domingo, 16 de março de 2014

Diário da Joanna - Interessada.


Joanna não tem carro. Organiza horários e realizações para horários que não os de pico. Só anda de ônibus e metrô, vez em outra, acaba caindo num trem. Quando jovem, lá pelos dezenove, realizou o procedimento legal e adquiriu uma carteira nacional de habilitação, mas ela não dirige. Com o salário prometido, à época de sua mudança, tinha duas escolhas: morar longe, e ter carro; morar perto, e ter transporte público. Optou pela segunda opção, entendeu que economizaria em combustível, manutenção e até paciência. 
Por isso afirmo: Joanna não dirige.

Quando está indo para lá ou para cá, gosta de observar. Dentro do ônibus sempre vê quando um cara bonito entra, encosta o bilhete único na catraca, passa, caminha até o fundo do ônibus...
Nas estações de metrô está sempre olhando, seguranças com traços belos, outros transeuntes com roupas que lhes valorizam o corpo. Joanna gosta de olhar. Suspira.
Às vezes, quando está sentada dentro d'algum transporte público, se revela interessada, mas não sabe ao certo como assim se manifestar. Até o dia em que um rapaz entrou no ônibus, que não estava lotado, mas lugar para sentar, não mais havia; ela o olhou, ele a interessou. Ele passou a catraca e ficou em pé perto dela; em suas costas, uma mochila aparentemente pesada: "oi, quer que eu segure?", "ah, sim, obrigado". Quando foi descer, ele pediu a mochila de volta e sorriu um belo sorriso para ela ao lhe agradecer o favor. "Por nada", e sorriu também.
Ainda no ônibus, anotou em seu diário mental:

"Espero que suba outro desses aqui nesse ônibus, ai me ofereço para segurar sua mochila, ou sua bolsa ou o que quer que seja. Não peço pra segurá-lo por que né? Não dá! Mas é um jeito legal de chegar. Vamos tentar".

Outro ônibus, outro metrô. Mais um dia. Mais metrô, mais ônibus, e mais outros tantos. E Joanna nunca foi além de uma moça interessada por desconhecidos no transporte público.




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