quinta-feira, 5 de junho de 2014

Desordem, Regresso, Retrocesso.


Não vim falar de Copa do Mundo não. Pode ficar tranquilo.

Quando eu era jovem, e isso já faz mais de dez anos, eu e uns garotos da escola montamos uma banda, e começamos a fazer umas músicas. Um menino me mostrou (e gravou numa fita k7) três músicas que ele fez na guitarra, eu escrevi umas letras e numa tarde, no apartamento do menino que tocava bateria, tocamos tudo junto, chamando outro que tocava guitarra pra colocar suas notas na música. Era minha primeira experiência de "fazer música coletivamente".
Um tempo depois, já havíamos tocado na escola duas ou três vezes, fizemos uma música baseada em alguma coisa do Pink Floyd (que eles curtiam) e eu fiz uma letra intitulada "desordem e regresso", que era uma espécie de crítica a alguma coisa - ou a coisa toda, ou a coisa nenhuma - veja bem, tinha catorze anos, era um aluno que batia cartão nas recuperações e não tinha quase nenhum fundamento pra isso, fazer críticas.
Lembro que quando a tocamos pela primeira vez publicamente, numa festa num salão de prédio altamente burguês, um rapaz, que havia nos visto tocar na escola, brincou que estávamos "progredindo".

Ano passado eu botei um foco na cabeça: trabalhar pra pagar as contas (e ter algum lazer, algum prazer) e estudar para ser aprovado para estudar mais ainda. Lá em meados de Junho (ou seja, completa-se um ano esta escolha) decidi que minha prioridade seria "voltar" para São Paulo, para estudar por aqui, vocês sabem onde.
Enfiei isso na cabeça, passei Julho mergulhado em estudos, entrei Agosto rasgando em provas, escrita e re-escrita de projeto, Setembro marcado pela decisiva entrevista. Todo esse tempo repleto de muito trabalho (entre Agosto e Setembro minha carga horária era de 30 aulas por semana), e, envolto em paixão, no comecinho de Outubro saiu o resultado: eu havia conseguido, havia conquistado o meu objetivo!
Fizemos festa, quanta festa - talvez a planta dos meus pés ainda doa, de tanto que festejei/amos. Como eu disse à época, era, na verdade, a abertura da temporada oficial de festejos por esta breve e suada conquista. 
Entrei no processo de mudança, de reorganização da vida, isso fazia parte dos festejos. Assim como ouvir de muita gente bacana que eu estava 'crescendo na vida', que isto seria 'um progresso pra mim', e também que 'enfim, está colocando sua vida em ordem'. 
E eu anotei todas essas frases no meu caderninho vermelho, que na época vivia nos meus bolsos, o consultei pra escrever isso.
Oito meses se passaram, e após esta gestação prematura, penso que o que tenho em mãos é o contrário de "crescimento" "ordem" ou "progresso" na vida - palavras que grifei acima. Talvez isso tudo que me traz a estas linhas seja sintetizável em uma só palavra: retrocesso.
Em todos os aspectos: olho o que troquei em nome de algum 'progresso', algum 'crescimento' (eu não acreditei nisso, lia a situação de outra forma, me valho das palavras de felicitações) e sinto como se houvesse retrocedido. De A a Z, de ônibus à ônibus, e até de ambientes cotidianos a ambientes cotidianos. Talvez, ter acreditado numa lógica de 'auto crescimento' e de 'aproveitamento mental' tenha sido como pensar com a cabeça daquele garoto, que quase sem nenhum fundamento, brincava com as palavras da bandeira do Brasil em busca de alguma crítica.

[Foto tirada em 02 de Julho de 2010, em uma das alças de acesso da Rodovia Transbasiliana à Avenida João Ramalho, pouco mais de uma hora após a seleção brasileira perde por 2x1 para a holandesa e ser eliminada daquela Copa do Mundo. Mas eu não falei sobre Futebol].

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