terça-feira, 10 de setembro de 2013

Mãe Dadá.


-Mãe, conta uma história antes de eu dormir - disse, serelepe, a garotinha.
-Ai filha, hoje não. Deita e dorme vai.
-Só uma historiiii-iiiiinha, curtiii-iiinha!
-Tá bem.
-Oba!
-Mas é bem curtinha, tá?
-Tá bom! - e enroscou as pernas no lençol, era uma noite quente, não havia necessidade de cobertor.
-É sobre uma moça que viveu há muuuuuuitos anos, num lugar muuuuuuito longe daqui.
-Ela era princesa?
-Não. Princesa não existe, filha.
-Ah... - chateada.
-Ela era como?
-Era uma moça.
-Mas como?
-Uma moça, filha. 
-Ela era...
-Uma moça. Posso continuar?
-Pode... - chateada, outra vez.
-Todas as manhãs ela não tomava café...
-Ela tomava danone?
-Filha, você vai deixar a mamãe contar a história?
-Sim... - chateada, de novo.
-Todas as manhãs ela não tomava café. Ela não tomava iogurte. Ela não tomava leite. Ela não tomava nada.
-Nem água?
-Não tinha água onde ela vivia.
-Ah... - chateada, ainda.
-Todas as manhãs ela espremia a minha cabeça...
-A sua, mãe?
-É, a minha.
-Mas ela não viveu há muito tempo, longe daqui? Como ela espremia a sua cabeça?
-Filha, você quer que a mamãe conte a história ou quer dormir?
-Não mãe! Acaba, acaba. Não vou mais perguntar nada!
-Ela espremia, assim - com as duas mãos aperta as laterais do crânio da filha.
-Ai, credo.
-Sabe por que ela fazia isso?
-Pra te acordar?
-Não, já tínhamos acordado.
-Pra te fazer pensar?
-Não, já estávamos pensando.
-Então pra quê?
-Pra ver se ela conseguia extrair suco de meu cérebro.
-Que que é extrair?
-Tirar.
-E "suco de meu cérebro"? Que que é isso?
-Eu nunca descobri. Mas ela apertava minha cabeça, apertava, apertava, às vezes chegava até a doer! E ai depois de um tempo ela saía dançando por ai e cantando: "suco de meu cérebro, suco de meu cérebro, suco de meu cérebro, rarara".
[silêncio].
-Boa noite filha - smack na testa.
[silêncio].