segunda-feira, 28 de abril de 2014

"Boca Nervosa".


Era uma noite fria, daquelas que tem neblina, vento e chuva fina, pra tornar mais densa e tensa a sensação térmica do frio. Tinha show naquela noite, e a casa, por conta do frio, estava vazia: poucos se atreveram a sair de debaixo do cobertor para curtir um som e uma bebidinha.
Jorge estava no bar, e Milton na portaria, uma distância de três metros os separava, e só havia eles neste ambiente. O palco onde estava acontecendo o show ficava em outro espaço, separado deste por uma porta. 
A hora já estava adiantada na madrugada, o show já deveria estar no bis, ou próximo dele, e o frio que entrava pela porta semi aberta era cortante, o que fazia com que Milton e Jorge, em um ato de solidariedade múltipla, revesassem o ocupante da função de porteiro - o que só era possível pois a casa não estava cheia, e o movimento de compradores de bebidas no bar era baixo. Achavam que não haveria mais nenhum pagante na portaria, e cada um desejava apenas ir para sua casa.
Enquanto Milton passava para um copo plástico uma dose de conhaque, uma jovem mulher saiu de dentro do ambiente onde acontecia o show. Não se aproximou do bar, nem foi embora pela portaria. Ficou parada, por ali.
Contrariando as expectativas dos rapazes que trabalhavam lá naquela noite, surgiu um pagante, um homem alto e que vestia uma jaqueta marrom, por cima de uma blusa de lã cinza e com um cachecol azul marinho ao redor do pescoço. Se aproximou de Jorge, então na portaria, perguntou quanto custava a entrada, pagou (sem precisar de troco) e entrou. 
O seu entrar representou dar três passos, parar entre o balcão do bar e a moça parada. Parou, tirou o cachecol, o enrolou e colocou no bolso da jaqueta. Antes que pudesse tirar a jaqueta, a jovem mulher deu um longo e único passo em sua direção, parou em sua frente, ficou na ponta dos pés e começou a beijá-lo. Ele retribuiu.
Se beijaram. Ela, erguendo-se nos dedos dos pés, segurava a gola da jaqueta dele com as duas mãos e com força, ele lhe abraçou pela cintura. 
Se beijavam. Se beijaram. Beijavam. Beijaram. Beijavam.-se Beijaram-se. Jorge e Milton assistiam. Beijaram. Beijavam. Beijaram. Beijavam.
Cessaram o encontro lingual e labial. A moça voltou a tocar o chão com toda a sola de sua sapatilha preta. Se olharam sorrindo, o rapaz não tirou a jaqueta. Ela segurou a mão dele, e entraram no espaço onde a banda ainda tocava.
Jorge saiu da portaria, com três passos rápidos se debruçou no balcão e falou para Milton: "que boca nervosa hein?".
Riram. Tomaram mais um conhaque.





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