segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sabores, cheiros e palavras das férias.


Dezembro entra rasgando, junto com o rasgar da penúltima folha ­­­­do calendário do ano.­­­ Já está quente no finzinho de novembro, o corpo já está cansado e os olhos já dobram frente às obrigações do cotidiano.
Este ano, em especial, cansei mais do que nos últimos: ano de decisões importantes, ano extra como aluno universitário, ano de processos seletivos (que, benza deus, acabou por ser apenas um), ano de perdas, ano de muro de Berlim, ano em que voltei para a escola (embora, desta vez, do outro lado da mesa), enfim, ano de muitas coisas, era de se esperar que observasse dezembro surgir no horizonte com um cansaço maior sobre as pálpebras.
Chega o ar mais quente, as chuvas corriqueiras e fortes, já estou habituado ao horário de verão, as lojas penduram aquela porcariada verde, vermelha e iluminada, os mercados possuem pilhas e pilhas de panetones e espumantes, e a minha boca se enche de saliva ao receber das sensações filtradas pelo cérebro a seguinte informação: “um período de férias está chegando”.
E por mais que passem os anos, que os cansaços aumentem, que o passado se torne cada vez maior e mais largo e (alguns passados) mais distantes ainda, os sabores, cheiros e vozes que veem à boca ainda são os mesmos de anos atrás: bolo de banana da minha avó saboreado ao lado dela, a pólvora de bombinhas com o Fabinho e o Renato, e as conversas na sala com meu avô.

Mais do que as saudades que sinto daquelas férias (repetidas durante tantos anos), carrego aqui no peito a felicidade por lembrar que tanto as vivi.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Diário da Raffaela - Suada.


Raffaela saiu da escola. Não no sentido de quem terminou de cursar o ensino escolar básico, tido como obrigatório de ser ofertado a todo indivíduo neste país, e não mais voltará à escola na condição de aluna. Nem no sentido de que teve muitas faltas, foi considerada aluna evadida e, por vontade própria e falta de contra argumentos da família, abandonou os estudos. Mas sim no sentido de que passou por debaixo do arco que compõem o portão da escola, no vetor conhecido como "do espaço escolar para os domínios da rua" (ou "de dentro para fora"). 
Por isso afirmo: Raffaela saiu da escola.
Ela subiu em um ônibus, depois desceu dele, subiu em outro e desceu deste outro também, mas ai não pegou outro. Não. Caminhou por dois quarteirões e chegou em casa. Todo dia fazia esse trajeto.
Raffaela morava com o pai em uma casa em cima de um supermercado em um bairro afastado do centro e das lojas e das melhores escolas e dos terminais centrais de ônibus em uma cidade média que tinha mais do que um terminal central e muitos supermercados e um desses supermercados (o que ficava embaixo da casa da Raffaela) era propriedade do pai dela. 
Raffaela saiu da escola, pegou dois ônibus e chegou em casa.
Para chegar em casa ela tinha que passar por dentro do supermercado (que ela considerava parte de sua casa, especificamente, a dispensa). Eram os últimos dias de aula do ano, final de novembro e o calor começava a morder as glândulas sudoríparas e a causar a efervescência e o fugitivismo bandido das gotas de suor por todo o corpo.
Raffaela passou por dentro do supermercado, o pai falou algumas coisas com ela, até que, enfim, chegou nos espaços privada e puramente de sua casa; ela precisava de um banho, mas antes escreveu em seu diário:

"Merda de mercadinho do caralho que saco essa porra vou ter que trabalhar nas férias achei que ia poder descansar um pouco e ficar tranquila só passeando com a Lú e a Sô mas vou ter que ficar trabalhando aqui pra economizar com funcionário bosta".




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"O mundo dos adultos".


Em 2006 eu era apenas um idiota mirim aspirante a idiota adulto com potencialidade para realizar especializações dignas de um cretino-profissional. Vivia os meus dezessete ano recém completos e tinha feito um trabalho da escola com dedicação e seriedade, acho que foi o único que realizei com estes adjetivos naquela época. Se tratava do produto de alguns meses de pesquisa no chamado “Alfa – Projeto Monográfico do Colégio Bialik”.
No meu projeto realizei uma breve pesquisa sobre a arte urbana em São Paulo, um trabalho que estava no grupo de “Cidades e Urbano”, coordenado/orientado pelo professor de geografia (o louvável Rui) e que pra mim se tratava de um trabalho de artes – até por que, eu, à época um jovem que colava duzentos adesivos por final de semana pela cidade, era um “sujeito de pesquisa” e me achava artista, sim.
Realmente me dediquei a ele, pois rolava um papo de que quem o fizesse com dedicação ganhava um “Bônus” no conselho de professores, e não seria reprovado no final do ano. Minha estratégia, talhada no começo do ano letivo, então, foi: “vou me dedicar a este projeto que assim não preciso estudar as coisas chatas”.
E me dediquei mesmo a ele: fiz pesquisa de campo, fucei biblioteca da Usp, biblioteca no centro, torrei dinheiro com livro, fiz curso de grafite pra me aproximar dos artistas. Não por menos, três excrescências ocorreram como forma da meritocracia dizer: “este trabalho foi bem feito”.
A primeira delas foi a classificação do mesmo (junto de outros oito de alunos do mesmo ano que o meu) para uma feira de ciências e engenharia na Usp. A segunda delas (não bastasse a primeira, já absurda pros meus intuitos vagais da época) foi ele ter sido reverenciado como “melhor trabalho na área de ciências sociais aplicadas” – e me lembro de resmungar: “que porra é essa de ciências sociais? Ainda mais aplicadas. Essa merda é um trabalho de arte, não tem nada de social”.
A terceira excrescência meritocrática, para mim a mais espantosa de todas, foi o raio do trabalho ter sido chamado para apresentação num tal “Cientistas de Amanhã”, evento para apresentações de monografias realizadas por estudantes de ensino médio, organizado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (a SBPC). Ocorreria em Florianópolis e “pagariam” tudo para que eu chegasse lá e falasse sobre o trabalho.
Porém, para apresentar o trabalho neste mega evento da intelectualidade brasileira, segundo meus professores, seria necessário “reescrever o trabalho todo”, uma forma de fortalecê-lo para a apresentação, torná-lo melhor, mais coerente, mais cabível nas propostas e expectativas dos organizadores.
“Mas, João, se o trabalho já foi selecionado e tudo, não é só montar a apresentação e chegar lá que tá tudo certo?”, perguntei algo assim ao coordenador geral do projeto. E ele respondeu algo como: “Gabi, a gente tem que botar pra fuder, e refazer o trabalho, reescrever tudo com mais orientação, mais atenção, mais carinho vai valorizá-lo pra caralho”.
Sai da escola chateado esse dia, pensava: “poxa, será que meu trabalho ficou ruim do dia pra noite? Pra que reescrever essa parada?”.
Quando estava já chegando em casa, de dentro do ônibus vi que dois grafiteiros do meu bairro, com os quais realizei parte do projeto e das entrevistas, estavam pintando um muro, e desci do ônibus uns pontos antes, para papear um pouco com eles. Um deles perguntou como andava aquele trampo que eu tinha feito, e eu contei a novidade da seleção para apresentá-lo em Florianópolis, me lembro deles vibrarem e do outro dizer algo como: “porra, que foda, a gente tá sendo visto que nem artista, valeu mano”.
Mas já cortei a festa, dizendo que o professor indicou que teria de reescrever o trabalho todo e que eu não entendia como o trabalho havia se tornado ruim do dia pra noite. Um dos rapazes, sendo bem sensato, disse: “ah fi, isso é mania do mundo dos adultos, esse papo de refazer, melhorar, de nunca estar bom. Acostuma que vai ser sempre assim”.

E sempre que é assim, que o que era bom fica ruim e tem de ser refeito de repente, eu me lembro desse dia.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Aqui Habita um Professor? - VIII


As quartas feiras são dias infernais na vida deste jovem professor, começam às 5h40min, quando acordo, e terminam normalmente às 20 horas e uns quebrados, quando chego em casa, quebrado.
Ultimamente têm sido seis aulas pela manhã, uma tarde inteira ocupada com algo útil (estudo, descanso, passeio pela bela Vera Cruz) e duas horas-aula de "reunião de professores". 
Após essa maratona, sempre volto para Marília de carona com algum professor e, às vezes, pego carona com um professor que me deixa num dos principais supermercados de Marília. Como foi o caso ontem.
Hoje, quinta feira, quando cheguei pela manhã na escola, travei o seguinte diálogo com uma aluna:
-Sor, vi você no mercado ontem!
-Ontem? - pensei que fosse no mercado de Vera Cruz.
-É, na fila do caixa rápido.
-Ah, pode crê. Lá em Marília?
-Isso. Mas - começa a rir - cê não toma banho não sor?
-Tomo sim pô, por que?
-Você tava com a mesma roupa que deu aula.
-Brodi, tava com a mesma roupa por que tinha acabado de sair da escola. Passei o dia aqui ontem!
-Ah tá - achei que o papo tinha se encerrado, quando a menina me solta: e por que que você tava comprando três cervejas, um pacotinho daqueles de linguiça, iogurte, pão, amendoim e um outro negocio? É só isso que você come?
(...)

Desde que começou essa brincadeira de dar aula, notei como "encontrar com o professor" em algum lugar é bacana pros alunos. Lembro-me, aliás, de como achava isso bacana quando era aluno.
Acho curioso esse tom de "personalidade pública" que os alunos (que gostam do professor, claro) dão para nós quando nos encontram por ai. Apresentam pro pai, falam pra mãe quem é o adulto que estão cumprimentando, dizem pros colegas que nos encontraram, gritam do outro lado da rua para chamar nossas atenção etc.
Porém, o detalhismo desta aluna para observar o que havia em minha cestinha, realmente me assustou...


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quem é Ana?


Breve relato de José Gomes Neto - XI:

"As coisas estavam mornas. Não aquele morno de cinema, aquele morno de cartório. Aquela falta de paixão. Aquele carinho que é áspero. Aquele sexo que é mero cumprimento da burocracia afirmativa do 'estamos juntos'. É. E então, nos encontramos mais uma vez. Jantamos mais uma vez. Já não estava tão legal. Nos gostamos, mas falta aquela explosão. Falta o rebite pros caminhoneiros dos nossos peitos. Sugeri uma pizzaria nova (pelo menos nisso buscar alguma mudança), e nela fomos bem recebidos. Inclusive, bem recebidos pela promoção de vinhos argentinos. Uma pizza, uma garrafa. Sugeri um motel diferente. Fomos. E, não sei ao certo por quê, ali (sob o olhar atento do espelho de teto) acabei por dizer um nome diferente: Ana. A tristeza também foi diferente. Correr para o banheiro, chamar um táxi, ir embora aos prantos. Nada do que eu disse adiantou - com razão. E até agora eu ainda não descobri quem é essa Ana, que chegou aos ouvidos de quem não mais me Ama, após pular da minha boca - em plena cama".

José Gomes Neto,
1 de Março de 2006,
Não conhece nenhuma Ana.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Gabriel, desligue o amplificador.


Dei a última paulada nas cordas da guitarra, e me abaixei na frente do pedestal do microfone. Mexi nos botões dos meus pedaizinhos de efeito. Joguei a distorção ao máximo, criei duas ondas dissonantes com o phaser e o flanger. Me levantei novamente e segurei a guitarra de frente para o amplificador (que não era o que estou acostumado a usar, o que me causou transtornos e infelicidades, em minha própria casa).
A onda ressoou distorcida e disforme. E ressoou até a frase "Gabriel, desligue o amplificador", ser martelada em minha cabeça. 
"Gabriel, desligue o amplificador". 
Logo eu, que tantas vezes já cantei aos berros "while the amps are screaming for us". Desta vez, até o amplificador deveria parar de gritar por mim.
"Tudo bem".
Gradualmente abaixei o volume da guitarra, até o zero. Silêncio retomado, sem cerimônia levantei o pino do amplificador, do 'on' pro 'standby'.
Me ajoelhei ao lado da bateria, o dj começou a tocar aquela outra música, de se respirar a plenos pulmões, que diz que o mundo é um vampiro
Ela chegou ao fim, pensei: "não dá pra melhorar/piorar" - ainda não entendi se melhorou ou piorou. Mas começou aquela outra música, que fala de quando você era jovem. A ouvi sentado na escadinha de saída do palco. Interpretei que é sobre quando eu era jovem. 
Era.

Tudo isso pra dizer que desliguei o amplificador tocando em casa, e ao fazer isso, tive certeza de que era a última vez que o fazia "nesta fase" da vida, "neste local", deste jeito. 
Mais do que desligar o amplificador, Gabriel, lá começou o desligamento de uma fase da vida.



[Fotos: Mariângela Lahr].