segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Gabriel, desligue o amplificador.


Dei a última paulada nas cordas da guitarra, e me abaixei na frente do pedestal do microfone. Mexi nos botões dos meus pedaizinhos de efeito. Joguei a distorção ao máximo, criei duas ondas dissonantes com o phaser e o flanger. Me levantei novamente e segurei a guitarra de frente para o amplificador (que não era o que estou acostumado a usar, o que me causou transtornos e infelicidades, em minha própria casa).
A onda ressoou distorcida e disforme. E ressoou até a frase "Gabriel, desligue o amplificador", ser martelada em minha cabeça. 
"Gabriel, desligue o amplificador". 
Logo eu, que tantas vezes já cantei aos berros "while the amps are screaming for us". Desta vez, até o amplificador deveria parar de gritar por mim.
"Tudo bem".
Gradualmente abaixei o volume da guitarra, até o zero. Silêncio retomado, sem cerimônia levantei o pino do amplificador, do 'on' pro 'standby'.
Me ajoelhei ao lado da bateria, o dj começou a tocar aquela outra música, de se respirar a plenos pulmões, que diz que o mundo é um vampiro
Ela chegou ao fim, pensei: "não dá pra melhorar/piorar" - ainda não entendi se melhorou ou piorou. Mas começou aquela outra música, que fala de quando você era jovem. A ouvi sentado na escadinha de saída do palco. Interpretei que é sobre quando eu era jovem. 
Era.

Tudo isso pra dizer que desliguei o amplificador tocando em casa, e ao fazer isso, tive certeza de que era a última vez que o fazia "nesta fase" da vida, "neste local", deste jeito. 
Mais do que desligar o amplificador, Gabriel, lá começou o desligamento de uma fase da vida.



[Fotos: Mariângela Lahr].

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