quinta-feira, 10 de abril de 2014

O traficante de bombas.


Era um garoto, ainda menino. Não de tudo, mas bastante, embora nem tanto, e já dominasse algumas malícias deste mundo todo baseado na impessoalidade de tudo.
Estudava numa escola, mas morava há muitos bairros de distância dela. A maioria dos coleguinhas morava por ali, na região. A escola não ficava em um bairro phyno, mas mais bem servido de serviços essenciais à vida e mais próximo das centralidades que o bairro em que nosso herói residia.
Os coleguinhas iam para uma viagem-acampamento nas férias de julho, da qual nosso garoto-mas-nem-tanto não iria passar nem perto do ônibus, seus planos para as férias eram outros. Porém, os planos de toda essa garotada se encontraram em um ponto comum: explosivos. 
Explodir coisas na rua era um dos lazeres favoritos do garoto que morava do outro lado do rio. Os coleguinhas, por sua vez, tinham interesse em levar explosivos para sua viagem.
No bairro em que ficava a escola, e nos bairros onde moravam os coleguinhas, não havia lojas de explosivos. E, também, as mamães e papais dos coleguinhas não podiam sequer imaginar seus filhotinhos entrando em ambientes que são verdadeiros barris de pólvora.
"Tem uma loja perto da minha casa, posso comprar pra vocês, se quiserem", disse o herói de nossa pequena história. Os colegas se empolgaram. Ele disse tudo o que achava ser bacana em termos de explosivos: traque, bomba um, bomba quatro ("essa derruba até muro"), lata de fumaça, bomba ninja, vareta com apito, chuva de prata, caixa de mísseis, brigadeiro e até - para que fiquem pasmos os mais tradicionalistas - peido de velha ("não explode, mas faz um cheiro do inferno"). 
Uma roda se formou ao redor dele enquanto falava sobre os produtos e seus benefícios. Certamente algum daqueles meninos ficou realmente excitado com as descrições.
Passou os preços de tudo para os colegas, eles se empolgaram. Juntaram moedas e combinaram de no dia seguinte levar mais dinheiro. O nobre garoto de bairro semi-periférico iria até a loja, compraria tudo o que haviam pedido e, noutro dia adiante, levaria o amplo arsenal encomendado para a escola, e lhes entregaria.
Visualizando o início das férias, e considerando a plata para este período, nosso herói-mas-nem-tanto cobrou o dobro do preço por cada produto indicado no catálogo, comprou o dobro de mercadorias do que efetuadas no pedido e, assim, garantiu parte do seu arsenal para uso pessoal em férias.

Bum.

Digo, 
Fim.


Nenhum comentário: