quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Quatro.


Não sou muito de gastar com coisas luxuosas. Aliás, não me ligo muito em coisas usualmente luxuosas. Luxo pra mim é aquela coisa boa da vida: estar com gente que faz bem pra nós, estar em situações e em locais que fazem bem etc.
Tenho meus luxos e meus consumismos, específicos e reduzidos, tanto ao tamanho do que [mal-e-má] recheia os bolsos, quanto à noção de que algumas coisas são luxos supérfluos e não-vitais a mim. Tomar uma cerveja com os amigos, ir a um show que me toca no fundo do coração, ir a um jogo do Corinthians, são coisas vitais.

Sucrilhos, não é vital. Mas tem lá o seu sabor, o seu gosto nostálgico de fim de infância de classe média assistindo programa esportivo em final de tarde na televisão, ou rindo e me babando de leite frente ao glorioso Chaves. Acho que por isso, vez ou outra, bate uma vontade do leite gelado cobrindo levemente uma volumosa porção de sólidos duros amarelados recobertos por açúcar branco.
Certa manhã [ou será que já era a tarde?] ela foi embora. Tinha que ir pra casa, reunião de família, almoço com parentes, algo do gênero. Após ela ter ido embora, por consequência lógica de um cara que mora sozinho, passei a estar sozinho em casa. 
Era sábado, e, solitário - após saborear beijos e sorrisos - tive vontade de comer sucrilhos - sei lá por qual razão.
Sabia que a conta bancária alcançava já os tons mais escuros possíveis na escala cromática dos vermelhos universais, e que não havia hipótese palpável de gastar dinheiro com este luxuoso alimento.

Decidi mandar o sucrilhos às favas, bem como, a vontade de saboreá-lo, e permaneci jogado no colchão ainda suado, pensando - profunda e desejosamente - na pessoa com quem eu havia suado a pouco por ali. Que delícia de madrugada [ou será que ainda era manhã?] vivera a pouco. 
Acendi um cigarro, mas meu corpo pedia sucrilhos. 
Passei um café, mas meu corpo pedia sucrilhos.
Tirei um cochilo, e nele sonhei com aquela moça tão linda - de sorriso fácil e beijo envolvente - mergulhada numa piscina de lona plástica [daquelas de mil litros] repleta de grandes flocos de milho açucarados recobertos por leite branco e gelado.
"Chega", decretei entre lençóis, "preciso de sucrilhos com leite, para aplacar esse desejo, para incinerar esse peito, para contemplar essa paixão!".

Tal qual o deus cristão, com seu adãozinho e sua evita, criei eu mesmo meu próprio sucrilhos: entre dois panos de chão martelei uma garrafa não retornável de cerveja, até que se tornasse uma série de pequenos cacos amarronzados, os coloquei em uma vasilha plástica e cobri com leite, os comi com gosto, em colheradas bem cheias, como se fossem o melhor dos sucrilhos feitos de milho em formato redondo com pigmentação e aromatização de chocolate.
Pois, apenas para nomear de paixão (com todo o gabarito que for possível), sou capaz de mascar vidro, para sorrir com a boca escorrendo em sangue, saliva e leite, dizendo: "volte logo, meu coração num guenta você tão longe".





Pois, luxo mesmo, na minha vida, é o peito pulsar e o sangue correr mais fino, por pura paixão.

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