segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pontuação e passado.


Acho muito louco (com requintes de sensacionalidade) quando estou me valendo dos recursos aparentemente infinitos das memórias virtuais para procurar algo que me soa extremamente necessário para o momento presente e me deparo com outra coisa, nem tanto necessária para o momento.
[Estou com tão pouca vontade de usar pontuação nesta escrita que pensei em intitulá-la "divagação sem pontuação"; mas eu não consigo fugir dos pontos].
Eu estou lá, entre o skydrive de anos já batidos, o dropbox mais recente e um dvd de arquivos, que sequer me lembrava existir. A busca é por uma foto, ou por um texto. E de repente, como uma bomba, explode ante a vista uma pasta de arquivos, ou, mais nua e cruamente ainda, o próprio arquivo.
"Caramba, já faz tanto tempo assim?"; "essa época foi horrível, mas nem tanto, nossa esse dia foi bacana, teve pizza e tubaína".
MAS NÃO! Esse dia não foi bacana, essa época foi horrível! A foto da pizza era ratoeira afiada para a memória frágil e esfomeada! Foi tudo decrepito e eu havia prometido não lembrar nunca jamais de maneira alguma deste período com qualquer sensação passadinosa de "[suspiro] foi ruim, mas foi bom". 
Não há como dizer que houve algo de bom!

O espanto passa, cinco minutos de reflexão bastam para a mente voltar a si e aceitar o que foi ferro em brasa marcando o couro daquele período: foi tudo uma bosta.

E eu realmente acho sensacional essa nossa capacidade de peneirar o passado e nos lembrarmos apenas da "parte boa". Mas, pr'alguns recortes temporais e existenciais de passados, nem a peneira com furos tão largos quanto os de uma blusa furada para deixar passar o que houve de bom. Pois não houve nada de bom. E ponto - por isso não dá pra fugir da pontuação.


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