quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma história nojenta.


Estávamos nos enroscando ali naquela situação havia já um bom tempo. Já conhecia bem tanto aquelas curvas corporais quanto as cores dos lençóis disponíveis para cobrir o colchão, e notava que minhas curvas eram já também conhecidas. Eram lugares bons. Mas, quando me refiro a 'bom tempo', me refiro àquela noite mesmo, foi um bom tempo nos enroscando. Até que num sorrateiro golpe físico de inverter pernas e girar tronco, a percebi sentando-se por cima do meu rosto. O que é sempre bom. Saliência da ponta do nariz e superfície total da língua em plena festa passeando umidamente por ali; e o passeio umedecia mais e gerava uma festa dançante, fazendo com que o mexer fosse, na verdade, um intenso rebolar-se e remexer-se por inteiro. A música era boa também, o som do prazer saindo de dentro pra fora sem plasticidade. Certo instante cessou a movimentação e falou seca: "preciso ir ao banheiro". Quando começou a se afastar de mim lhe perguntei: "peraí, por que?", "preciso ir ao banheiro", repetiu, "mas pra que?", insisti, "por que eu preciso oras", "você vai fazer coco?". Titubeou um pouco, mas respondeu afirmativamente que precisava ir ao banheiro para tal. "Faz em mim", eu falei. Olhando-me no rosto, de cima para baixo (testa-queixo/queixo-testa), o fez com um olhar assustado, franziu a testa em dúvida, enquanto seu olho deu uma piscada e então se fechou. "Você gosta disso?", "não sei, mas, você ai, falou isso de banheiro, ai eu imaginei e não achei tão repulsivo assim, e até fiquei mais excitado quando pensei nisso", "você tem certeza?", "tenho". Desfranziu a testa, perdeu o sentido de dúvida no olhar e, pouco a pouco, o olho dela foi se abrindo, revelando uma grande íris em tom amarronzado que me cobriu toda a face  e o peito em uma história nojenta. Depois trocamos o lençol amarelo-mussarela por um azul-capa-de-bíblia.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eu fui ao médico.


Marquei a consulta por telefone, e fui. Cheguei lá de ônibus, do modo como o site (na internet) havia me informado que era mais fácil de chegar. Inicialmente estranhei se tratar de uma casa com aparência de residência, daquelas térreas, com jardim na frente, típica de região central de cidade do interior paulista. Logo que entrei (o portão e a porta estavam abertos) vi que atrás de uma mesa quadrada com tampo de vidro, estava sentada uma moça que comia um oleoso yakissoba. Ela limpou sua boca na manga do avental branco que vestia, e pediu para que eu me sentasse em um dos sofás, pois o doutor já iria chegar e me atender. Aquela sala de espera estava bem cheia, não havia sequer lugar nos sofás (que pareciam estar úmidos, e exalavam um odor horrível) para que eu me sentasse. Aguardei em pé. Um homem passou em rapidíssimos passos (não consegui ver seu rosto) entrou em um dos quartos, fechou a porta. Depois de dois minutos a abriu e me chamou. Quando entrei no cômodo o homem-médico estava sentado em uma cadeira plástica vermelha ao lado de uma mesa de passar roupas, onde um bloquinho de papel, uma caneta, uma garrafa d'água e um estetoscópio repousavam. Ele reclamava do calor e se abanava com uma caixa de remédios de grandes proporções. Pediu para que eu me sentasse na cadeira plástica ao lado da dele. Reclamou do calor novamente, e tirou a camisa - pude assistir o deslizar de grossas gotas de suor por toda sua volumosa barriga peluda. Atrás de mim uma cômoda, ao meu lado um grande armário embutido, mas sem as portas, o que permitia assistir algumas moscas sobrevoando duas pilhas de roupas brancas em tons amarelados. "Por favor, tire a camisa também, e se sente ali em cima daquela cômoda", ele disse. Me sentei na cômoda e tirei minha camisa, enquanto ele apoiou o estetoscópio em sua nuca e pegou um bloquinho de post-its amarelos. Se aproximou de mim, olhando para o meu tronco com apenas um olho aberto, colou um post-it em cima de cada um dos meus mamilos, e um mais abaixo, entre a linha mamilar e o umbigo. Perguntei o que era aquilo, e ele disse: "é pra eu ter uma referência de onde tenho que por isso aqui", indicando a ponta do estetoscópio, "eu sempre erro o lugar", completou. Pediu que eu me virasse, e repetiu o procedimento em minhas costas - com post-its e estetoscópio. Disse um "pronto", acendeu um cigarro que tirou de um maço amassado do bolso traseiro de sua bermuda bege, "pode se vestir e sair daí, você está bem, vou apenas lhe indicar um anti corrosivo ósseo que agora pode não fazer diferença, mas daqui uns anos, hhhmmm, você vai sentir a ação". Se apoiou na mesa de passar roupas, preencheu um papel prescritivo de receita, o entregou para mim, esticou a mão direita e disse: "passa um dia desses por aqui pra gente tomar um nobillis". Saí do quarto, passei pela sala, me despedi da moça atrás da mesa quadrada de tampo de vidro. Caminhei até o ponto de ônibus mais próximo. Ainda não tinha certeza se compraria o remédio ou não, apenas pensei: "eu moraria naquela casa".



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A moça do ônibus.


O ano era 2007, e eu frequentava um cursinho na região central de São Paulo. Todas as noites da semana, às 23 horas, eu embarcava em um ônibus no terminal lapa com destino à minha casa. Todas as noites eu cumprimentava o motorista e o cobrador (sempre os mesmos) e cerca de 70% dos passageiros (também, sempre os mesmos). Dentre estes 70% havia uma moça, que estava sempre ouvindo música em fones de ouvido grandes (cheios de adesivos de corações e cerejas). Muitas vezes ela estava na fila batendo levemente o pé no chão, certamente no ritmo da música que ouvia, e algumas vezes trocamos risos e olhares. Mas ai acabou o ano, eu fui embora de São Paulo e não nos conhecemos. Na época escrevi pequenas histórias que se conectavam sobre ela; na verdade, sobre por que ela se apaixonaria/ava por mim a cada noite, pois eu o sentia por ela todas as noites (como num filme d'Adam Sandler e Drew Barrymore, mas sem o acidente). Até que um dia nos encontramos na feira do bairro, ela me viu vomitando após comer um pastel e não teve mais motivos para se apaixonar por mim todas as noites. Isso na história que eu escrevia, claro. Hoje embarquei na mesma linha de ônibus, às 23 horas. O cobrador e o motorista não são os mesmos. Mas reconheci aquela moça que entrou na fila logo atrás de mim, que ouvia música em um discreto fone de ouvido e que batia o pé no chão, com leveza. O tempo passa, os ônibus, as moças, os moços e os fones de ouvido também.


O imediatismo daquele professor.


Estou trabalhando na escrita de um trabalho a ser entregue como conclusão de uma disciplina que cursei entre agosto e novembro. Minhas engrenagens cerebrais, já cansadas após um ano cheio, tardam em pegar no tranco. Agora a pouco, por algum motivo (que não sei descrever), me recordei de um professor dos tempos de ensino médio, e não me privei em escrever estas linhas e as abaixo. 

Naquela época já respirávamos o começo do fim dos longos anos trancafiados na escola (como "alunos"), e após um primeiro e segundo anos de ensino médio, muitos já se dedicavam ao "depois": cursinho, apostilas, orientações profissionais, vestibulares...
Antes, no segundo ano de ensino médio, havíamos realizado uma disciplina obrigatória, chamada "projeto monográfico", em que cada aluno realizou uma "pesquisa científica" e apresentou, ao final do ano, uma monografia. 
O meu trabalho, no grupo de "estudos urbanos", foi sobre grafite, pixação e stickers, "arte urbana". Por ele recebi dois prêmios, o que causou certa indignação e/ou questionamentos em alguns setores do corpo docente e discente daquele colégio: como podia um aluno que batia cartão nas recuperações e cujo nome era figurinha carimbada nas aprovações pelo conselho de classe fazer um trabalho notável e, mais ainda, ser premiado por instituições para muito além dos muros da escola?
Me lembro do sorriso amarelo daquela professora do ginásio, que sempre escrevia minha nota em suas provas por extenso ('hum', 'dois', 'quatro', e não passava de quatro mesmo), me dizendo: "parabéns, quem diria hein?". Dava vontade de dizer: "toma essa papudona, a sua matemática não é a unica forma de inteligência que há no mundo, sabia?".

Me recordei hoje de um professor específico, motivo deste texto que ao entrar na sala de aula e ser instigado a comentar sobre as premiações recebidas por alguns alunos, dentre eles, eu, o fez com tom de preocupação. Disse que era legal que tivéssemos essa experiência, mas que tínhamos de nos focar "no futuro, no vestibular, na profissão que seguirão". Na fala dele, aquele "projeto monográfico" em nada ajudava os alunos a pensarem o futuro - que ele sempre ressaltava e limitava na figura do vestibular. 
Ao me ver na tarde de hoje rodeado por textos em xerox, anotações no caderno e de fronte a um computador com alguns documentos de word aberto, acho que cheguei a uma resposta a este professor. Alguém o chame pelo sobrenome (afinal, ele sempre nos tratou com esta impessoalidade) e diga que o Coiso ainda não parou pra pensar direito no vestibular que prestou, pois a minha cabeça nunca funcionou de acordo com o imediatismo daquele professor.

[foto da época]

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

mãos dadas X sapatadas.


(dê o play neste vídeo e leia o texto, ele só fará sentido se a música estiver sendo fruída junto).

No começo tem um enrosco e umas batidas centralizadas no bumbo, não é um enrosco negativo, é mais um rola pra cá e pra lá, que me soa aquela coisa boa de fazer e lembrar e repetir. Ai de um lado surgiu uma certa gravidade (grave mesmo) e pesado. Do outro tem o que me parece um projeto de linearidade mais doce e circular, que parece querer dominar tudo. Mas é só projeto, e o enrosco, a batida no centro do bumbo e o grave impiedoso ainda estão lá. Num outro golpe sorrateiro entrou mais coisa doce, mais sabor, mais suavidade; a linha é tão bonita, tão suave, quase abafa o enrosco que transita entre lá e cá e toma ares de coisa negativa, ao estar disputando espaço com o suave ameno, ainda em projeto. É muita coisa amena, é muito carinho sendo esfregado na cara. Então tudo se esvai e dá lugar a uma implosão ou explosão (eu não saberia definir). Do que se tinha antes - enrosco, grave, doce, projeto de linearidade - nada resta pra contar história, ou de nada se lembra dos conflitos anteriores ao se pensar nas histórias. Outros tons tomam o espaço: seria a derrota da suavidade que tentava em seu projeto dominar todo o espaço? Seria a derrota, também, do projeto de bumbo + grave que, por outro lado, parecia dominar? Nada, logo em seguida a calmaria volta: tranquila, gostosinha, circular, e se funde também com esses novos tons, mostrando que a suavidade e a calma podem combinar com tudo. Na verdade indica-se como um singelo equilíbrio entre tudo o que parecia estar em disputa antes. E elas combinam mesmo, poderiam ficar horas, dias, semanas, quinzenas, meses, bimestres, trimestres, semestres circulando deste modo na minha cabeça. Mas nunca é assim. E, peraí, que tem uma esteira escorregando de um lado, é meio grave, meio arenoso, e do outro tem uns sorrisos bonitos que caminham de mãos dadas com a linearidade-circular-suavidade que outrora tentava se impor. Ela é observada ao longe e de lado por uma sequência repetitiva de sapatadas graves, que começaram discretas, mas que vão vindo, vindo, vindo, vindo. De novo é embate, de novo: de um lado é suavidade querendo reinar, do outro é a gravidade de sapatadas orquestradas. "Vocês não cansam de disputar?", eu pergunto. É centralidade/suavidade contra lateralidade/sapatada. É só isso? É isso o tempo inteiro. Ora o que é doce e dá vontade de saborear de olhos fechados se impõem, ora é a sapatada da qual se tenta fugir por todas as vias quem se impõem, ora não dá pra diferenciar - mas essa indiferenciação não é algo harmônico, é, na verdade, algo bem negativo. Talvez seja um retrato da uniformização fascista, e não da igualdade dialética. A sapatada que se anunciava, que dizia marota "estou indo" voltou com tudo, chegou, explodiu na cara. Pá! Tem sangue pra tudo que é lado na minha avermelhada vista. Não consigo respirar direito, meu nariz travou e não entra mais ar algum; é quase desesperador esperar pra ver se vai passar. Que inferno, parece que estou atravessando um corredor de fumaça preta e não consigo achar nenhum ponto de luz que guie qualquer caminho. A sapatada triunfou, ao bater de frente em meu rosto parece que me retorceu os músculos da cara. Foi forte e está doendo (não sei se quero esperar o metrô abrir). Mas, olha só quem voltou, aquele projeto de suavidade e tranquilidade. Na verdade, ele estava lá, mais ao fundo, o tempo todo. O baque da sapatada me entupiu os ouvidos e eu não conseguia ouvir a tranquilidade acenando com sua circularidade doce, novamente em projeto. Precisei me livrar de tantos 'zum zum zuns', efeitos das sapatadas, para perceber que, na verdade, imperava soberana a beleza do circular-tranquilo-ameno-doce, que pouco a pouco vai sumindo novamente... 
Eu poderia dizer que isso é metáfora para o ano que já desponta como finado, mas, na verdade, é isso a vida inteira, essa repetição constante de embates diversos, aqui encontrada em uma linda música instrumental.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobre sob sub.


Isso não é sobre 
A
B
M
S
G
Ou

Isso não é sobre 
08
10
12
13
09
Ou

Isso não é sobre
D
P
C
R
S
Ou

Isso não é sobre
206
441
46
785
Ou

Isso não é sobre
Z
F
T
C
P
Ou

Isso não é sobre nada,
Mas também não é sob,
E muito menos é sub,
Ainda assim é, foi, será (?)




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

b.a.n.a.n.ã.o.


Breve relato de José Gomes Neto - XXVIII:

"Sentado na poltrona, na verdade, corpo largado-esparramado no compensado de espumas esponjosas já envelhecidas. O chão era aquele marrom escuro meio esverdeado feito pra ser anti sujeira que sempre achei feio. Quando ela apareceu falou pra eu abrir a boca e levantar a língua. Lembro que virei banana bem doce depois disso. Virei um punhado largado de sal. Virei uma bala perdida no ar. Virei uma panqueca bem recheada. Virei tanta coisa, que eu jamais havia imaginado que viraria - e olha que já havia estado largado naquele chão feio antes, inclusive, todo bananão".

José Gomes Neto,
18 de Abril de 2010,
Banana sem aveia.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um diálogo silencioso provocado por uma peça de arte.


As artes têm um papel interessante em minha vida. Não no sentido lúdico/criativo da coisa, mas, sobretudo, no contemplativo, aquele que me enche de ideias (aparentemente boas), aquele que inspira a imaginação e que me leva às aspirações lúdico/criativas. Gosto, aliás, de pensar no processo das coisas artísticas que vejo/ouço e me soam boas: "como será que gravaram essa música?", "qual será que foi a influência/inspiração pra essa pintura?". Viajo nestas imaginações, e me dou por satisfeito em não ter respostas concretas para elas.

Em 2010 tinha no apartamento em que eu morava uma poltrona que eu achei em uma lixeira e levei pra casa. Era muito confortável. Eu gostava de virá-la e colocá-la de frente pra janela da sala, e ouvir música olhando pro céu. Lembro que estava ouvindo o novo de 2010 do Yann Tiersen pela primeira vez nesta posição, alternando entre ficar períodos maiores ou menores com os olhos fechados. Teve uma música que começou estranha, e eu lembro que abri os olhos na hora em que ela explodiu em uma sonoridade tão fantástica e eu via apenas as nuvens no céu azul de Marília. Aquele momento teve um 'quê' de "uau, tem muita coisa nessa música", e tinha realmente: considero "Ashes" uma das músicas mais bonitas dentre as que ouço/ouvi. 
Quatro anos e três álbuns depois, Yann e sua banda enfim voltaram para shows no Brasil (em São Paulo, do lado de casa na verdade). Notei que "Ashes" não estava sendo tocada nos últimos shows, e preparei um pequeno papel com o nome dela, desenhado em laranja e azul. Antes, ainda, do início do show, dei uma pescoçada no set list, e Ashes não estava lá...
Ao término do show, antes do bis, colei no palco, e, durante o bis, mostrei o desenho a eles, que viram e sorriram. O bis acabou, o público não foi embora, eles voltaram para um bi-bis. Tocaram uma música agitada, se levantaram, soltaram seus instrumentos e foram para a frente do palco. Yann se abaixou para pegar um microfone cujo pedestal já estava dobrado, apontou sua mão esquerda para mim e falou sorridente: "we will play Ashes". O malandro que toca pianinhos e ukulele pegou o papel de minha mão e o colocou sobre o piano. Enfim, tocaram Ashes, em uma linda versão acústica
Yann e os demais quatro rapazes com quem divide palco nesta última tour se despediram da platéia, curiosamente, dois deles olharam para mim gesticulando positivos com os dedos e dizendo "thank you". Eu, claro, retribuía os agradecimentos (até por que, o ingresso nem foi tão caro assim, e a experiência músico sensorial do show foi realmente fantástica).
Eles não sabem, jamais saberão o processo todo que levou um rapaz em São Paulo a fazer um papel com o nome da música. Jamais saberão o tanto de vezes que eu voltei aquela música pra ouvi-la do começo mais uma vez. Tampouco saberão que brinco de tocá-la no violão, que adoro a mostrar pros amigos, que volta e meia paro a mais sórdida obrigação pra esvaziar o peito a ouvindo. Eu jamais saberei o processo criativo e de recriação dela (existem tantas versões desta música). Mas no último sábado, na troca de um bilhete por uma canção tocada acusticamente, neste diálogo silencioso provocado pela peça de arte "música Ashes", todos esses processos artísticos/vitais se dissolveram no ar e, como cinzas no vento, se mesclaram da forma mais bela possível: a música foi tocada por quem a fez, e contemplada por quem a admira.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Incon Sequência.


Às vezes eu tomo atitudes que tem o ar perfumado e requintado das inconsequências. Como naquele dia em que, no começo da noite, eu topei comer um troço que eu sabia que cairia mal. Não é de hoje, tenho os aparelhos digestório e digestivo embaraçados com a vida. O estômago arruinado, os intestinos destroçados (eu acho). Mas comemos o troço, e fez mal, claro. E teve mais. Claro, bom é quando tem mais. Naquela noite eu falei 'não, não, não, não pode; haverá consequências negativas, complicadas, embaços diversos'. Naquela noite o botão da inconsequência estava virado no on. Até que chega esse tal "hoje" - embora haja quem diga que ele não existe, que há só ontem e amanhã. Eu vou tirar a camiseta pra talvezquemsabeaconteça de dormirtãojá, e sinto mais perfume requintado registrado em seu tecido e penso: "caramba, jamais havia imaginado que inconsequência nisso daria".


domingo, 23 de novembro de 2014

O dia em que eu perdi dez reais.


Naquela época eu já havia plugado no cérebro uma espécie de cabo condutor de seriedades alheias a longo prazo, e estava realmente considerando todas as informações e dados que por ele entravam, visto que, naquela época, muita gente me deu os parabéns pois o que eu fazia era entrar nos eixos delas (e eu sabia disso). Quem me acordou foi o sol, na verdade uma espessa fresta de claridade que passava pelos poros respiradouros na janela. Não consigo me lembrar se a cabeça doía ou coisa do gênero, sei que olhei no relógio e achei por bem me apressar em ir ao mercado, que fecharia dentro em breve. Laranjas. Laranjas. Laranjas. Como um torcedor fanático da seleção holandesa, eu só pensava em Laranjas. Era tudo o que eu queria, pois tudo que meu corpo pedia: um suntuoso suco de laranjas. Chinelo, a primeira bermuda que vi e algum pano pra cobrir o tronco. Tinha duas notas de dez dobradas juntas em cima da mesa, as peguei e coloquei entre meu corpo e o elástico da bermuda, pois esta não tinha bolso. Laranjas & Carne & Repolho, este seria o menu, escolhido a olho no mercado. "Caramba moça, cadê meu dinheiro?", falei para a Raffaela. No caminho - que durava cerca de sessenta passos curtos - entre a porta de casa e a porta do mercado, minhas duas notas de dez haviam caído. Retornei. Com olhos cirúrgicos e passos minuciosos refiz esse trajeto, e das duas notas de dez, encontrei apenas uma, entrelaçada entristecida entre os ramos mais altos de algum matinho na esquina. Laranjas & Repolho passou a ser o menu, visto que aquelas eram as duas únicas notas de dez (ou de qualquer valor) para o dia. Passei um bom tempo praguejando aquela esquina cotidiana, ao passar por lá só conseguia pensar/dizer: "e foi aqui que eu perdi dez reais". Perdi também, inclusive, a noção de que a minha seriedade deveria reinar soberana sobre mim mesmo, e não quaisquer outras, injetadas do mundo pra dentro com sorrisos marotos, convites discretos e aceitações minhas; se teve algum momento em que eu me vendi, foi por ali, mas isso é outra história.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Breve explanação sobre a passagem do tempo para uma pessoa ansiosa.


Você esperou muito tempo por algo. Meses, talvez anos. Um algo que pode ser mais ou menos físico, mais ou menos tocável, mas, no exercício cotidiano das palavras que nos ensinam desde pequenos, pode ser chamado de algo (mas não de alga, a menos que envolva praias ou sushis). Minutos, horas, dias, semanas, meses, bimestres, semestres, anos. Eles passam, e então, após contagens mais ou menos expressivas, mais ou menos esperançosas de que este algo estará diante de seus olhos (a matéria registradora de nossas vidas, a meu ver) você, por fim, estará de fato diante dele. A contagem agora não é para se algo vai ocorrer, mas para quando algo irá ocorrer. Você sabe que existem dezenas de deveres por serem cumpridos entre o agora (fluído, líquido e mais ou menos voraz) e o algo, mas a cabeça não sai do algo. Este algo não é alguém, não é nome próprio. Pode ser coisa, pode ser situação, o fato é: você não consegue tirar da cabeça que algo está por vir, você anseia por algo, e de tanto anseio, está plantada a sementinha maligna da ansiedade, que irá suprimir todo um tempo a ser vivido (efetiva e trabalhosamente vivido) como um singelo intervalo, entre o agora e o algo




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Soterrada.


Era um dia bom, daqueles em que a percepção de detalhes alheios estava bem apurada. Já havia, inclusive, sido surpreendido no caminho, e caminhava na direção de um belo atacadão. Na lista de compras um verdadeiro kit longevidade: mortadela, azeitonas, linguiça e Colônia. Já com os frios petiscáveis devidamente arranjados em minha mão esquerda, caminhei na direção do corredor Colonial. De longe observei, primeiro, um largo carrinho cheio de mercadorias vistosas formando breve relevo e, ao lado dele, apoiado neste, um rapaz. De longe consegui constatar que ele falava, pois mexia os lábios e havia algum som vocal. Conforme me aproximei, passei a ouvir melhor sua voz. De fato, ele falava. Mas não falava ao celular, e nem havia ninguém próximo a ele. Pensei: "eu também falo sozinho às vezes". Mais alguns passos e ouvi uma voz feminina lhe respondendo algo. Parei próximo a ele, olhei os preços de produtos que estavam próximos dali, nenhum deles me interessava, eu queria mesmo era descobrir de onde vinha a voz. Havia uma garota dentro do carrinho, soterrada embaixo de pacotes e mais pacotes de linguiça calabresa, bolachas recheadas, arroz e produtos para higiene. 


domingo, 16 de novembro de 2014

Festa.


À minha direita um homem não calvo e sem cabelos brancos brinca com uma garotinha que possui janelinhas em dois dentes frontais.
À minha frente uma senhora desliza o trêmulo dedo indicador sobre a tela de um smartphone para ver fotos recentes de seu bisneto.
À minha esquerda os membros de um casal há muito tempo casado dialogam com uma de suas noras enquanto o filho percorre o salão em busca do filho.
A senhora acompanhada por uma semi-senhora passou apoiada em sua bengala indo na direção dos banheiros e precisou afastar um carrinho de bebê que estava em seu caminho.
Um pouco mais ao longe um moço e uma moça que compõem um casal recém casado bebem água observando com gracejo o zumzumzum inter idades.
Apoiado em uma das paredes do local aquele senhor parecia muito alguém de quem tenho saudades.
Sentado em uma confortável cadeira não bebia nem comia nada apenas observava o universo ao meu redor e o trânsito de histórias vivas entre as tantas pessoas e foi quando constatei em meu hd mental: vida é mesmo coisa que passa.
Ps: não tem vírgula mesmo.





quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Breve história de quem passou a ver o mundo com nitidez.


Dia desses eu estava atrasado, tinha que ir para a zona norte, depois pro centro e depois para Mogi das Cruzes e, antes dessa travessia urbana, precisava ainda almoçar. Um acontecimento inesperado aqui, outro ali e acabei recebendo um convite seu para o almoço. Não neguei.
Enquanto comíamos, quando lhe contava qual seria o meu itinerário naquela tarde, perguntou como seria o trem em que eu embarcaria mais tarde. Nos tempos em que morou em Mogi, o trem que ligava esta cidade ao centro de São Paulo não era elétrico. Foi então que me contou uma história, desta época.
Na história, uma tia sua havia reparado que você esperava o ônibus chegar muito perto do ponto para dar o sinal. Ela desconfiou que você tinha problemas de alfabetização, e por isso não conseguia ler o letreiro do coletivo com agilidade. No entanto, após uma passagem pelo oftalmologista, descobriu-se que era a miopia que se manifestava e embaçava sua vista.
Um par de óculos foi encomendado para você. A ótica ficava no centro de São Paulo, e numa tarde você e esta tia cruzaram a zona leste paulistana, de trem, na direção do centro, para buscar os seus óculos.
Utilizando-os pela primeira vez, você saiu da ótica, caminhou pela Praça do Patriarca, e seguiram a rua São Bento, até o Mosteiro. Foi com os olhos de uma jovem senhorinha ainda encantada que me contou, com um sorriso no rosto, como foi ver todos os detalhes daquela São Paulo, como foi enxergar, pela primeira vez, os ponteiros do grande relógio do Mosteiro. 
Fico imaginando, após ter vestido estes óculos, e visto o mundo com nitidez, quanta coisa não foi vista por você ao longo desta vida, e quantas histórias não existem por me contar em tantos outros almoços.

Feliz Parabéns Vó.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Centenas de pontos vividos/passados cravados no peito - 2/2.


Em uma casa onde todos nós fomos dormir as sete da manhã, não dá pra dizer que eu acordei cedo. O fato inegável daquele sábado é que fui o primeiro a acordar. Ansioso, não me contive muito tempo no colchão, não havia mais sono, e notei que eu tinha um universo em um município por desbravar. Ou melhor, universos por me recordar: eu não tenho medo de arregaçar o corpo todo para a nostalgia entrar e despejar golpes.
É infernal caminhar por entre os caminhos das memórias, sobretudo quando elas possuem locais físicos na cidade tão bem demarcados na cabeça. Mas, dessa vez, não sei (talvez por estar num raro período de "paz"), parecia que seria (e foi) um inferno tão positivo e bacana, quase bonito.
Amarrei bem os cadarços dos tênis e sai, eu não consigo ficar parado quando essas coisas me batem em mente...

A porta de vidro espelhado, é o cenário onde fizemos pose para uma foto pós chuva em janeiro de 2011.
O ponto de ônibus em frente ao banco era o meu oásis após voltar da escola entre outubro e dezembro de 2013.
A pista de caminhada era o meu refúgio nos tenebrosos períodos de 2009 e 2010.
Os carrinhos de lanche onde tentamos construir alguma conciliação em março de 2010 já não existem mais.
Em agosto de 2011 eu resmunguei por meia hora sentado em um banco na pracinha onde havia um coreto. 
Entre fevereiro de 2009 e junho de 2011, em quase todo primeiro sábado posterior ao recebimento do dinheiro, a gente caminhava até o grande mercado da cidade. 
Este imóvel que esta para alugar já foi uma lan house, onde esqueci um celular nos meus primeiros dias por aqui, em março de 2008.
Em setembro de 2009 eu trabalhei num evento em que todas as noites jantávamos neste imóvel que está a venda, ele era uma pizzaria.
No inverno de 2011, rigoroso, cheio de neblina e manhãs geladas, a gente subia essa rua para realizar 'estágios'.
Aquele final de tarde, já em janeiro de 2014, em que o "open happy hour" foi abridor de vontades não contempladas após longas andadas pelos cantinhos semi-escuros da zona oeste.
Aquelas reuniões divertidas, empolgantes e tão cheias de aprendizado, lá embaixo na Avenida Presidente Roosevelt, no primeiro semestre de 2011.

Na ida realizei o caminho mais cumprido, para acessar tudo o que de lembrança eu poderia acessar nele. Na volta, fiz o caminho mais curto (na verdade, com menos ladeiras). Por essas ruas não passam apenas carros e pedestres, diria algum poeta perdido, passam vidas... 
No final, na volta, para finalizar isso tudo com o sabor da glória nostálgica de um peito cravejado de passados bem vividos, parei no supermercado que sempre adorei debochar, por ser tão diário, e comprei meia melancia.
Em um único ponto, pensei carregando a pesada fruta, me orgulho por não ter sido hipócrita: eu nunca reclamei de morar em Marília, como reclamo de morar em São Paulo. Por pior que fossem as fases, a cidade em si nunca me chateou, nunca me baqueou. Não vou dizer que é 'só por isso', mas é 'por esses e outros motivos' que quando caminho por aqui, cada quarteirão é uma saraivada de tiros de memórias em meu peito, desta vez, fazendo abrir largos sorrisos nesta cara tão besta.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Centenas de pontos vividos/passados cravados no peito - 1/2.


Depois de um tempo sem ver, a cabeça esquece que o restaurante tem as mesas retangulares e os bancos redondos, que as partes de madeira destes são brancas, e as de ferro são pretas.
Parece que, dado um intervalo de tempo sem ter os olhos por aqui, a cabeça esqueceu daquela tarde em que fizemos uma faixa escrito "1ª semana de ciências sociais"; bem como, se esqueceu também da outra tarde, em que dissemos: "vamos a prender na parede, quando cair jogamos fora", e, pelo visto, ela ainda não caiu.
Após um bom período sem caminhar por aqui, eu não lembrei que o bebedouro próximo à sala 10 só tem um lado que funciona. Antes, no cotidiano, eu lembrava sempre - e como foi engraçado lembrar que eu lembrava.
Dai vou andando, os olhos percorrem mais detalhes dos espaços, que remetem a mais detalhes vividos nos espaços, que fazem deles espaços físicos privilegiados nos espaços das lembranças. Está tudo guardado no HD da cabeça, e sempre que puder passar os olhos, realizar alguma caminhada por aqui, espero que estes estímulos tão suaves, tão doces (até dos piores momentos), nunca cessem, que nunca sejam esquecidos.
E, por fim, que estas salas e corredores saibam, o quanto sou grato, e que sinto saudades dos tempos em que aqui vivi, estudei, amei, almocei, defequei, odiei, trabalhei, (os poentes de sol mais bonitos que eu já vi), enfim: há centenas de pontos vividos/passados cravados em meu peito por aqui.




domingo, 2 de novembro de 2014

Em tempos pasteurizados.


Aquela hora a gente estava no carro, aparentemente, todo mundo tranquilo já. Os assuntos, no fim das contas, costumam sempre chegar nos mesmos pontos; não sei se nós que somos monotemáticos e limitados ou se, realmente, as coisas estão interligadas assim (prefiro, obviamente, acreditar na segunda hipótese). Era um final de tarde agradável, e por duas vezes chegamos à ideia da "pasteurização": na música popular e na política eleitoral. A forma pode ser boa, mas um conteúdo ácido, talvez crítico, talvez revelador de algo que está intencionalmente escondido por debaixo dos panos da sociedade, não é bem vindo aos ouvidos, e o som tem de passar por uma pasteurização. No outro caso, as coisas tem de ser amenas, evite brigas nas conversas (não deixe que se tornem discussões). Pasteurizar é esquentar muito, em seguida esfriar à beça e, com esse movimento bipolar, eliminar as bactérias (no caso do universo sem metáfora, as do leite). 
Aquela hora a gente estava na mesa, aparentemente, tudo tranquilo ali. Os assuntos eram os mesmos, com retoques de diferenças malexistentes/maledicentes, meras variações decorrentes de algumas semanas, tombos e singelas reerguidas. Um começo de noite agradável. Lembro que ouvi, ouvi, ouvi, minha opinião foi pedida, e não me privei de a expor (diálogos se constroem assim). Eu sempre esqueço que é necessário ser pasteurizado, sem bactérias, sem impurezas, (por isso é bom que conversas ao fim de tarde cheguem sempre nos mesmos pontos). O corpo e a cabeça até passeiam por entre o muito quente e o muito frio, mas toda e qualquer resposta, a todo e qualquer um destes estímulos, tem de ser ao modo pinguins de madagascar: sorria e acene.

Mas, na verdade, entre a metáfora, a limitação e a vista da janela do carro, acho que o laço se dá de maneira forte na segunda, quando olho em volta e penso: "às vezes faz sentido agir pasteurizado".


terça-feira, 28 de outubro de 2014

O trilho de sequilhos.


Eu cresci urbano, morando na cidade de São Paulo, entre as casas de parentes que variavam entre bairros mais ou menos movimentados - por 'menos movimentado' entenda ruas em que é possível que crianças brinquem sem o risco eminente de atropelamentos brutais. 
Tenho breves lembranças de quando era criança e a escolinha em que estudei organizava excursões para sítios e fazendas próximos a São Paulo, onde as crianças urbanas conheciam (ao vivo!) a vaquinha, o porquinho, a galinha. E, acreditem, era tudo muito diferente pra mim - me lembro de quando vi um guia em uma dessas excursões tirando leite de uma vaca, e aquilo foi chocante.
Em razão deste dia a dia urbano em minha vida de criança crescente, algumas coisas nunca fizeram sentido pra mim, como as historinhas da "Turma da Mônica", em que a "rua do limoeiro" era, na verdade, um grande gramado. As historinhas do Chico Bento então, faziam menos sentido ainda: pé de goiaba? nadar em rio? Absurdos inimagináveis para a criança que por goiaba conhecia apenas a goiabada industrial, e por rio tinha a imagem do fétido tietê, que passa perto de casa.
Uma imagem que foi marcante em um desses quadrinhos do Chico Bento era de uma tirinha em que ele marcava o caminho de ida jogando pedaços de pão no chão de grama, para fazer o mesmo caminho na volta. No entanto, pombas e galinhas comiam o pão, e ele se perdia, sem saber como voltar para casa.
São duas e vinte e três da manhã. Estou tomando chá de folha de maracujá para ver se o sono vem, e, um tanto (jamais negarei) pra driblar a ansiedade que me bate no peito desde ontem: é semana de girar o corpo a 180º e ir para longe da cidade debiloidemente urbana.
Ao meu lado direito à uma pequena tigela com alguns sequilhos. Fiz um trilho de sequilhos em minha cabeça (mais ou menos como o do Chico Bento), pensando que cada sequilho comido são alguns instantes a menos entre estar aqui, na capital em que falta água, e entre lá, a cidade que aprendi a chamar de casa em algum interiorzão.
A tigela acabou, o sono não bateu. O menino urbano, que por uma série de planos catacombicos achou que era uma boa voltar pras urbanidades, só deseja o caminhar tranquilo (e de chinelos) pelas calçadas de sua cidade favorita.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Na porta do cemitério.


Passava próximo ao cemitério quando vi um homem parado na porta dele. Diminuí o ritmo da minha caminhada para observar aquela cena. Ele olha fixamente para o chão, na parte de dentro do cemitério. Deu um passo curto e então estava da calçada para dentro. Olhava fixamente para o chão atrás da grande porta de metal, semi fechada. Não sei o que ele via ali. Deixei de diminuir os passos e, estando do outro lado da avenida, parei para o observar. Ele se abaixou lentamente e esticou o braço, levantou segurando algo que eu não via o que era, pois encoberto pela porta. Deu outro curto passo e voltou a estar do lado de fora do cemitério. Segurava um maço de cigarros. O cheirou, o abriu, o cheirou novamente, tirou um cigarro, o cheirou e o colocou na boca. Do bolso da camisa velha e desabotoada tirou uma caixinha de fósforos, acendeu o cigarro. Voltou a caixinha para o bolso, juntando a ela o maço. Entre tragadas e assovios desceu a estreita avenida.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Page cinquant et un.


Concentração, não há, não tenho. Me distraio com a facilidade de algo tão simples que não consigo pensar num exemplo comparativo para minha capacidade de distração, pois me distraí olhando para o lado enquanto pensava em um e esqueci o que pensava.
Naquela tarde eu estudava, e experimentava boas dezenas de minutos ali, com o foco completamente centrado no que lia. A autora do texto havia jogado um novelo de lã e eu estava com o fio em mãos, tendo total noção de onde estava o restante da meada. No entanto, foi quando me virei ao meu caderno para realizar uma anotação sobre o texto que tudo veio água abaixo.
Ao buscar o rodapé da página do texto, para verificar em qual numeração págica estava a frase que me despertou a vontade de realizar uma anotação, vi que era na '51'. Brincando, minha mente balbuciou (em algum protótipo de francês) "page cinquant et un", imitando uma cena do filme da Amélie Poulain.
Não tardou para que minha delirante e avoada mente viajasse para outra situação, um pouco menos cinematográfica, pois vivida numa das minhas tantas casas universitárias (a saber, a segunda).

Aquele era o meu terceiro violão, e naquele momento eu tocava nele uma música composta ainda no primeiro. Na época daquela composição havia encasquetado de escrever músicas sobre livros e filmes, uma delas, sobre Amélie. Ao fim da música vivi uma situação que me bateu como estranha no momento, mas que não tardei em ver com olhos completamente desestranhados.
Basicamente, ali, entre o colchão e a mesa do meu quarto, com dois banquinhos e dois bobos alegres adulto-juvenis (adjetivações em nada negativas) vivi um momento que, após ter batido como esquisito, após eu ter me desestranhado com ele, passei a interpretar como um dos mais bonitos desta juventude - não que exista um ranking destes, mas, que doce lembrança guardada a partir dos meus olhos...

E ai, eu já nem lembrava mais o que eu tinha que anotar sobre alguma coisa que foi dita na página 51 do texto que eu lia...


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Qual o problema com meus chinelos?


Acordei, me olhei no espelho. Não era dia útil de ser mais um inútil pela rua ou por salas semi ar condicionadas. A imagem refletida me trouxe uma certeza: "preciso dar um tapa no telhado, tá feio". Café com leite, pão com manteiga, um calor desgraçado.
Corto os cabelos na Lapa, onde o corte é ao modo fast food popular ou (fast cut): R$10,00 e em 15 minutos o assunto está resolvido. Não há filas de espera, nem papo furado por parte dos cabeleireiros e das cabeleireiras. 
Coloquei uma roupa bem arejada, camiseta que absorve o suor, bermuda de praia e um par de chinelos pretos. Nos tempos em que vivi em Marília era tão comum sair de chinelo nestes períodos de tempos mais quentes (que lá, não são poucos ou brandos). Para ir à aula, para ir ao mercado, para ir ao centro, para ir almoçar nalgum restaurante. Aqui em São Paulo noto não ser tão comum usar chinelos por ai, e hoje constatei mais ainda isso.
Ainda antes de sair de casa, ouvi de meu pai a árida pergunta: "você vai sair de chinelo?", "sim", "põem um tênis", "puta calor", olhar de desprezo.
Entrei em um ônibus, dei bom dia ao motorista (embora já fosse tarde). Dei boa tarde ao cobrador (me corrigindo do ato falho de meu fuso horário). Nenhum dos dois me respondeu, mas o cobrador se deu ao trabalho de comentar com o motorista, alto o suficiente para que eu, mais ao fundo no ônibus, ouvisse: "êta que calorão, bom pra sair desfilando de chinelinho por ai hein?".
Já na Lapa, passando por uma estreita calçada onde vendedores ambulantes, distribuidores de panfletos de bordéis e pedestres disputam espaço, um rapaz gritou: "vai lá chinelão meu parça", olhei para ele, que completou: "que chinelão" e riu. Outro, que vendia perfumes embalados em plástico filme de cozinha, me deu um leve tapa do ombro: "vai chinelão, é hoje que vai levar um perfume?".
Enfim, cheguei a um dos salões de dar tapas em telhados, assim que coloquei um pé dentro dele, uma das moças com avental escrito "cabeleireira" se aproximou de mim: "olá, é só o corte?", "isso", e foi me direcionando até uma cadeira. "Raspa em volta e apara em cima?", "isso, mantém o corte por favor", "posso aparar a costeleta também", "por favor", "você é ator de teatro?", "de teatro?", "é", "não, por que?", "pensei quando te vi entrando de chinelo, e agora por causa da costeleta, parecem aquelas coisas de ator de teatro", "o chinelo?", "é, parece, sei lá, coisa de personagem, ainda mais com a costeleta".
Com a cabeça já mais arejada, por conta dos cabelos aparados, voltei para casa pensando: "São Paulo, qual o problema com meus chinelos?", quando notei um rapaz no ônibus olhando para os meus pés com olhar de desdém...


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A verdade por trás do out backs.


Quando algo faz sucesso demais, eu desconfio. Primeiro foram os comentários de amigos e amigas, dai vieram as fotos nas redes sociais, depois o crescimento da presença da marca em mídias diversas (televisão, internet, placas nas ruas), em seguida o crescimento do número de restaurantes, se tornando uma verdadeira rede na cidade de São Paulo. Pensei, "o que há por trás desse tal de out backs? De onde vem tanto sucesso? Que sabor é esse que as pessoas carnívora$ comentam?".
Fui investigar.

Na região oeste do estado do Texas, nos Estados Unidos da América (início do hino do país + imagem da bandeira tremulando), na pequena cidade de Allpine, havia uma família gente boa, numerosa e espalhada entre cinco sítios no mesmo terreno. Andava-se pouco (cerca de 150 metros) por entre plantações de milho para se ir de um sítio a outro, onde porcos, galinhas e algumas cabeças de gado eram criadas para usufruto de cada grupo familiar nuclear. 
No entanto, muitas vezes uma família matava um porco ou um boi mas não o preparava em sua própria casa. Geralmente, aos domingos, após a missa na igreja no pequeno centro da cidade, já havia um animal abatido para ser preparado em uma casa específica, a do tio que era muito arteirinho, muito bom cozinheirinho e muito maconheirinho.
Quando chegavam com o animal morto na casa dele, batiam o pé bem forte no tablado de madeira da entrada e gritavam: "ôh Tio Becks, tá aqui o porco/boi". As receitas do Tio Becks eram sensacionais, todos saíam de lá lambendo os dedos e arrotando maravilhas mil.
A fama de sua culinária começou a crescer, primeiro na pequena cidade, com as outras famílias dos sítios mais distantes. Após um tempo a própria família criava animais para serem abatidos, preparados por Tio Becks e vendidos na cidade. Pessoas de cidades ao redor começaram a se deslocar para Allpine para degustar suas iguarias carnívoras.
No entanto, para fazer sucesso em um estado historicamente reacionário e anti-liberdades individuais como o Texas, seria necessário mudar o nome dos pratos do Tio Becks. A saída, então, foi disfarçar o assunto, passando as carnes temperadas e preparadas por ele a serem vendidas sobre o nome de "Out Backs", que depois, ao começar a fazer sucesso entre as camadas média e alta em uma cidade também reacinha, mas no Brasil, a capital do estado/república semi-independente de São Paulo, veio também bem a calhar (e ninguém percebeu a origem da coisa toda).
Obrigado, de nada.

Ps: eu estava com fome quando pensei nisso.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Três personagens numa noite fria.


Na verdade não fui eu quem chegou cedo, chegaria na hora supra combinada, foram os relógios dos outros que andaram noutras sintonias. Respirei fundo e abri mão de deixar isto se tornar uma cólera ou sentimento do gênero. 
Descobri como chegar onde deveria ir utilizando o transporte público daquela cidade - na qual, da outra vez em que estive, havia andado apenas alguns metros - e em menos de uma hora cheguei no local combinado. Ainda fechado, o jeito foi andar mais um pouco.
"Onde tem um carrinho de lanche por aqui?", "ali naquela esquina, passando os prédios". Embora seja um amante incondicional dos carrinhos de lanche das cidades de interior, não iria comer, pois não estava com fome. 
O terreno da esquina, onde estava o carrinho que me foi indicado, era cerca de um metro mais alto que o nível da calçada, totalmente cercado com uma grade de grosso arame liso e com uma escada para o acesso ao mesmo e às suas mesas de plástico com marcas de cervejas estampadas.
Pedi, aliás, uma cerveja.
Era uma noite fria, a avenida longa e larga, com um canteiro central igualmente largo, funcionava como um corredor de ventos frios. 

Dentro do carrinho de lanches (um trailler com duas geladeiras e uma chapa) trabalhava um homem de bigode preto e grosso. Ao me ver levando uma guitarra perguntou se eu era de banda, respondi que sim e que estava na cidade para tocar. 
Conversamos, e ele falou: "não era pra eu estar nessa vida de chapeiro, era pra eu estar que nem você, pra lá e pra cá tocando. Eu tinha uma banda, a gente tocava samba e pagode, toda semana a gente fazia três shows por ai", falou o nome de um monte de cidades em que tocou, e encerrou a história com tom trágico: "tivemos que acabar a banda, pois tinha uma com o mesmo nome no Rio de Janeiro, e eles nos processaram, ai com o prejuízo não deu pra seguirmos".

Na frente da rústica lanchonete, um homem mais velho fumava sozinho. Gentilmente trocou uma nota de 100 por cinco de 20 para mim, para que eu pudesse pagar a minha cerveja (bebida em cidade de interior, mas com preço da capital). Em clima de cordialidade, querendo retribuir o favor que me fizera, lhe ofereci um copo de cerveja, ao que ele negou, justificando: "vou recusar, muito obrigado, eu meio que sou segurança daqui, entende? Não posso beber. Eu fico aqui na frente, vigiando a movimentação, vendo se está tudo certo. E, outra coisa, eu tenho um problema, não posso beber cerveja por que se não eu me mijo todo, olha", abrindo as pernas e mostrando as calças molhadas nas partes internas das coxas, entendi...

Enquanto bebia o meu último copo de cerveja, ainda na calçada, ainda com o segurança e ainda sem que houvessem meus parceiros chegado (o que não foi um problema em momento algum, como mostra essa crônica), um rapaz se aproximou daquela esquina.
Cumprimentou o homem dentro do trailler, e foi cumprimentado, cumprimentou o senhor-segurança, e foi cumprimentado, me cumprimentou, e foi cumprimentado. Começou a me fazer perguntas, sobre de onde eu era e o que fazia por ali, pois nunca havia me visto. As fez sem agressividade ou coisa que o valha, e começamos a conversar. 
Após algum tempo comentou com o segurança: "é o que eu sempre falo pra você, não aguento mais essa vida de ficar parado aqui nesta esquina, que saco! É toda quinta, toda sexta, todo sábado. Aqui é um dos piores lugares pra ficar de ponto, mas se eu for pros melhores tem 'aquelazinhas' que podem, sei lá, me bater, me esfaquear, ai o que sobra pra mim é ficar aqui, até que chegue um homem bem rico, se apaixone por mim e me leve pra um lugar melhor". Olhou para mim: "moço, essa sua banda que vai tocar aqui é famosa? Vocês ganham bastante dinheiro? Posso viajar com vocês?".


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Lapso de sanidade.


Interrompi o meu trabalho de artesão das palavras e fui fazer coco. O celular, conectado na internet de casa, estava no bolso, e foi espontâneo pegá-lo em mãos e passar os olhos nas atualizações nas redes sociais, enquanto meu coco se livrava do meu corpo. Vi uma postagem, não me recordo se no Twitter ou no Instragão (ou em ambos), sobre ser a "semana Mukeka di Rato" no site da Läjä. Entrei no site, e fui olhando LP's, camisetas, moletons e CD's que eu sei que não comprarei, pelo menos não nos próximos 60 dias, de vacas magras para meus consumismos. Ainda sentado no vaso, comecei a pensar, mesmo depois que o coco já repousava na água da privada, que o "responsável" pela Läjä, o Mozine (e tantos outros rapazes que encontro, conheço, 'só olho', do hard core, do 'independente', do rolê das bandas etc) são, na verdade, 'tios'. Já faz tempo que passaram daqueles '20 e poucos anos' que o Fábio Jr. vendia como sendo o melhor período da vida e seguem tocando seus barcos, com suas bandas, as 'mesmas camisetas', afazeres diversos. Como que num lapso de irreconhecível sanidade, ao passar o papel higiênico de baixo para cima, pensei com uma calma raramente vista "por aqui" (vulgo: minha cabeça): parece que chega um ponto em que nada é mais tão espontâneo ou instantâneo assim, e que as coisas que fazemos, bom, vamos fazê-las para poder continuar as fazendo por mais tempo, e assim seguir a vida (não sei, o nome pra isso é "investir a sua vida em algo"?), até o momento em que a descarga da vida é dada sobre nós, como realizei com o coco que havia acabado de fazer e que a pausa para realizar este me permitiu esta singela reflexão. O lapso de sanidade está em não ter achado esse papo de 'viver para o futuro' algo tão ruim assim.

Usei um sabonete phebo vermelho para fazer o filtro de cor dessa foto.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

cinco.


lembro de quando cheguei e parei e olhei e perguntei pra mim mesmo se era aquilo mesmo que eu esperava ou que eu queria, perguntei fundo, mas vi que era meio inútil perguntar, por que eu já tinha colocado meu nome em tudo mesmo. pouco a pouco foi ganhando cara, foi ganhando expressão, curva, um pouco de cor e um pouco de outras coisas que iam caindo pelo chão e eu simplesmente deixava, e era gostoso pra caramba assim. quer dizer, teve uma época que foi pesado e estranho, mas eu fui deixando e consegui ser ligeiro pra ir deixando mesmo; às vezes eu nem lembro que teve um começo de tarde nazista em que eu bati com a cabeça na pia do banheiro, de bate pronto eu costumo me lembrar de tantas outras situações. e quando eu me lembro disso tudo, eu tenho saudades de quando a gente corria de uma polícia imaginária que sempre existiu na minha cabeça (talvez você nem soubesse que estava correndo disso, e talvez eu jamais vá saber que estava correndo de algo imaginário que existia na sua cabeça), e olhávamos para trás mas sem olhar, por que, na verdade, eu nunca virava a cabeça pra trás, era sempre um pretexto pra virar pro lado e olhar pra você mais um pouco. mas a polícia, eu sabia que era imaginária, mas sempre achava que estava atrás de nós, pois "quem não deve não teme", e como eu temia que aquela imaginação não o fosse e fosse, sim (caramba!) uma polícia atrás de nós. como é que você brincava?: "lá vem a polícia de não sei o que", em tantas situações. e teve aquela vez também que eu estava tranquilo, você também, nós estávamos tranquilos, e ai eu tinha certeza de que não havia polícia atrás de nós, na verdade isso nem passava pela minha imaginação nessa e noutras situações, em que era tudo mais tranquilo, mais arrumadinho, sem pressa; e eu tenho saudade disso também. por que era tudo tão tranquilo e certinho, mesmo quando o (aparente) errado era o chão em que pisávamos ou estava ali, bem defronte aos nossos narizes e fingíamos que tava tudo certo, que não tinha nada, nem pessoas de olho nem polícias (reais). passou um tempo de frio, passou um tempo de mais ou menos, passou um tempo de calor e ai parecia que ia vir outro tempo de mais ou menos mas não veio, quer dizer veio, mas não veio; e no tempo de calor eu não tinha preocupação com as polícias imaginárias, mas sim com as baratas concretas que pareciam brotar de todos os cantos, elas nunca tinham aparecido por ali, mas logo que apareceu uma já vieram mais três no mesmo dia, depois era quase todo dia e eu não conseguia dormir sem um sapato do meu lado ou os seus golpes de judô, e eu sinto falta disso também. e ai depois de correr e olhar pra trás (que na verdade era pro lado) e correr e ter lua e ter sol e ter tido frio e estar começando a ter calor e ter mais calor por ali e tudo, era o momento em que, não que o corpo parava, os corpos, mas sim que havia alguma mínima concentração pra se parar, parar o corpo mesmo, e parar de pensar em polícias, baratas, certo, errado, frio, calor, sol ou lado. até a hora de abrir os olhos, fazer aquele check up tão comum a quem passou a noite fugindo de polícias imaginárias, respirar fundo colocando pra dentro do corpo a poeira e as raspas de tinta da parede que descascava e caía pelo chão perto do colchão embaixo de mim. tudo era sujo, tudo tinha defeito (do chuveiro ao armário, do sofá à porta da cozinha) mas tudo era certo, toda a polícia imaginária que sempre existe na minha cabeça olhava praquilo e dizia que era certo. "mas caramba, já passou o tempo de uma gestação, você não tem vergonha na cara não?", "não, eu tenho saudade, estampada na cara".


Pinocchio Ltda.


Foi em 2007, eu assistia televisão na sala de casa e parei em um canal de videoclipes, talvez tenha sido na Mtv, que deus a tenha. Passava um compilado de imagens muito bem filmadas que dava vida visual a uma música do Evanescense. Nunca gostei da banda ou do estilo, mas fiquei o vendo. O videoclipe e a música falavam sobre mentiras, de um modo bem básico e direto: a moça chorava e esperneava enquanto a música ecoava versos e refrões sobre o tema, pois tudo no mundo é uma mentira, não se iluda, é mentira, é falso, é tudo falso, uma grande mentira, uma enorme enganação; a ideia era essa. Meu pai apareceu por lá, e ficou vendo o tal videoclipe. Não se furtou, claro, de fazer um comentário extremamente crítico àquela peça. Claro que eu não lembro as palavras que ele disse, faz sete anos isso, mas foi algo como: "sabe, não sei a quem interessa ficar enfiando na cabeça dos adolescentes que nada presta, que está tudo errado; parece que tem uma indústria que quer fabricar a ideia de que é tudo errado e ruim, que nada presta no mundo". Sei lá se existe essa industria, e se existir, devo dizer, eu sou mais um produto dela, por que os anos passam, e eu ainda acho tudo uma mentira, uma pinocchisse absurda, um saco, e calculo as enganações sem fim que circulam por ai, nos discursos, nas práticas, nos ônibus, nos formulários, nos remédios etc.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Rabiola de nós mesmos.


1.
Vesti o meu melhor e único blusão de moletom preto, com bolso na frente e capuz embutido. Desci e fui ao banheiro, me olhei no espelho, pensei: "eu não troco esse moletom por um beijo apaixonado. Ou por uma dúzia deles".
2.
Coloquei para eclodir por toda a sala, cozinha e quintal o melhor som dos tempos recentes. "Tem mais gente na casa, talvez incomode". A música tem esse poder de preencher todo e qualquer espaço, seja lugar, seja corpo, seja essa matéria inominável, mas sentível que é esse 'eu'.
3.
Abri sobre o chão do quintal uma cadeira de praia, que se conheceu o prazer de entrar em contato com as areias praieiras por uma ou duas vezes, foi muito. "Somos urbanos, numa cidade mais questionável que universitário em show de milhão". Ao meu lado, algumas plantas (sem flores).
4.
O vento frio não seria suficiente pra fazer subir uma pipa, mas o é para que eu sinta as canelas semi geladas, quase como picolés. "Alcatrão refresca o pulmão e é boa companhia ao café", é um bom modo de sentir o vento (por fraco e pouco circulante que seja) nas canelas e no rosto.
5. 
Vesti o capuz (pois ele não é enfeite). Acabou a música e passou o carro que pede para olhar para a Cândida. Deitei um pouco mais a cadeira de praia. Goteja uma chuva fina, estou no coberto. "Deus é o nome que deram pras coisas que não possuem sentido lógico explicável dentro dos ditames e domínios humanos; é tudo aquilo que foge ao controle das mãos, dos pés, do olhar etc".
6.
Um pássaro começou a berrar em algum telhado próximo. Outro o acompanhou. "Às vezes parece que toda a vida tá interligada, como se cada vivência e/ou época fosse uma tirinha de saco plástico em uma rabiola da pipa de nós mesmos".


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Name Tade.


"Olha pra esses homens sérios, seus futuros perfeitos, eles vivem e não vivem. Olha esse povo todo com asas de cera se atirando dos prédios. Toda essa gente correndo atrás de nada. E olha pra você: qual é o seu lugar?".
No segundo ônibus do retorno pra casa (embarquei ainda em um terceiro), ao fim de um dia cheio (embora com considerável vazieza em si), levei um chute no cérebro por meio desta música; não sei por que escolhi este álbum para tocar em meus fones de ouvido.

Já deve fazer uns 8 ou 9 meses que voltei a morar em São Paulo ("uma oportunidade única, o stress compensará", hãm). Nove meses parceir@... E eu ainda me pego cometendo o erro metodológico de comparar um passado (não tão) recente assim, de aromas doces e belos, com o presente (entendido como o que é mais recente, no aparente pra frente ou no recordável pra trás) com cheiro de fumaça de coisa podre sendo queimada - aqui, sem metáforas: São Paulo tem esse cheiro mesmo.
Sentado na escadinha do fundo do ônibus lotado, observava as pernas e bundas que, paradas no mesmo trânsito que eu, levavam corpos do trabalho pra casa (nem asas de cera existem pra dar uma enganadinha). Levei 2 horas e meia pra chegar em casa, registre-se de passagem.
Tirei os fones das orelhas, alguns minutos no silêncio do ônibus lotado. Quando os retornei para seu lugar de função, e recoloquei a mesma música para tocar, a letra veio diferente: "olha esse homem sentado na escadinha, que presente perfeito, ele vive e não vive", como um milagre bíblico, o mp3 virou um disco riscado em uma vitrola velha, repetindo apenas: "não vive, não vive, não vive".

Numa matemática simples, rápida e auto piedosa, concluí esperançoso: "metade já passou".