terça-feira, 22 de abril de 2014

Maldita maionese verde.


Naquela época, terceiro bimestre de 2009, eu estava já me encaminhando pro fim do segundo ano da faculdade, e não tinha conseguido nenhuma bolsa. Fazia uns bicos filmando alguns eventos que um amigo meu organizava, e ia sobrevivendo na base do apoio financeiro materno - sacro, diga-se de passagem.
Era um dia comum, daqueles chamados pelo pessoal da moda de "meia estação": em que quando você acorda e sai de casa, está frio, quando você almoça, está calor, quando está voltando pra casa, chove, e quando chega em casa, está frio.
Certo momento, um pouco depois do almoço, quando o calor me fazia erguer as barras da calça até o joelho, meu celular tocou e eis que me caiu no colo uma bolsa, a qual nomeei de serviço de desova.
Era o famoso "estágio biblioteca". Famoso entre os estudantes de graduação da Unesp de Marília, pelo menos. Um serviço sensacional: passava duas horas por dia guardando livros e ganhava cerca de duzentos reais no final do mês, o que cobria a minha parte no aluguel, condomínio e conta de luz no apartamento 41.
Alguns dias o meu horário de estágio era um tanto quanto ingrato: das seis e meia da tarde até as oito e meia da noite. Batia um lanchinho, um salgado, uma coxinha antes de entrar mas depois de uma hora guardando livros, a fome já batia com maior firmeza.
Do local onde ficavam as prateleiras com livros dava pra ver o relógio do andar inferior, e, com a fome apertando, eu o encarava a cada cinco minutos. A fome crescia com o giro dos ponteiros.
Na boca, subia o desejo de apenas um sabor: lanche de trailer com maionese verde. Uma especiaria mariliense. Lanche do Marquinho ou da Beth, com maionese verde. Muita maionese verde. Uma bisnaga inteira. Dois copinhos (daqueles de café) de maionese verde!
Lembro que não foram poucas as vezes em que eu parava ao lado da jovem que fazia o estágio no mesmo período que eu e lhe dizia: "só quero um lanche com maionese verde". Suspirava cansado e esfomeado, e ela ria.
Às vezes, cansados, assumo: nos posicionávamos em um canto em que a 'chefia da biblioteca' não nos via e ficávamos papeando, sobre assuntos diversos, inclusive, ou sobretudo, lanche. Mas nunca fomos comer um lanche juntos após o estágio.

Hoje eu estou cansado. Trabalhei o dia todo: trechos pesados de um livro foram devorados antes do almoço, dois projetos  lidos e comentados após o almoço e partes de Simmel e Berman entre o fim da tarde e o começo da noite. Agora, oito e pouco da noite, a fome aperta, e, em minha boca e meu estômago, o desejo é por um único sabor: a maldita maionese verde, recobrindo um esplêndido x-egg-salada.
Puta que saudade disso.


[isso é uma foto de um cachorro quente feito em casa. não encontrei nenhuma dos lanches ou da maionese acima citados].


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