quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Prenúncios e Posfácios - Três.


Quando cheguei ao segundo colegial estava consciente de que teria de fazer uma disciplina extra-curricular-obrigatória na escola, chamada "projeto monográfico". Sabia, pelo fato da minha irmã tê-la feito dois anos antes, que era algo como 'escrever um trabalho bem cumprido'.
Para aumentar minha surpresa, fiquei sabendo, logo de cara naquele ano, que os alunos seriam divididos em grupos e subgrupos que seguiriam as áreas de conhecimento das "humanas, exatas e biológicas". Na moral, eu não sabia o que diferenciava uma da outra. Não demorei muito pra entender essa divisão, e fui entendendo que eu me interessava por coisas 'das humanas'.

Dai a escola estava para acabar, terceiro colegial já me enxotando do colégio, a grande maioria dos colegas indo fazer faculdade - alguns, me recordo, meio perdidos, se matriculando em cursos de faculdades particulares por "orientação dos pais". No único vestibular que prestei no terceiro colegial (pra artes plásticas, na usp) eu rodei. E ai tinha duas opções pro ano seguinte: fazer um cursinho barato (que implicava em não precisar trabalhar junto) ou trabalhar e pagar um cursinho mais caro, ou, nessa segunda opção, não fazer cursinho (o que seria coerente, visto que eu não fazia ideia do que eu podia querer com um curso universitário).
Arrumei um trabalho (esses esquemas de "pirâmide de vendas" numa escola de inglês marqueteira), meus pais me pressionaram (eles certamente dirão que "me orientaram", como os pais dos meus colegas os "orientavam" a escolher uma faculdade) a não ficar neste emprego e fazer só o cursinho barato, estudar bastante, decidir qual faculdade fazer, onde, como e por que.
Muita coisa pra decidir. Mas eu topei encarar o rolê.
Sabia que curtia geografia, história, português, artes, gostava de ler e de escrever. O contato com as tais ciências humanas no citado "projeto monográfico" me dava um norte pra decidir o que fazer na vida, ou nos próximos anos. E foi no meio daquele esquisito 2007 que, observando as opções de cursos nas faculdades públicas, decidi que prestaria Ciências Sociais. Por um simples motivo: "esse curso tem bastante coisa que me interessa, depois eu decido o que faço com o diploma".
Um modo muito, mas muito perspicaz de escolher qual vestibular prestar, diga-se de passagem.
Dai decorre outra coisa que passava pelos meus miolos na época: já que eu ia fazer faculdade, seria legal fazer de um jeito mais bacana, mais 'descolado', do que continuar morando em São Paulo e estudando por lá, seria a mesma coisa que fiz durante anos, mas, em vez de ir até um colégio, iria para uma faculdade, em uma cidade da qual eu já tava de saco cheio.

Bom, e ai nesta prosa toda, chegamos a um ponto que só me sinto a vontade de falar abertamente agora, passados alguns anos: não era louco de vontade de cursar Ciências Sociais, não estava morrendo de vontade de fazer uma faculdade, e não estava fazendo lá muita questão de seguir vivendo em São Paulo.
Meticulosamente dediquei especial atenção ao vestibular da Unesp, cujas provas realizei no começo de dezembro de 2007 e havia ido muito bem.
Já sabia que havia passado pra segunda fase da Fuvest e, então, meticulosamente bati fora do bumbo na última prova desta segunda fase. Questões de geografia respondidas mal e porcamente, prova entregue no prazo mínimo e "foda-se essa cidade, eu vou pro interior".

Depois de alguns dias começaram a sair os resultados: passei no vestibular da PUC (todo mundo que eu conhecia e havia feito a prova passou, considerando que eu convivia com bastante gente do cursinho, estou falando de bastante gente que passou); passei na segunda chamada da Unifesp/Guarulhos, mas se não queria estudar em São Paulo, o que dizer de Guarulhos?; passei logo de cara na Unesp, o que era legal, o plano de vazar pro interior começava a dar certo, só não podia dar a zica de passar na Usp, se isso ocorresse eu não teria desculpas para ir embora de São Paulo, a "orientação" do pessoal de casa seria óbvia e inquestionável: não vai ter gasto, é a melhor faculdade etc, etc, etc/blá, blá, blá. 
E, por fim, isso não ocorreu. Bati tão fora do bumbo na última prova da fuvest que fiquei entre os últimos da lista. Sem chance de ser chamado em qualquer segunda ou possível terceira chamada.

O óbvio, irrestritamente óbvio que eu tenho a dizer sobre todas essas escolhas, um tanto baseadas na falta de noção, outro tanto baseadas mais em fugir do que eu não queria do que me aproximar de algo que eu poderia, de fato, querer, é que, não só não me arrependo destes rumos, como que é graças a eles que você lê estas linhas (e eu as escrevo).
Por fim, após passar sete ou oito anos escolhendo as coisas assim, na base do "já que não tem tu vai tu mesmo", fico feliz (e isso é até redundante) em estar "voltando" para São Paulo para fazer algo que eu realmente quero, algo que realmente me é uma "escolha majoritária e prioritária". O primeiro "tu" da oração acima.



[Queria colocar aqui outras fotos, dos momentos que cito no texto [época da escola, época do cursinho, época do início da faculdade] mas a internet está me boicotando. Então, vai essa foto mesmo, do dia em que eu e o Pedrinho nos mudamos para o apartamento no André Luiz. E por que esta foto? Por que, tendo tu ou tendo que ir de tu mesmo, encarar todos esses momentos descritos acima com bom humor e alguma tiração de sarro, é a unica coisa que sei fazer mesmo].




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