segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Prenúncios e Posfácios - Um.


Semana passada, quando vim de São Paulo para Marília, observei alguns trechos de rodovia, sentindo a minha incrível capacidade de dramatizar a vida, de tornar eventos cotidianos em megaeventos - um hábito que tenho desde a mais tenra idade, o qual é culpa dos filmes que estimulam demais a criatividade da criança, mesmo quando ela já é adulta. 
Observava a rodovia, neste trajeto que percorri algumas boas vezes todos os anos nos últimos seis anos, e considerei justo nomear aquele deslocamento São Paulo/Marília como sendo "o último embarque": vou passar mais alguns dias em Marília, entregar a casa que fiz como minha nos últimos doze meses e voltar pra São Paulo, onde morarei, no mínimo, nos próximos dois anos.
E assim registrei essa ideia em meu caderninho de bolso, quando o rapaz que dirigia o carro o parou para "esticarmos as pernas" em um posto.

Mais adiante, quando já havíamos passado por Bauru e chegar em nosso destino era coisa de algumas dezenas de minutos sobre o asfalto, me recordei do dia em que 'me mudei' para Marília. 
O plano dos meus pais era o seguinte: entupir o carro com 'coisas do Gabriel', sair de São Paulo cedinho, deixar o Gabriel (e suas coisas) na casa em que eu passaria a morar em Marília, almoçar, dar tchau e voltarem pra São Paulo.
Quando estávamos vindo, já em algum trecho entre Bauru e Marília, lembro-me que meu pai chamou a atenção de minha mãe (que dirigia) e a minha (que estava no banco de trás, esmagado entre caixas e tralhas) para a estrada. Disse algo como: "olha só, essa parte da estrada é reta, parece que vai acabar a pista uma hora; parece que já já a gente vai chegar no fim dela e vai cair, mas não, depois tem mais estrada pela frente".

Não lembro o que eu ou minha mãe lhe dissemos, ou se lhe dissemos algo em resposta. Certamente anotei no caderninho que estava no bolso (esse é outro hábito que já tem lá os seus dez anos, ter sempre um caderninho ao bolso). O silêncio voltou a reinar no carro e isso ficou guardado na memória.
Ficou guardado para ser recuperado no dia deste "último retorno", talvez como a resposta não dada ao meu pai seis anos atrás: "sempre tem mais estrada depois, mas esse trecho da minha estrada, vai chegando ao fim; ou será que é só uma curva sinuosa, e depois tem mais estrada pela frente?".

[fiz essa foto em 2011, indo ou voltando de Bauru, no trecho citado no texto].

2 comentários:

pedro meinberg disse...

que honra! acho que virá mais estrada por aí... talvez mais perigosa, talvez menos. de qualquer forma, parece que você vai sem medo...
beijão.

Gabriel Coiso disse...

O medo sempre existe, sempre existiu. Mas se tudo fosse certeza, sem a dose de incerteza (força motriz desses medos), que graça teria?
Tamos ai, sempre batendo no peito e indo adiante.
Beijos.