terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Prenúncios e Posfácios - Cinco.


Não tava afim de trabalhar, e o custo de vida no começo da faculdade seria bem baixo, passível de ser coberto pela progenitora. A bem da verdade, morando aqui eu saía "mais barato" do que morando em São Paulo, esse negócio do "custo de vida" lá ser absurdamente caro é bem real - literalmente, real.
Mas ai o primeiro ano estava acabando e eu precisava dar um jeito de fazer algo, arrumar uma grana pra fazer os meus rolês, e comecei a observar as possibilidades oferecidas dentro da própria universidade, e decidi que daria um jeito de conseguir uma bolsa.
Primeiro, fui reprovado na prova para o estágio da biblioteca (em que se ganhava uma bolsa, à época, de R$190,00 para passar duas horas por dia guardando livro). Depois, passei no processo seletivo do grupo PET, mas como "aluno não bolsista", com previsão de virar bolsista depois de um tempo, quando algum outro colega saísse do grupo ("o que é comum, rola uma rotatividade muito grande no grupo", diziam), topei.
E como fui feliz em topar. O PET é um programa do MEC, Programa de Educação Tutorial, que, em sua teoria formal, deve ser um grupo em que o tutor manda e os bolsistas (e não bolsistas) obedecem, pois a 'educação' do 'programa' deve seguir o 'tutor'. Besteira. O nosso nunca foi assim. Todas as decisões, do horário das reuniões ao o que fazer com a verba que recebíamos anualmente, eram tomadas pelos 18 alunos.
Diversas viagens, eventos, apresentações de trabalho, seminários e encontros que me ensinaram a trabalhar, dialogar, ouvir, questionar, me calar, debater, me divertir (a diversão faz parte), foram "lá" e com aquelas pessoas. 
Considero, e isso já faz tempo, que só aguentei os trancos e os barrancos do curso por conta da atuação no PET. Quando a licenciatura enchia o saco ou a pesquisa parecia não fazer sentido, o trabalho em grupo, e a autonomia que tinha/tínhamos neste, me seguravam no curso.
A bolsa só veio em abril de 2010, meu terceiro ano de faculdade, e durou até o começo de 2012. Porém, até lá eu já havia sido chamado pra fazer o estágio biblioteca (de setembro a dezembro de 2009), e passei na prova para o estágio em 2010. Já tinha descoberto também outros caminhos pra arrumar algum dinheiro, aplicando questionários de casa em casa, filmando e fotografando eventos, fazendo "biquinhos" assim, que pagavam meus lanches, sempre os meus pequenos luxos.

Em 2011, quando parecia que o fim do curso estava perto, conheci o Fora do Eixo, que estava entrando em Marília com um pessoal bacana, envolvido com bandas e grupos artísticos legais da cidade. Por ter um bom amigo (o Du, com quem morei no primeiro ano) envolvido diretamente nisso, fui convidado pra participar de uma das primeiras reuniões do coletivo, e fui entrando, colaborando, participando, opinando...
Quando percebi estávamos num carro, indo em imobiliárias, buscando uma casa bacana que servisse como moradia para alguns membros do Coletivo Desdobra e como "central para rolês alternativos na cidade", as famosas "Casas Fora do Eixo". O plano, aparentemente, era sobrevivermos disso, dessa "produção cultural", que vocês já devem ter ouvido e lido sobre os prós e os contras.
Deu certo até certo ponto, ninguém de nós nunca chegou a sobreviver disso, mas fizemos rolês bacanas, demos uma agitadinha na vida artística e cultural da cidade, até o fim de 2012, quando vimos (após todas as mudanças de 'quadro') que não tínhamos perfil, mesmo, pra encabeçarmos um coletivo da rede do Fora do Eixo, e o Coletivo Desdobra findou-se.

"Acabou a licenciatura, acabou 95% do bacharelado. É, vou ter que trabalhar". E assim que comecei um 2013 em Marília fui atrás de algum trabalho, com uma ideia: não queria dar aula. Trabalharia em meio de mídia, faria freelas, faria bicos no Cão Pererê (a melhor casa de Marília, que merecerá um capítulo a parte nesta série), mas não queria dar aula. Precisava fazer algo que pagasse as contas e me permitisse ter tempo hábil para estudar para as provas de mestrado, pois o plano era ir embora.
"Não vai ter jeito, vou ter que dar aula". 
No começo foi estranho, no meio do ano pensei em desistir, mas fui tocando, e no fim foi bom. 
Comecei com seis míseras aulas semanais, depois peguei aulas que 'sobravam', depois peguei uma carga quase completa e, por fim, depois que o plano tinha dado certo, e eu já havia sido aprovado no mestrado, peguei outra carga quase completa pra fechar o ano ganhando algum troco a mais e ir pra praia.

Em todos esses anos, nunca passei fome aqui. Vez ou outra faltou um dinheiro pra rolê, mas nada que uma camaradagem não resolvesse. Agradeço, e devo a imensa maior parte disso tudo que vivi por aqui, à minha mãe, que sempre que a porca torceu o rabo podia mandar um troco a mais, que mesmo quando eu estava com bolsa, com trabalho etc, não deixou de ajudar e financiar grande parte da minha formação.
A grande verdade é que vim fazer um curso que não promete tubos de dinheiro pra ninguém, qualquer área de atuação que eu vá seguir irá pagar o suficiente pra viver minimamente bem - a menos, claro, que siga vivendo sem luxo algum (sem lanches), mas com o requinte de aproveitar cada centavo e cada momento, como fiz com todo troquinho e com todo tempinho nestes últimos anos. 

Algumas imagens destes momentos:


[Aqui atacando de câmera man durante um evento de canto coral, esse trabalho rendeu um bom dinheiro e eu ainda jantei todos os dias na melhor pizzaria da cidade].

[Aqui tendo minha idiotice bestial captada pelo click rápido da Mariângela durante algum evento do Coletivo Desdobra].

[Aqui com os colegas de Grupo PET falando alguma groselha em um encontro de Grupos PET, onde normalmente eramos visto como os 'esquisitos', por trabalharmos com mais democracia do que o programa prevê].


Nenhum comentário: