terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Seis.


Dia de pagamento que cai em véspera de feriado rima com supermercado lotado. Toda fila de caixa é representação, das mais legitimas, de quizumba em porta de formigueiro quando se inicia chuva.
Carrinhos e mais carrinhos entopem os minúsculos corredores, passagens obrigatórias para que “produtos das prateleiras” se tornem “bens pessoais”. O “bip bip bip bip” das máquinas à laser vermelho, leitoras de códigos de barras, é ensurdecedor e incessante.
Uma pintura retratista do caos contemporâneo e capitalista se faz ante meus olhos.
A vez de passar minha breve compra está distante de chegar, e observo tudo ao meu redor, podendo dedicar a maior atenção possível a todos os detalhes, até ser interrompido por um rapaz, que passava compras junto de uma mulher, no caixa em cuja fila eu estacionei o meu carrinho. Passou apressado, chegou até a dar um leve encontrão em meu ombro, e disse à mulher que ele acompanhava ter se esquecido de “um negócio”.
Alguns instantes passam (não sei dizer quantos minutos permaneceu distante da fila do caixa) até que retorna com algo em mãos – dizer “com um produto em mãos” seria um substrato de desumanidade da parte deste escritor. A mulher que o acompanha observa, de costas ao caixa – e ao homem que retorna – os funcionários do supermercado que guardam suas compras em caixas plásticas.
O homem apóia a mão que nada segura num dos ombros dela, que, então, tem a visão estimulada pela orquídea que ele trazia em mãos, e a audição estimulada pelo “parabéns meu bem, eu te amo”, que ele lhe diz.
Ambos tem o paladar e o tato – lingual, corporal e cardíaco – estimulado por um beijo e um abraço, repletos de paixão.



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