domingo, 29 de junho de 2014

Eu tinha um corte de cabelo.


Às vezes paro e penso, que eu tinha um corte de cabelo, que eu tinha uma barba descolada e que eu me via e vivia legal com tudo aquilo na cara. Tinha também um sofá ralado, uma porta com problema no batente (que quando chovia, a casa alagava) e tinha também problema na porta da cozinha, que não fechava inteira. Quando estou parado e pensando eu lembro de tantas noites que passei por lá parado e pensando largado no sofá encarando uma das portas, às vezes choroso, às vezes sorridente à rodo. Lembro também de outros tantos períodos e momentos em que não havia como parar, e o pensamento era substituído pelo mais nobre dos sentidos dos devaneios de arrebento e insanidade. Como não parar e lembrar do chuveiro que plác, e eu tinha que sair todo molhado no vento gelado religar a chave de luz pracabar de tirar a espuma da cabeça. Tinha também um problema na janela do quarto, com um vidro quebrado, que nunca foi consertado, mas isso nunca me deixou incomodado. E o fogão de sujeira incrustada, a louça toda empilhada, roupa suja toda largada. Quando aparecia barata, credo. Mas tinha também uma sala toda paramentada, completamente decorada, dezenas e dezenas de fragmentos de mim em todos os cantos. E arvore de natal plantada na sala em pleno outubro. E quando eu saía cedo antes do sol nascer e caminhava com pressa e medo de não chegar, mas andava com passos firmes, e ficava na dúvida se havia trancado os portões. Ou nos dias que errei dois minutos e tive que correr e mesmo assim perdi o ônibus e os primeiros minutos de utilidade do dia. Até nesses dias eu tinha um corte de cabelo.


Um comentário:

Anônimo disse...

Olá meu querido, tudo bem?
Parece que não né?
De novo derrotado?
Mais sorte da próxima vez!