sábado, 29 de março de 2014

Diário da Renatta - Florista.


Renatta trabalha em uma floricultura. Na verdade, é um tanto quanto errado dizer que trabalha lá. Ela vive, respira a floricultura. Única herança deixada por seus pais, está no mesmo quarteirão que uma casa construída pelos avós maternos no começo do século, onde toda a família (ela, o pai, a mãe, o irmão, o avô paterno e a avó materna) vivia durante a infância dela. Os avós se foram antes da adolescência de Renatta, o pai morreu, a mãe também, o irmão foi morar em outro estado, e neste tempo ela aprendeu a organizar e tocar a casa e a floricultura, que fica bem em frente ao portão do velório municipal em um cemitério num bairro de periferia. Pelo ponto privilegiado, relativamente seguro e próximo de sua casa, Renatta não tem problemas em deixá-la aberta até tarde, e ser a última floricultura nos entornos do cemitério a fechar no dia, e, também, a primeira a abrir: Renatta toma café da manhã, almoça, janta e às vezes até dorme no salão da floricultura - gosta do aroma das flores.
Por isso afirmo: Renatta respira a floricultura.

Já faz algum tempo decidiu começar a vender outras coisas, além de coroas fúnebres, dúzias de rosas e cestas de café da manhã, para movimentar mais o caixa da floricultura. Instalou, na entrada da livraria, um mostruário com pequenos livros de receita e revistas de cruzadinhas/caça palavras, e, ao lado da máquina de crédito/débito, achou boa ideia instalar uma máquina para colocar créditos em celulares.
Certa noite, já tarde, por volta das onze, cogitando fechar a floricultura dali meia hora, um rapaz estacionou o carro em frente à floricultura, deixou-o parado meio na rua, meio na calçada, ligou o pisca alerta e entrou perguntando se era esta a floricultura que vendia créditos para celular, conforme haviam lhe informado no posto de gasolina a dois quarteirões dali. Ele deve ter achado Renatta uma moça bonita, pensou ela, pois quando falou o número do celular para que ela digitasse na maquininha, o fez em alto e bom som, e quando ela foi lhe entregar o papel que sai da máquina, com a confirmação da recarga e o número do celular, ele disse sorrindo que ela podia ficar com ele, para guardar o número e ligar para ele caso quisesse. Sorriu, piscou o olho esquerdo enquanto ainda sorria, e saiu da floricultura soltando uma breve risada.

Renatta anotou no verso do papelzinho:

"Idiota. Metido à besta. Babaca. Trouxa. Otário".

O amassou e jogou no lixo. Fechou a floricultura mais cedo.


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