terça-feira, 6 de maio de 2014

Toda semana eles "dançavam".


"Música, entre por todos os poros", ele pensava. Mandava tímpanos e martelos se lascarem, "aguentem o tranco", e aumentava o volume.
Decibéis a mais, débil jamais.
"Não enfraquece, não esmorece", e pôs-se a dançar, naquele ritmo tão frenético quanto a solidão e saudade que lhe batiam.
O rosto era iluminado pela luz amarelada que passava pelos poros da tela de proteção da porta do microondas, que esquentava a água pro café. A música alta não permitia ouvir o ruído chato, resultante do atrito entre sujeira encrustada no trilho redondo que faz o prato girar dentro deste mesmo eletrodoméstico e o vidro do prato.
Fechou os olhos e partiu: mexia braços e pernas de forma não muito ordenada, um pouco próximos do ritmo da música que ouvia, um pouco distante de qualquer coisa que pudesse ser chamada por "dança".
Talvez "movimentos corporais buscando acompanhar a música" fosse um termo mais correto. O importante era haver movimento, para lhe lembrar de outrora.
Um estrondo interrompe a música e o movimentar dos músculos do corpo inteiro, é o "pi, pi, pi" do microondas; a água já esquentou.
Abre os olhos, suspira antes de abrir a porta: "toda semana a gente "dançava"".



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