futebol de rua com os menino
Cheguei na casa do meu amigo, toquei a campainha e aquilo me emocionou. A casa é a mesma, embora as cores das paredes e do portão tenham mudado, aquelas matérias tão tocáveis (no caso da campainha, literalmente tocável) me fizeram retornar a um Gabriel de tantos anos atrás.
O pai dele saiu à garagem, trazendo em mãos o que me entregaria. Notei seus cabelos e barba já completamente brancos, e os tomei como sendo mais matéria significando vida vivida, passada, atual. 
Papeamos por alguns minutos, brinquei com ele: "só não estou me sentindo mais garoto por subir a rua e tocar a campainha aqui por que não tenho uma bola de futebol em mãos". Ele riu, nossos olhos marejaram, e falou apenas: "tempo bom...".

Desci a rua, pensando que aquela matéria toda ao meu redor (e ao meu centro também) eram vida em si, tocáveis na realidade concreta atual, e jamais tocáveis no campo das memórias. Aquilo tudo ao meu redor, portões, gols, casas, árvores, placas, postes são matéria quase viva, testemunhas não oculares de que essa vaguidão toda é repleta de coisas tão boas.
Por fim permiti que algumas lágrimas corressem pelo rosto até que eu chegasse à esquina: matéria líquida, salgada, nada vaga e significante de todo sentido e saudade que há por ali, entre aquela rua, este ser e outros tantos sujeitos e situações. Meu semblante até se des-desanimou um tanto para refletir sobre vida, matérias, ares, respiração.
Cheguei ao começo da rua, parei, a olhei, tirei uma foto, sequei as lágrimas e segui o rumo do Gabriel atual - curiosamente tropecei numa valeta antes de completar o primeiro passo adiante.


Ps: vida é um troço vago demais pra eu perder tempo azucrinando os outros, tem tantas materialidades e tocabilidades pra eu ficar me apegando em cretinice. Me desculpem, vou voltar a perambular mais pelas ruas para me reencontrar com minha humanidade.


Adjetivos cambiáveis.


Breve relato de José Gomes Neto - XXV:

"Não eram raras as situações em que o carinho no rosto era seguido de algum afago verbal, que remetia à beleza, simpatia, gostares e positividades em geral entre nós. Não raras também eram as situações em que todas essas qualidades, verdadeiros adjetivos concretos, foram experimentados em conjunto na prática d'algumas vivências. Experiência não é adjetivo, mas conduz às adjetivações mais precisas, acredito. Saberia nomear e datar quando começaram as negatividades, e o carinho não mais chegou a pele do rosto, e 'lindinho', 'talentoso' e 'paixão' se tornaram 'egoísta', 'exibido' e 'falastrão'. E pensar que não fui o primeiro a sofrer este cambiamento de adjetivos".

José Gomes Neto,
3 de Julho de 2012,
Falastrão, Exibido e Egoísta.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Propensão ao drama.


Breve relato de José Gomes Neto - XXIII:


"Certa vez almoçávamos na casa de um amigo, éramos já adolescentes, saímos da escola e fomos para lá, pois tínhamos um trabalho de história por realizar. O pai do rapaz que cedera a casa preparou um grande almoço para nós, eram vegetarianos e havia muita salada: grão de bico, beterraba, cenoura, folhas diversas, broto de feijão, tomate, pepino. Dado momento, quando comíamos já a sobremesa, notei que a gengiva de um dos garotos estava com um tom avermelhado, para além do comum, e falei espantado para ele "cara, sua gengiva está sangrando, vai lá no banheiro ver". Ele foi, voltou e disse: "não era sangue não, era só um pouco de beterraba". Eu sempre fui propenso ao drama".

José Gomes Neto,
08 de Outubro de 2010,
Propenso ao Drama.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Distração reversa.


Sou distraído, não tenho foco e minha capacidade de concentração oscila mais do que teco-teco voando na região do triângulo das bermudas. Isso deve fazer uns vinte e cinco anos, e ultimamente tenho vivenciado um fenômeno fantástico: a distração reversa.
Não se trata de ter vencido a capacidade de distração e me tornado umser  concentrado, pelo contrário, se tornou, sim, a capacidade de não conseguir me distrair tanto assim como costuma ser. E, não, isso não representa nenhum tipo de avanço ou melhora.
Saio, subo em ônibus, converso com motorista, passo pro metrô, conto as estações daqui até ali, conto o número de vidros quadrados e o número de vidros retangulares, tento decorar o texto dos anúncios publicitários. Dou umas voltas, vou em shows, converso com pessoas conhecidas, conheço pessoas com quem converso, papeio com os amigos imaginários de tantos anos. Enfim dou uns piões por ai.
E nada de distração. 
Minha capacidade de me distrair, de abstrair, de fugir e viajar em círculos coloridos feitos em teares de pregos enferrujados e pendurados em janelas ensolaradas da minha mente enquanto a vida corre ao meu redor e os problemas fogem como a palha da casa dos porquinhos ao ser soprada pelo lobo ruim, parece que se foi. Sumiu. Já era.
Desligar não é mais tão fácil ou rápido ou comum ou acidental ou incidental assim. E ai, por fim, eu sinto como se sempre estivesse e nunca estivesse, ao mesmo tempo, concentrado e focado, distraído e subtraído, somado e sumido. 



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Isso não existe.


Em um repertório inimaginável de palavras absurdas, como que enchendo uma piscina em tempos de seca, pinço escolhas infelizes para tecer situações absurdas que não me dizem o menor respeito. Falto com respeito, inclusive. Nado em braçadas arrojadas, com ares de convicção de que há plenitude e verdade no que digo. O nariz chega até a tocar o monitor a minha frente. Respiro contando até 10, às vezes fraquejo, a contagem vai até 3, até 6 ou até 5, e quando percebo já pincei outro absurdo, construí outra situação e, aparentemente cheio de certeza, dei outra braçada na piscina dos absurdos ditos. Isso não existe, e eu só quero parar. Na impossibilidade de desfazer o que foi situação dita mal quistamente, na impossibilidade de atingir o retorno do tempo ou das braçadas ou dos desrespeitos (eu já entrei no espaço de seca das suas considerações, e tens razão), desejo apenas me apoiar na borda piscina, e sair desta água suja sem tremer muito com o vento frio, soprado em seus ouvidos através de um repertório inimaginável de palavras absurdas.
Isso não existe.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pela Cidade - 3/3.



Quando você dá o repique no barbante do pião, meio pra trás, meio prum lado, meio pra frente, e o solta estralando no asfalto em movimentos circulares velozes, ali é tudo muito louco. Tem as luzes da cidade, tem o barulho dos carros, o zum zum zum dos demais humanos, cachorro gente boa que te pede um afago e, se bobear, até cola um poeta junto pra lançar umas verdades fantasiosas. Não tem mistério, e a mão experiente enrola o barbante no pião, e repete o movimento quantas vezes se quiser, adicionando rotações e elementos mais ao pião, ao barbante, ao asfalto duro. Variações de ruas, mãos e barbantes são bem vindas e até essenciais para que o ato se dê como repetição e perdure mais algumas meias horas. Até que, seja lá por que, o pião tem que voltar pra prateleira, tem de ser repousado, enfim, tem de voltar à situação anterior ao atrito ágil com qualquer asfalto ou barbante ou não. É nesse instante, que todo inferno volta a rodear o peão.




Pela cidade - 2/3.


Essa é minha vida agora,
e,
é,
pode ser legal.

Essa é minha vida agora,
e,
é,
há mil grau.

Essa é minha vida agora,
e,
é,
 sei por onde ser boa.

Essa é minha vida ágora,
e,
 é, 
de fato tem como ser legal.

Essa é minha vida agora, 
e,
é,
 passa a régua babaca.

Aceita colher o que plantou,
Segue em frente,
Não reclama.

E,
É.

Dá sinal pro ônibus,
Ele é circular,
Sem ponto final tão já.







segunda-feira, 14 de julho de 2014

Pela cidade - 1/3.


A cidade é feita de lugares físicos, puramente? Ou de lugares físicos que são feitos por e pelas pessoas que neles passam e vivem e os interpretam? Uma praça, é só uma praça, ou entre aqueles que por ela passam pode ser diversas praças? Diversas e distintas e tão amplas imagens e lembranças de uma praça onde tantas coisas foram vividas? Cada pessoa em um lugar, num cantinho qualquer da cidade, é pessoa e cidade e lugares e memórias (troca completa) sendo feitos. Pessoalmente acho isso um saco, pessoalmente mesmo, pois estou dizendo 'pra mim', um ser vivente na cidade e de memória tão ágil e eficaz quanto à anedota do elefante. Pois a verdade é que tem lugar, pelas recorrências da vida, que me lembram tanta coisa, tanta gente, tanta vida que passou mas que parece outra vida ou outra coisa ou outra pessoa, mas nunca outro lugar, que eu simplesmente tenho vontade de parar de por lá passar, só pra parar de lembrar e as memórias acionar e misturar.




sexta-feira, 11 de julho de 2014

(S)em ordem.


Fumando uma coca cola,
Tomando um chiclete,
Mascando um cigarro,
Tudo (s)em ordem.



quarta-feira, 9 de julho de 2014

O cara com a garrafa d'água.


Eu sou só um cara com uma garrafa d'água,
Caminhando pela Moóca com minhas chateações,
Não tenho paz alguma dentro do meu coração,
Nem trago no meu corpo nenhum foco de tesão.

Moóca, Freguesia, Saúde, Jardim Japão,
Moro em São Paulo respiro essa sensação,
De tamanha crise que em tudo há reclamação,
Ande sempre a frente, e olhando só pro chão.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Uou Disney sua conta não fechará!



Numa certa tarde tive uma conversa sensacional com uma pessoa admirável, mais velha e mais experiente com o passo-a-passo dos anos do que eu e, devo ressaltar, se trata de alguém que olho com certo prestígio. 
Dentre as dezenas de assuntos que perpassaram a conversa, que durou pra lá de uma hora, um dos pontos bateu como flechada no olhar daquele que vem sendo um dos meus questionamentos principais nesses dias recentes: que porra é vida pra mim? Que que eu quero da vida? Por que não posso 'perder tempo'? E a que devo 'dedicar vida'?
Ter um trabalho cotidiano que cansa para poder ter dinheiro para fazer coisas esporádicas que descansam? Essa conta não fecha!
Um pouco mais tarde, outro papo interessante, igualmente instigante e, em grande medida, influenciado pelo primeiro. Tocamos em outro ponto, também relevante quando penso essa vida que levo/levamos: o conforto. Precisamos de qual conforto? O que é conforto na vida de cada um? Quais dedicações devo ter para poder pagar o conforto que quero para mim?
Ter um trabalho cotidiano e desconfortável para poder ter dinheiro para coisas e situações esporádicas que trazem algum conforto? Essa conta está errada!

A noite caiu, eu já havia tomado meu chá noturno pré-sonum, mas ainda havia tempo e espaço para mais algum diálogo, caindo como uma luva e quase que "costurando" todo um dia repleto de conversas. 
Falando sobre chineladas dadas na própria cara, perspectivas vitais e sentimentos de realização (praticamente um sopão sobre a vida) houve uma citação de um dos clássicos (ou semi clássicos) do Uou Disney. Confesso, não gosto muito dos filmes desses caras não, quando criança eu chorava com alguns deles, e hoje em dia os critico: em geral está tudo certo ai acontece alguma coisa extremamente negativa que quebra com toda a normalidade e felicidade da vida da personagem principal, que durante toda a película é exposta de modo a criar identidade entre criança, que assiste o filme, e ela, personagem. 
A mensagem, é clara: "sua vida será daora, até que você vai apanhar, talvez mais, talvez menos, mas depois vai ser legal de novo, talvez não da mesma forma, talvez não com a mesma intensidade,mas relaxe o biscoito e se contente com as migalhas, a vida é assim".
Me parece, muitas vezes, que são filmes criados pra amaciar a carne, pra fazer as crianças (que amanhã serão jovens, e em diante adultos) que não tem drama você ter um trabalho cotidiano que te cansa, um patrão que te arregaça e um salário de desgraça se você puder ter um mês de férias (com uma viagem de sete dias neste período) todo ano. 
Ou então, olhando de outro forma, são modos de dizer que faz sentido uma vida em que metade do tempo é desconforto e cansaço, outro um quarto desse tempo é sono-dormido pra recuperar energias corporais gastas com o trabalho (oi Marx) e o restante pode ser conforto, lazer, diversão (ou algo próximo disso).
Essa conta, realmente, não faz sentido. E, nas minhas buscas cotidianas, jamais fechará!
Uou Disney, seu vacilão, não passará!




domingo, 6 de julho de 2014

domingos e DomingoS.


Acordei, rolei uns quinze minutos, desliguei o despertador do celular (não sei por qual motivo planejei despertador prum domingo), vi nele as notificações da madrugada e começo da manhã, rolei mais cinco minutos, calcei meus chinelos, abri a porta do quarto, entrei no banheiro, urinei, lavei o rosto, escovei os dentes, sai do banheiro, fui à cozinha, tomei o remédio para o estômago, voltei pro quarto, tornei a deitar, "apaga a luz do sol", resmunguei pro cobertor.
Um som estridente e débil acompanhou o requentar de um pão por desjejum.




Acordava, me certificava de que estava vivo, de que estava viva, via as horas ("droga, o mercado já fechou"), sentia o corpo, tinha dor de cabeça e/ou sede e/ou fome e/ou enjoo e/ou outras dores, abraçava, rolava, levantava, tropeçava nas roupas, a porta estava aberta, ia pro banheiro, urinava, lavava o rosto, escovava os dentes, voltava pro quarto, desabava, abraçava, rolava mais, levantava, sorria, "não importa sol", bradava aos cantos daquele quarto-testemunha.
Um sonzinho calmo e tranquilo acompanhava a elaboração de qualquer almoço.





sábado, 5 de julho de 2014

A hora de parar com a tinta.


Quando era jovem, lá por volta dos meus doze ou treze anos, comecei a ter algum interesse pelas práticas artísticas. Primeiro  as musicais, então coisas escritas, depois a fotografia, e, lá pelos dezesseis, comecei a pintar. 
Tive sempre, e isso tem de ser ressaltado, a influência e o incentivo de vários professores e professoras: primeiramente meu pai e minha mãe, em casa; Luana e Jorge, com as aulas de redação; Jair, Rita e Terezinha, com as aulas de artes.
Numa aula de artes com o professor Jair, já nos idos dos meus dezesseis anos, em 2005, eu pintava uma grande folha de papel paraná (um papel mais duro) criando várias "massas de cor" com listrinhas coloridas. Misturava cores para criar, de fato, várias "massas" e cores e blocos coloridos.
Certo momento, Jair passou por mim e falou algo como: "Gabriel, já deu hein? Você misturou tanta tinta que chegou nesse cinza tenebroso ai".
Parei, olhei. Descansei o pincel. E concordei. 
A verdade é que eu não queria parar de pintar, não queria parar de experimentar as cores sobre aquela superfície branca, muito embora estivesse vendo e tendo plena noção de que já havia passado da hora de parar. Muitos dos quadros que pintei nessa época foram estragados pelo terrível hábito de, simplesmente, não querer parar de pintar.
E esta é apenas mais uma situação recuperada pela minha memória em que paro e penso: "será que não aprenderei nunca que chega a hora de parar com a tinta?"



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Paulada.


E a vontade mais digna sinceramente de apertar os cadarços dos tênis e tomar a bússola em mãos e o Forrest Gump em inspiração e sair puramente correndo adoidado sem rumo mas com caminho bem traçado e o vento na barba?
Um não beijo completamente Augé sem lugar digitado insosso  num fim de noite xis sem vírgulas pra espantar a sensação de sufocar pesado por não dizer que se pudesse ia correndo só pra não ter que digitar e poder em suma falar e o beijo suave trocar?
Pá! Que bela paulada nas idéias.


Perdendo Ônibus.


Considerações preliminares:
1) no título, "ônibus" está no plural.
2) em São Paulo se pode pagar o uso de transporte público com um cartão chamado "bilhete único": você coloca créditos nele e o valida nas catracas de ônibus, metrô, trem. O bilhete único permite que você pegue, por exemplo, quatro ônibus em um período de duas horas, pagando apenas uma passagem.

Com este advento do bilhete único, mantenho o hábito de, sempre que estou em um ônibus, ficar espiando os ônibus que vem atrás, caso veja um que faça um caminho que julgo melhor do que aquele em que estou, desço no ponto seguinte e embarco naquele que vem atrás.
Infelizmente não é sempre que isso dá certo.
Certa vez, bem acompanhado, sugeri que descêssemos do ônibus em que estávamos para subir no que vinha atrás e, tão logo pisamos na calçada, este passou - rápido como um raio - avenida em diante, sem parar no ponto que, até o nosso desembarque, estava vazio.
O que era para adiantar a viagem, acabou por nos atrasar mais ainda.
Minha companhia comentou: "Gabriel, você tem que ter um foco nos seus caminhos, se você está em um ônibus, e escolheu fazer um caminho, não adianta ficar trocando no meio do caminho que pode dar errado, igual deu agora".
Talvez esta seja a melhor metáfora pra forma como venho encarando a minha vida em São Paulo, planejada como caminho seguro, mas negada em palavras ríspidas - sempre com os olhos voltados pralgum outro ônibus, que pode passar em alguma região com menos trânsito, ou fazer algum caminho mais curto. 



terça-feira, 1 de julho de 2014

Enigmas sem entendimentos.


[ou: "projeções enigmáticas a partir de cenas bonitas na cabeça de um cara com problemas pra entender"].

Sentado em qualquer cadeira da cozinha, ou mesmo no conforto de qualquer um dos confortáveis sofás da sala, eu gostava de observar. Observar e ouvir. A voz fininha, o fino trato e os gracejos com que lidava com aquele ser humano em expansão. Anotações no papel da geladeira, risos convidativos a se dizer as verdades. Até as frases impetuosas iniciadas com "não" possuíam certa calma, e conduziam mais ao questionamento de uma solução do que à arbitrariedade de uma imposição. De dentro do carro observei também o fino trato para arrumar detalhes finais, para que cabelos estivessem arrumados para a festinha. Toda busca era repleta de perguntas instigantes, querendo saber do que havia gostado, do que havia não gostado. Todo contato era repleto de carinho. E eu via nisso tudo, uma ser humana tão altiva e sorridente, feliz e bacana. Penso, quando ainda me lembro: como não lembrar e pensar e, ah?



A ver balões.


Breve relato de José Gomes Neto - XXII:


"Era criança e gostava muito das festinhas de aniversário: gincanas, brincadeiras, às vezes buffets, bexigões, brigadeiros. Certa vez, na festa de um colega de escola, comecei a brincar com um menino que, depois me informaram, era primo de segundo grau deste colega. Era boa gente e divertido. Quando chegou na hora das gincanas, um casal de animadores pediu que todas as crianças formassem duplas, e eu me enduplei com este menino. Uma das brincadeiras da gincana (que renderia um prêmio a dupla vencedora) era o de enchermos uma bexiga juntos: um assoprava um pouco, segurava a ponta e passava pro outro. A dupla que conseguisse primeiro estourar o balão o soprando desta forma alternada, ganharia esta brincadeira. Estávamos ambos aparentemente empolgados, eu e o menino. Soprávamos com força e podíamos ganhar, nosso balão estava já tão cheio! Dei uma soprada com toda minha força e passei o balão para ele, mas ele não o segurou com vontade, e o deixou, intencionalmente, murchar. Lembro que olhei desanimado para ele, que apenas me falou "cansei dessa brincadeira, mas pode ficar com o balão". Virou as costas, fiquei olhando aquele balão murcho na minha mão e pensando: "que faço com esse balão frouxo que não enchi sozinho?". Ele foi brincar com outras crianças, sorridente e límpido, eu fui roubar um brigadeiro".

José Gomes Neto,
03 de Novembro de 2005,
A ver Balões.