segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O menino que se tornou estúpido.


Frequente e historicamente, sou chato, nos mais amplos aspectos alcançáveis pela chatice humana. Uma de minhas chatices mais frequentes diz respeito ao não emprestamento de coisas materiais de alto valor pessoal, como CD's, LP's, livros, roupas etc, para pessoas - digamos - que não são tão próximas assim ao ponto de eu poder cobrá-las (com sutil agressividade) sobre o devolvimento do objeto emprestado. 
Para pessoas que são próximas, alguns volumes eu até empresto, o problema é quando ela se afastam, e o "fazer cobrar" (com ou sem agressividade) se torna inviável.
Nos últimos tempos (meses?) tenho sofrido arrepios profundos e constantes pela possibilidade de perda eterna de dois exemplares essenciais em minha - novamente, digamos - "formação humana": "o menino no espelho" e "como me tornei estúpido".
Os emprestei para ela quando fazia-se próxima, os leu até que rapidamente, mas não me devolveu imediatamente. Certa vez, numa conversa amistosa, repleta de palavras bonitas e elogios mútuos, perguntei se poderia os levar para casa comigo (já sentia que deixávamos de ser tão próximos assim, a ponto de ter algo meu "emprestado" a ela não representar conforto algum), a resposta, doce, foi: "por quê? Está com medo que eu não devolva?".
Nada falei e, também, nada levei - ainda me lembro dos meus livros tomando pó na prateleira dela; aliás, aquela prateleira estava cheia de pó, sempre.
Sinto um leve frio na barriga ao imaginar que os livros em questão estejam ainda, apenas, servindo como reservatórios de pó, que tenham se tornado calço para móveis velhos, ou - pior! - que tenham sido lançados com força da porta da frente, passando pela escada, e acabando caídos ao relento no meio da rua.
Tal qual acontecera com o menino que se tornou estúpido.
Deus, te apelo: traz meus livros de volta!


[a imagem é parte significativa da capa de "como me tornei estúpido"].

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