sábado, 2 de novembro de 2013

Carnificinas de Paixão - Oito.


O jovem casal heterossexual branquinho com roupas bem limpas cabelos lisos e barba bem feita (que agradaria a qualquer senhor ou senhora com vestígios de ditadura correndo pelas ideias) se sentou no banco do ponto de ônibus.
Uma senhora atravessou a avenida, bem velhinha bem branquinha com um sapato de salto e uma roupa toda bem engomadinha e um colar bem douradinho. Se sentou no mesmo banco, ao lado do casal.
Puxou assunto - perguntou se estavam lá fazia tempo, disseram que sim. A senhorinha começou, então, a dizer onde estava, o que fazia, pra onde ia, onde morava e: "vocês são namorados?", "sim", disse a moça com um sorriso no rosto e apertando mais forte a mão do moço.
"Ai, que delícia!", exclamou a senhora, "eu lembro dos meus tempos de menina, que comecei a namorar. Ai como é gostoso! Me convidem pro casamento hein?". 
Os jovens, encabulados, riram. O ônibus surgiu na rua, se levantaram, a senhora também.
Antes de subir no veículo, ela olhou mais uma vez para o jovem casal, sorridente, e disse: "o amor é lindo não é mesmo?".
"O amor é foda", disse a moça.
A velhinha desfez o sorriso, subiu no ônibus (se sentou nos bancos amarelos, preferenciais) e, lá do fundo, o casal a ouviu dizendo ao cobrador: "essa juventude não sabe nem amar sem falar besteira, tá tudo perdido".
*
Ele e ela iam para a casa dela. Quando chegaram lá se amaram, de um jeito foda. 
Foda.


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