segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Relato de uma entrevista.


Cheguei cedo, e, nisso, não há sustos: eu sempre chego cedo, pelo auto conhecimento do risco de chegar tarde - recorrente nesta vida.
Cheguei cedo, encontrei um bom conhecido, improvavelmente escovando os dentes em um dos banheiros. Descobri em qual sala eu deveria estar às 16 horas e, ao lado da porta desta, me sentei em uma confortável cadeira, exatamente às 15 horas e 28 minutos. 
32 minutos - mais possíveis atrasos - de espera.
Abre caderninho, faz anotação, fecha caderninho; abre agenda, lê anotações, tenta dominar um conceito, em vão: "deixa, nem vou citá-lo"; abre um livro, uma história curiosa [com a qual me identifiquei, leiam a sinopse].
O rapaz que entrou antes que eu saiu: "ufa, já é já, já é já já, já é".
Desliga o celular. Tira tudo dos bolsos.
Minhas mãos tremem e suam: "ai caramba, quando foi que me tornei tão ansioso? Ah é, sempre fui. E inseguro? Esse raio que não passa por nada...". 
Estava lendo a placa que indicava as salas do corredor adiante quando vi, sem câmera lenta nem nada, a maçaneta da porta ao lado se abaixando. 
Respira fundo: "Vai Corintias".
Dizem meu nome.

Entro na sala e tem três pessoas que eu não conheço - três homens - ao redor de uma mesa. 
Num piscar de segundo, numa fração de olhos, minha mente troca o rosto destes sujeitos: não estou em uma sala do departamento de antropologia da USP, estou em uma mesa de bar, no Sul de Minas, e os três sujeitos são o Pedrinho, a Jamilinda e o Alex.
Sento-me na cadeira que indicam que eu sente, e - santa mãe de deus! - agora estou largado no tapete de casa, À minha frente agora, toda a concentração da Janaína, o foco da Mariângela e a curiosidade do Pelego.
Ainda antes de começarem a falar, enquanto ajeito minhas pernas debaixo da mesa, a fumaça do narguilé da Dorô, da Isa e da Naty passa debaixo do meu nariz.
Fico calmo. Vocês me acalmam. Pensar em vocês me acalma.

As primeiras perguntas, sempre com graça: é complicado se identificar como pesquisador (logo, atributo de seriedade) em algo que é motivo cotidiano de diversão e fruto de piadas.
Elas, como já esperava, surgem: "não deve ser fácil vir para uma entrevista após levar quatro da Portuguesa". E não é mesmo, eles não fazem ideia.
Aliás, seria difícil lá estar mesmo se tivéssemos enfiado quatro na Portuguesa.
As perguntas sérias surgem, as respostas sérias tremulam. 
Uma mão desliza no suor da outra, "pelo menos não tremem mais" - penso. A segunda pergunta, uma prensa, um "não vi o valor preciso disto, poderia explicar melhor?", "claro, como não".
Descontração, esse mau contemporâneo intitulado "quebrar o gelo", que a mim soa sempre como "desconcentração".
Mais algumas perguntas, algumas afirmações, algumas auto afirmações - perspicaz lembrança do sábio homem que me disse: "puxe sempre a situação para a sua zona de conforto".
"Então, acho que é isso", os três homens se entreolham, "é, é isso", diz outro deles.
"Só isso? Poxa!", exclamo jovial.
Constrangidos, mais uma pergunta aqui e outra ali, minhas melhores respostas: conceitos, vivências, realizações, anseios, costuras de ideias e práticas e opiniões.

Ao pé da porta, ouço um "boa sorte". Nunca sei se estico a mão para uma saudação cordial nestas situações.
E não, não sai nem um pouco esperançoso desta breve entrevista.




domingo, 29 de setembro de 2013

Carnificinas de Paixão - Três.


"Os produtos dos shopping centers não vão preencher os vazios do seu coração, meu bem":

Sabe,
Acho que eu me encantei,
Pelos seus belos olhos,
Passeando por vitrines,
Procurando por sapatos,
Procurando por casacos.

Sabe,
Acho que eu me entreguei,
Quando te falei,
"Não precisa de sapatos,
Não precisa de casacos,
E talvez seja legal,
Um cara como eu".

Sabe,
Acho que eu desejei,
Me tornar alguns sapatos,
Me tornar alguns casacos,
Me tornar uma vitrine,
Me tornar o shopping todo,
Pra ganhar o seu olhar.

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Versos escritos à luz da batida e melodia criadas pelo Friza e pelo Pelego numa segunda feira à noite.




sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Carnificinas de Paixão - Dois.


Sempre esbaforido, corre pra lá/corre pra cá pra deixar a casa minimamente arrumada. Naquela época tinha que sair de dentro de casa e ir abrir o portão pra quem chegava, pra quem estava esperando que chegasse. Enfim.
O importante é saber que alguém chegaria, e, ao o fazer, eu teria de sair de casa e abrir um portão. É importante também saber que me esforçava para retirar nacos de poeira, bolotas de mau cheiro e demais maledicências anti-higiênicas que se amontoavam pela casa, e também que buscava não suar (já havia tomado banho, e já estava 'vestindo meu terninho', ao melhor estilo 'Kiko, vamos na festa dos Pires Cavalcanti, não se suje').
Quando meu celular recebeu uma mensagem com o dizer "cheguei :)", prontamente vesti minhas chinelas chiqs (ainda não estava de tênis) e fui abrir o portão.
O sol batia e refletia seus últimos raios - suficientes para iluminá-la ao portão - e fui, passo a passo, observando-a ao longe. Estava mais linda do que habitualmente. Não sei se era a combinação "sapatinho preto-saia dins-camiseta longa estampada-sorriso encantador", não sei se era um misto de "saudade pré-nascente" com "desejos já-sabidos". Mas havia algo ali elevando um tanto aquela beleza toda que se encontrava por detrás das grades.
Sei, por fim, que quando cheguei ao portão, e encaixei chave em fechadura, balbuciei mentalmente que, estando ela do outro lado deste, me sentia ali um carcereiro de cadeia: ela, ao prender em si tantos atributos belos e esteticamente convidativos ao saborear dos olhos [e etc], era uma presidiária, a presidiária das belezas.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Enxerto em fim de noite.


Era fim de noite. Não pra nós, mas pra eles. Para nós, tudo indicava que "noite" só se encerraria para além do nascer do sol. Para eles, que já iam embora, cansados e com os olhos semi cerrados, havia o claro indicativo de "game over", de "fim de rolê".
Por eles, entendam um cara de bigode e cabelos bem moldados, trajando roupas leves e claras; acompanhando uma moça que vestia um vestido preto folgado com estampas coloridas, cabelos curtos e dourados, e uma maquiagem chamativa na região dos olhos.
Por nós, entendam "Tijolo", com requintes de fritada espanhola - espécie de omelete mais bem recheado e, obviamente, fritado.

Ao saírem, eles se aproximaram de nós, em uma abordagem feroz, extremamente carinhosa e elogiosa: "linda camiseta"; "excelente look"; "nossa, tá bem acompanhado"; "tá bem acompanhada, hein?". Eles falavam. E como falaram. Aliás, falavam e gesticulavam com requintes de bons empanados - aqueles que são devidamente passados nas farinhas.
A saída, triunfante, elegantemente marcante e (pasmem) repleta de seriedade - como as melhores sacadas dos melhores quadros dos melhores criadores de humor non-sense - foi a moça do cabelo dourado olhando um de nós dos pés a cabeça (e da cabeça aos pés), apoiou a mão no peito do interlocutor e disse: "estou apaixonada por você, mas não pelo que tem aqui dentro [do peito], mas sim por esse visual todo, por que eu sou fútil".
Deu um beijo em seu próprio dedo indicador, o apontou para nós e foi embora. Seguida pelo rapaz Dibi - dibigode.





quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Carnificinas de Paixão - Um.


Mil poemas,
Eu vou escrever.
Apenas somente,
Sobre você.

Vinte e cinco folhas,
Sobre tuas unhas.
Trezentos versos sobre,
Seus olhares diversos.

Dez cadernos,
Sobre o teu ciso.
E outros oito,
Pro teu sorriso.

Vou os declamar,
Em alto e bom tom.
De pé aos berros,
No meio da rua.

Vinte cantigas,
Vou cantarolar.
Das tuas belezas,
Óh, saborear.

Vermelho na pele,
Eu vou tatuar.
Esse teu nome,
Que quero gritar.

Vou me acorrentar,
No portão da tua casa.
Com a camiseta,

Solta a corrente,
Liberta o meu corpo.
Me dá a porta,
Do teu coração.

Você vai ser,
Minha carnificina de paixão.
Vou assinar uma,
Chacina de amor com seu coração.

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[versos meus que foram musicados junto com o Pelego, logo, parte do processo de criação do Zababô Zebrinha: somos todos carniceiros de paixões?].


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Tiago, o Tijolo chamado paixão.


Em dois breves atos, para facilitar a compreensão do enigmático título:

1)

O que o tijolo disse pra tijola?
R: no seu bloco, ou no meu?

2)

Diálogo:

-Sabe quem veio?
-Quem?
-Um tijolo - tinha mesmo um tijolo em mãos.
-Cara - incredulidade define o tom da expressão facial e da pergunta: um tijolo?
-É! Ele veio!
-Então é o Tiago!
-Tiago?
-Sim: TI-ago, TI-jolo.

Não sei se já disse, mas a idiotice (ah, a idiotice!) ela soa como um afrodisíaco. 
Não a idiotice cretina, aquela que lava de sangue calçadas e camisas. A idiotice simpática, rotineira; aquela que é oposto de chatice, aquela que é contrário de seriedade-falsa (aquela seriedade dos que, carrancudos, seguem dias chatos, mas bem convencionados publica e diabolicamente).
Ah, a idiotice!
É um afrodisíaco. Não daqueles físico-corporais, mas sim daqueles sociais. E afrodisíaco-social, é apaixonação.

Por isso mesmo, no seu bloco, ou no meu, tanto faz, ele é Tiago, o Tijolo chamado paixão.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Mãe Dadá.


-Mãe, conta uma história antes de eu dormir - disse, serelepe, a garotinha.
-Ai filha, hoje não. Deita e dorme vai.
-Só uma historiiii-iiiiinha, curtiii-iiinha!
-Tá bem.
-Oba!
-Mas é bem curtinha, tá?
-Tá bom! - e enroscou as pernas no lençol, era uma noite quente, não havia necessidade de cobertor.
-É sobre uma moça que viveu há muuuuuuitos anos, num lugar muuuuuuito longe daqui.
-Ela era princesa?
-Não. Princesa não existe, filha.
-Ah... - chateada.
-Ela era como?
-Era uma moça.
-Mas como?
-Uma moça, filha. 
-Ela era...
-Uma moça. Posso continuar?
-Pode... - chateada, outra vez.
-Todas as manhãs ela não tomava café...
-Ela tomava danone?
-Filha, você vai deixar a mamãe contar a história?
-Sim... - chateada, de novo.
-Todas as manhãs ela não tomava café. Ela não tomava iogurte. Ela não tomava leite. Ela não tomava nada.
-Nem água?
-Não tinha água onde ela vivia.
-Ah... - chateada, ainda.
-Todas as manhãs ela espremia a minha cabeça...
-A sua, mãe?
-É, a minha.
-Mas ela não viveu há muito tempo, longe daqui? Como ela espremia a sua cabeça?
-Filha, você quer que a mamãe conte a história ou quer dormir?
-Não mãe! Acaba, acaba. Não vou mais perguntar nada!
-Ela espremia, assim - com as duas mãos aperta as laterais do crânio da filha.
-Ai, credo.
-Sabe por que ela fazia isso?
-Pra te acordar?
-Não, já tínhamos acordado.
-Pra te fazer pensar?
-Não, já estávamos pensando.
-Então pra quê?
-Pra ver se ela conseguia extrair suco de meu cérebro.
-Que que é extrair?
-Tirar.
-E "suco de meu cérebro"? Que que é isso?
-Eu nunca descobri. Mas ela apertava minha cabeça, apertava, apertava, às vezes chegava até a doer! E ai depois de um tempo ela saía dançando por ai e cantando: "suco de meu cérebro, suco de meu cérebro, suco de meu cérebro, rarara".
[silêncio].
-Boa noite filha - smack na testa.
[silêncio].


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O menino que se tornou estúpido.


Frequente e historicamente, sou chato, nos mais amplos aspectos alcançáveis pela chatice humana. Uma de minhas chatices mais frequentes diz respeito ao não emprestamento de coisas materiais de alto valor pessoal, como CD's, LP's, livros, roupas etc, para pessoas - digamos - que não são tão próximas assim ao ponto de eu poder cobrá-las (com sutil agressividade) sobre o devolvimento do objeto emprestado. 
Para pessoas que são próximas, alguns volumes eu até empresto, o problema é quando ela se afastam, e o "fazer cobrar" (com ou sem agressividade) se torna inviável.
Nos últimos tempos (meses?) tenho sofrido arrepios profundos e constantes pela possibilidade de perda eterna de dois exemplares essenciais em minha - novamente, digamos - "formação humana": "o menino no espelho" e "como me tornei estúpido".
Os emprestei para ela quando fazia-se próxima, os leu até que rapidamente, mas não me devolveu imediatamente. Certa vez, numa conversa amistosa, repleta de palavras bonitas e elogios mútuos, perguntei se poderia os levar para casa comigo (já sentia que deixávamos de ser tão próximos assim, a ponto de ter algo meu "emprestado" a ela não representar conforto algum), a resposta, doce, foi: "por quê? Está com medo que eu não devolva?".
Nada falei e, também, nada levei - ainda me lembro dos meus livros tomando pó na prateleira dela; aliás, aquela prateleira estava cheia de pó, sempre.
Sinto um leve frio na barriga ao imaginar que os livros em questão estejam ainda, apenas, servindo como reservatórios de pó, que tenham se tornado calço para móveis velhos, ou - pior! - que tenham sido lançados com força da porta da frente, passando pela escada, e acabando caídos ao relento no meio da rua.
Tal qual acontecera com o menino que se tornou estúpido.
Deus, te apelo: traz meus livros de volta!


[a imagem é parte significativa da capa de "como me tornei estúpido"].

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Aqui habita um professor? - VII.


Diálogo entre um aluno e eu, perto do fim da aula de uma segunda feira, quando ele passou a quase totalidade desta dormindo, e eu - confesso - não me esforcei muito por acordá-lo:

-Fessôr, eu tenho que acordar dez pras cinco. Dez [faz um dez com as duas mãos] pras cinco [faz um cinco com uma das mãos] pra vir pra escola. Cê sabe que que é isso?
-Pô cara, mas essa hora eu também já tô de pé.
-É fessôr, mas ai eu ainda tenho que vir de ônibus né?
-E demora?
-Se demora? Pra caramba!
-Poxa, cê mora do outro lado da cidade então?
-CIDADE?! [fala com cara de espanto] eu moro é na fazenda! Num dos últimos sítios que tem.
-Então é bem looooonge mesmo? - [digo esticando os braços].
-Éééé fessôr. E eu ainda tenho que andar até o ponto pra pegar o buzão, tem que andar acho que uns dois quilômetros.
-Putz meu, ai fica complicado hein...
-Dai eu venho pra cá e tenho que ficar acordadão, prestando atenção, fazendo tudo, como se morasse aqui do lado...
-[Sem resposta].
-Tem nem um café...

Enquanto eu pensava no que dizer, o sinal tocou. Ele colocou sua mochila nas costas, disse um singelo "falô-fessôr", e se mesclou à massa de alunos que se afunilavam para passar pelo portão da escola.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Oito.


Parte 1:

Às terças e quintas,
Tenho saído de casa cedo,
Muito Cedo.

Aliás,
Tenho saído de casa,
Naqueles instantes limítrofes,
Entre o "muito cedo" [da manhã],
E o "muito tarde" [da noite].

Moro às beiras da rodovia,
E os meus primeiros passos,
Teriam como trilha sonora,
[Não fossem os fones de ouvidos],
O ruído de um ou outro,
Caminhão madrugante.

A escuridão da rodovia,
[E da região],
Premiam-me com um céu,
Salpicado de estrelas,
Enquanto tranco o portão.



Parte 2:

É tão cedo,
[Ou tão tarde],
Que não há ônibus,
E preciso caminhar/correr,
Por quarenta e cinco minutos,
3,8 quilômetros.

Ao chegar numa esquina,
Um movimento paralisa-me:
É um cachorro,
Que também se paralisa,
Nos encaramos,
[São alguns segundos,
De olhos fixos na madrugada],
E seguimos nossos rumos.

Adiante ocorre o mesmo,
Comigo e um gato na margem da rodovia,
Comigo e um cachorro manco,
Comigo e dois gatos de cemitério,
Comigo e um frentista do posto,
Comigo e um bêbado de bairro,
Comigo e um entregador de jornais.

Parte 3:

Desliguei a música dos fones,
Para ouvir o som dos meus passos,
Meus próprios passos,
Me fazendo ir adiante,
Seguir em frente.

Sabe,
Nessas terças e quintas,
[Em que não faz diferença,
Deus ajudar ou não,
Este cedo madrugador],
Ouvir os meus passos,
Pensar na minha passada,
Aparentemente, para frente,
Não tem me assustado.

Pelo contrário,
Tenho sido até um cara,
Se sentindo bem,
Dizendo "bom dia",
E escrevendo notas,
Antes mesmo do sol,
Dar as suas caras.



[e aqui, encerro as "Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem"].