segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"O mundo dos adultos".


Em 2006 eu era apenas um idiota mirim aspirante a idiota adulto com potencialidade para realizar especializações dignas de um cretino-profissional. Vivia os meus dezessete ano recém completos e tinha feito um trabalho da escola com dedicação e seriedade, acho que foi o único que realizei com estes adjetivos naquela época. Se tratava do produto de alguns meses de pesquisa no chamado “Alfa – Projeto Monográfico do Colégio Bialik”.
No meu projeto realizei uma breve pesquisa sobre a arte urbana em São Paulo, um trabalho que estava no grupo de “Cidades e Urbano”, coordenado/orientado pelo professor de geografia (o louvável Rui) e que pra mim se tratava de um trabalho de artes – até por que, eu, à época um jovem que colava duzentos adesivos por final de semana pela cidade, era um “sujeito de pesquisa” e me achava artista, sim.
Realmente me dediquei a ele, pois rolava um papo de que quem o fizesse com dedicação ganhava um “Bônus” no conselho de professores, e não seria reprovado no final do ano. Minha estratégia, talhada no começo do ano letivo, então, foi: “vou me dedicar a este projeto que assim não preciso estudar as coisas chatas”.
E me dediquei mesmo a ele: fiz pesquisa de campo, fucei biblioteca da Usp, biblioteca no centro, torrei dinheiro com livro, fiz curso de grafite pra me aproximar dos artistas. Não por menos, três excrescências ocorreram como forma da meritocracia dizer: “este trabalho foi bem feito”.
A primeira delas foi a classificação do mesmo (junto de outros oito de alunos do mesmo ano que o meu) para uma feira de ciências e engenharia na Usp. A segunda delas (não bastasse a primeira, já absurda pros meus intuitos vagais da época) foi ele ter sido reverenciado como “melhor trabalho na área de ciências sociais aplicadas” – e me lembro de resmungar: “que porra é essa de ciências sociais? Ainda mais aplicadas. Essa merda é um trabalho de arte, não tem nada de social”.
A terceira excrescência meritocrática, para mim a mais espantosa de todas, foi o raio do trabalho ter sido chamado para apresentação num tal “Cientistas de Amanhã”, evento para apresentações de monografias realizadas por estudantes de ensino médio, organizado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (a SBPC). Ocorreria em Florianópolis e “pagariam” tudo para que eu chegasse lá e falasse sobre o trabalho.
Porém, para apresentar o trabalho neste mega evento da intelectualidade brasileira, segundo meus professores, seria necessário “reescrever o trabalho todo”, uma forma de fortalecê-lo para a apresentação, torná-lo melhor, mais coerente, mais cabível nas propostas e expectativas dos organizadores.
“Mas, João, se o trabalho já foi selecionado e tudo, não é só montar a apresentação e chegar lá que tá tudo certo?”, perguntei algo assim ao coordenador geral do projeto. E ele respondeu algo como: “Gabi, a gente tem que botar pra fuder, e refazer o trabalho, reescrever tudo com mais orientação, mais atenção, mais carinho vai valorizá-lo pra caralho”.
Sai da escola chateado esse dia, pensava: “poxa, será que meu trabalho ficou ruim do dia pra noite? Pra que reescrever essa parada?”.
Quando estava já chegando em casa, de dentro do ônibus vi que dois grafiteiros do meu bairro, com os quais realizei parte do projeto e das entrevistas, estavam pintando um muro, e desci do ônibus uns pontos antes, para papear um pouco com eles. Um deles perguntou como andava aquele trampo que eu tinha feito, e eu contei a novidade da seleção para apresentá-lo em Florianópolis, me lembro deles vibrarem e do outro dizer algo como: “porra, que foda, a gente tá sendo visto que nem artista, valeu mano”.
Mas já cortei a festa, dizendo que o professor indicou que teria de reescrever o trabalho todo e que eu não entendia como o trabalho havia se tornado ruim do dia pra noite. Um dos rapazes, sendo bem sensato, disse: “ah fi, isso é mania do mundo dos adultos, esse papo de refazer, melhorar, de nunca estar bom. Acostuma que vai ser sempre assim”.

E sempre que é assim, que o que era bom fica ruim e tem de ser refeito de repente, eu me lembro desse dia.


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