terça-feira, 29 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Sete.


                      Quando tão apaixonado,

                 Que o colchão vazio,


      Só com o seu corpo pelado,

                             Parece qualquer terreno,
                             Seco e esturricado,
                             Em que brota aquela flor rara,



                 Que nasce no cerrado.





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dois de Outubro de Dois Mil e Treze.


Meu nome: Gabriel.
Por aqui me chamam: Coiso.
Meu estado físico: cansado.
Meu estado emocional: apaixonado.
Minha ocupação: estudar.
Minha roupa: camisa de flanela.
Minha armadura: camisa do Corinthians.
Minha respiração: ofegante.
Meus dentes: não escovados.
Minhas pernas: pulsando.
Meus tênis: furados.
Minha bolsa: cheia à metade.
Meu espírito: vitorioso.

Minha síntese: ansiedade.

E assim se prevê que será em todo período decisivo nesta vida (com breves alterações nos quesitos dentes e tênis).
*
E um beijo apimentado pra quem me aguentou naqueles dias tensos.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Isto não é apenas um show.


“Dia 13 de Setembro tocaremos em Bauru, ajudem a divulgar”, foi um twitte publicado no perfil da minha – sem hipérboles – “banda favorita”.
Como ocorrera nas outras duas vezes em que algo deste gênero (e envolvendo esta banda e cidade) foi publicado em redes sociais nos últimos seis anos, prontamente disse: “eu vou”. E eu vim.
Todas as três vezes (2009, 2010 e agora, 2013) foram completamente diferentes em si. A vida muda rapaz – e se viajei alguns quilômetros e gasteis alguns vinténs nestas ocasiões, foi por sempre crer no que diz uma música: “vem dar valor ao que é bom nessa vida, que é tolice viver por viver (...)”.
Desta vez sai da escola, onde tento me habituar com a idéia de que “sou professor”, e vim para cá, Bauru. Cheguei cedo: a casa em que ocorrerá o show abre apenas às onze da noite, e eu desci do ônibus na rodoviária, precisamente, as duas e vinte e sete da tarde.
Havia o intuito de comprar ingresso ao preço de antecipado, e uma grade de horários dos ônibus que me levariam de Marília à Bauru que não contribuía para que tal ação fosse possível e, outro fator importantíssimo para ter chegado cedo: para mim não se trata apenas de dizer “vou em um show” ou “vou pra um rolê” ou, mais ainda, “vou consumir um serviço músico-artístico-cultural”.
Pra mim tem de ser um dia, cujo ápice será o show, e que tem de ser vivido, sentido. Para se chegar ao ápice dele plenamente, há de existir espírito, vida, vivacidade. Há de ter dia no dia, noite na noite.
Caminhei pela cidade sem ter o que fazer; comprei um livro, uma bermuda (tava muito quente, e viajei de calça), tomei cafés; escrevi dezenas de idéias em meu caderninho de capa vermelha, redigi alguns “próximos passos” para a vida; centenas de sms’s foram trocados (os destinatários são especiais). Comi cookies integrais, um pastel, tomei uma coca, um iogurte, uma rainequem, bolachinhas assadas sabor peito de peru foram engolidas, conversei com estranhos, pedi e – pasmem! – dei informações sobre caminhos naquela cidade (vocês sabem, eu tenho um passado por aqui...).
Se isso aqui fosse uma propaganda de cosméticos, poderiam dizer que eu tive “um dia avon” ou que vivi “momentos natura”.  
A verdade, entretanto – e esta foi uma ficha que me caiu caminhando positivamente entediado, me encontrando comigo mesmo de uma forma deliciosa – é que faz nove anos que eu ouço e gosto dessa banda, que faz oito anos que eu os persigo por ai (São Paulo, Bauru, cidades do Abc), que faz seis anos que semanalmente (ou quinzenalmente, depende) eu visto uma camiseta com a frase “e que talvez teu mundo não tenha lugar pra mim” impressa (e já desbotando) nas costas.
Pra mim isso tudo – andar entediado, músicas, CD’s, shows, camiseta, adesivo colado na cômoda do quarto – faz todo o sentido do mundo, do “meu mundo” (pra seguir, de novo, a lógica dos comerciais de cosméticos). E que no “meu mundo” tem, sim, lugar pra mim – coisa que bestamente neguei nalguns períodos.
Enfim, após todos os anos “indo atrás da banda” (sendo “macaco de auditório”, como diz meu pai) entendo que, na verdade, não estou meramente indo atrás de uma banda (de um show, de um role, de um serviço músico-artístico-cultural). Estou indo atrás de um momento, de pouco mais de uma hora (às vezes nem isso) de músicas que conheço bem. Estou indo atrás de palavras, de acordes que, ali, no frigir da frente do palco, me representam.
Estou indo atrás de mim.
E, me perdoem pelo final individualmente apocalíptico, mas quem não possuí vínculos enraizados de identidade e auto reconhecimento no universo ao seu redor (músicas, bandas, um time, um lugar etc), jamais entenderá o prazer que vivi ao saborear uma sexta feira de tédio, calor e eu mesmo, coroada e em razão de estar em um show do Dance of Days na cidade de Bauru.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Seis.


Dia de pagamento que cai em véspera de feriado rima com supermercado lotado. Toda fila de caixa é representação, das mais legitimas, de quizumba em porta de formigueiro quando se inicia chuva.
Carrinhos e mais carrinhos entopem os minúsculos corredores, passagens obrigatórias para que “produtos das prateleiras” se tornem “bens pessoais”. O “bip bip bip bip” das máquinas à laser vermelho, leitoras de códigos de barras, é ensurdecedor e incessante.
Uma pintura retratista do caos contemporâneo e capitalista se faz ante meus olhos.
A vez de passar minha breve compra está distante de chegar, e observo tudo ao meu redor, podendo dedicar a maior atenção possível a todos os detalhes, até ser interrompido por um rapaz, que passava compras junto de uma mulher, no caixa em cuja fila eu estacionei o meu carrinho. Passou apressado, chegou até a dar um leve encontrão em meu ombro, e disse à mulher que ele acompanhava ter se esquecido de “um negócio”.
Alguns instantes passam (não sei dizer quantos minutos permaneceu distante da fila do caixa) até que retorna com algo em mãos – dizer “com um produto em mãos” seria um substrato de desumanidade da parte deste escritor. A mulher que o acompanha observa, de costas ao caixa – e ao homem que retorna – os funcionários do supermercado que guardam suas compras em caixas plásticas.
O homem apóia a mão que nada segura num dos ombros dela, que, então, tem a visão estimulada pela orquídea que ele trazia em mãos, e a audição estimulada pelo “parabéns meu bem, eu te amo”, que ele lhe diz.
Ambos tem o paladar e o tato – lingual, corporal e cardíaco – estimulado por um beijo e um abraço, repletos de paixão.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sete de Outubro e a pista de salsicha.


A sexta à noite foi vivida, idem para todo o sábado e todo domingo. Não, não é aquele caso de dizer: “se foi o final de semana” ou “como passou rápido o final de semana”. Na verdade, foi o exemplo mais fidedigno do que se pode chamar de vivê-lo plenamente – em termos futurologistas, talvez seja o caso de dizer “foi aberta a temporada oficial de festejos por esta breve e suada conquista”.
Quando voltamos – eu e todos os moleques e manolas que moram em minha cabeça – para a órbita comum dos dias de semana, isto é, quando chegou a segunda feira (e suas inegáveis e inescapáveis obrigações), ocorreu o que não se sentia ocorrer havia tempos/anos: calma, tranqüilidade, pés rígidos, passos firmes.
Sobretudo, havia por aqui – moleques e manolas – calma e tranqüilidade, guiando este corpo, já “não tão pesado”, em passos certeiros, e, por que não, plumamente leves.
Andando sem pressa, pensei nos infortúnios não esperados, nos vividos negativos deste 2013 – como canta o Jair Naves (numa versão ao vivo), pensei que “eu sobrevivi [caralho]”.
Segui andando vagarosamente ao meu destino matinal, pensando nas cápsulas de desgosto, nas chateações comprimidas, nos empurrões expandidos e nas demais coisas ruins vividas neste intervalo de tempo que compõem 2013, ou seja, entre o final de 2012 (pra mim reveionzado no dia 16 de Dezembro daquele ano) e o agora, a manhã deste 7 de Outubro.
É aquela velha história, quando a gente alcança uma vitória, por mais simples que seja, ela torna irrisórias todas as derrotas e dores (di)saboreadas no período, faz-nos esquecer das partidas negativas vividas até que se erguesse a taça da vitória – e os copos da celebração.
A gente nem se lembra (e se lembra, nem liga) que o Corinthians apanhou por 5x1 no começo do Brasileirão de 2005, pois fomos campeões no fim do Campeonato.
Em geral, em suma, cheguei à segunda feira, sete de Outubro, passeando por entre plumas de salmão rosado e gotejos de chocolate. Os pedaços longos de duro asfalto, pelos quais perambulo todos os dias, me soaram como a mais bem feita rua de salsicha - daquela musiquinha da época da escola, que alertava ao motorista dos ônibus de excursão escolar: “motorista, olha a pista, não é de salsicha”.
No caso da manhã da primeira segunda feira posterior ao resultado de minha aprovação no mestrado, e posterior a um final de semana repleto de abraços e carinhos com dezenas de pessoas me parabenizando, os moleques e manolas da minha cabeça cantarolavam, eufóricos em seus lugares dentro do ônibus, que a pista era, sim, de salsicha.
***
Falei das coisas ruins, dos buracos no caminho, e não falarei das coisas boas? Sou realmente um reclamão que só sabe olhar a parte vazia do copo? Um resmungão de primeira linha, atento apenas às porquices do trajeto?

Às coisas boas, às pessoas boas e vitais aos meus trajetos, aos acontecimentos positivos, às sensações de deveres cumpridos, e, por fim, a esta breve conquista ainda recente, a única coisa que posso ousar pensar em declarar por aqui é o alinhamento dentário na foto abaixo:



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Moleque é Moleque.


Moleque é moleque,
E não importa a distância que há,
Entre a data demarcada,
No registro geral,
E o dia de hoje.

E não importa,
A titulação acadêmica;
A lonjura dos pés;
A magreza da pele;
A altura dos ossos.

Moleque é moleque,
E se esconde por trás,
De brincadeirinha de criança,
De esconde-esconde,
Com palavrinhas anônimas.

E não importa,
O volume dos cabelos;
A presença das barbas;
A facilidade no discurso;
O movimentar dos braços.

Moleque é moleque,
E trata com desdém,
Os seus iguais;
E quer sempre tentar,
Tirar alguma vantagem.

Passam-se os anos,
Despede-se com cretinices,
Vê e trata mulheres,
Como meros objetos.

Moleque é moleque,
E você,
Ah, moleque,
Não tem jeito.

M.O.L.E.Q.U.E.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Cinco.


"Sabe, a parte elétrica da minha casa tem um problema curioso. Quer dizer, curioso nada, é um saco aquilo. É no chuveiro. Sei lá por quê o chuveiro não esquenta muito, ai pra tomar um banho de boa e mais ou menos quente tenho que deixar ele aberto bem pouquinho. Não sei, acho que isso aquece demais a resistência e depois aquece demais os cabos e depois aquece demais alguma outra coisa e depois aquece demais uma outra-outra coisa e ai, 'pléc', faz um barulhão, e para de cair água quente. Água fria. Direto no lombo. Acho que a expressão correta é que a "chave da energia do chuveiro cai". Se não for a expressão correta, não deve tá longe da correta. Bom, mas eu tô te dizendo isso tudo pra te falar que, na verdade, acho que acontece algo parecido comigo. Tipo, quando a gente fica junto assim ou quando a gente fica um tempão sem nos vermos e depois nos encontramos. Eu sinto que vou aquecendo, aquecendo, aquecendo e que, a qualquer hora, vai fazer um 'pléc' na minha caixa toráxica e a "chave de energia do meu coração" vai cair, explodir, arrebentar, espatifar-se em mil pedaços. Tamanha paixão que circula por lá".


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Quatro.


Não sou muito de gastar com coisas luxuosas. Aliás, não me ligo muito em coisas usualmente luxuosas. Luxo pra mim é aquela coisa boa da vida: estar com gente que faz bem pra nós, estar em situações e em locais que fazem bem etc.
Tenho meus luxos e meus consumismos, específicos e reduzidos, tanto ao tamanho do que [mal-e-má] recheia os bolsos, quanto à noção de que algumas coisas são luxos supérfluos e não-vitais a mim. Tomar uma cerveja com os amigos, ir a um show que me toca no fundo do coração, ir a um jogo do Corinthians, são coisas vitais.

Sucrilhos, não é vital. Mas tem lá o seu sabor, o seu gosto nostálgico de fim de infância de classe média assistindo programa esportivo em final de tarde na televisão, ou rindo e me babando de leite frente ao glorioso Chaves. Acho que por isso, vez ou outra, bate uma vontade do leite gelado cobrindo levemente uma volumosa porção de sólidos duros amarelados recobertos por açúcar branco.
Certa manhã [ou será que já era a tarde?] ela foi embora. Tinha que ir pra casa, reunião de família, almoço com parentes, algo do gênero. Após ela ter ido embora, por consequência lógica de um cara que mora sozinho, passei a estar sozinho em casa. 
Era sábado, e, solitário - após saborear beijos e sorrisos - tive vontade de comer sucrilhos - sei lá por qual razão.
Sabia que a conta bancária alcançava já os tons mais escuros possíveis na escala cromática dos vermelhos universais, e que não havia hipótese palpável de gastar dinheiro com este luxuoso alimento.

Decidi mandar o sucrilhos às favas, bem como, a vontade de saboreá-lo, e permaneci jogado no colchão ainda suado, pensando - profunda e desejosamente - na pessoa com quem eu havia suado a pouco por ali. Que delícia de madrugada [ou será que ainda era manhã?] vivera a pouco. 
Acendi um cigarro, mas meu corpo pedia sucrilhos. 
Passei um café, mas meu corpo pedia sucrilhos.
Tirei um cochilo, e nele sonhei com aquela moça tão linda - de sorriso fácil e beijo envolvente - mergulhada numa piscina de lona plástica [daquelas de mil litros] repleta de grandes flocos de milho açucarados recobertos por leite branco e gelado.
"Chega", decretei entre lençóis, "preciso de sucrilhos com leite, para aplacar esse desejo, para incinerar esse peito, para contemplar essa paixão!".

Tal qual o deus cristão, com seu adãozinho e sua evita, criei eu mesmo meu próprio sucrilhos: entre dois panos de chão martelei uma garrafa não retornável de cerveja, até que se tornasse uma série de pequenos cacos amarronzados, os coloquei em uma vasilha plástica e cobri com leite, os comi com gosto, em colheradas bem cheias, como se fossem o melhor dos sucrilhos feitos de milho em formato redondo com pigmentação e aromatização de chocolate.
Pois, apenas para nomear de paixão (com todo o gabarito que for possível), sou capaz de mascar vidro, para sorrir com a boca escorrendo em sangue, saliva e leite, dizendo: "volte logo, meu coração num guenta você tão longe".





Pois, luxo mesmo, na minha vida, é o peito pulsar e o sangue correr mais fino, por pura paixão.