sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Quatro.


Precisei voltar às pressas para a cidade onde moro, trabalho e tento tocar a minha vida sem grandes percalços. Vi os horários do ônibus e organizei-me para pegar o último horário que chegaria lá dando-me tempo de utilizar o transporte público municipal, da rodoviária até a minha casa.
Joguei algumas coisas na velha mochila (cansada de guerra) e corri para o raio da Barra Funda. Ainda havia passagens para o ônibus que partiria às sete horas e que chegaria na rodoviária de minha Cidade-Destino às onze e meia da noite. 
Comprei um bilhete e embarquei, torcendo para conseguir cochilar ao menos durante metade do trajeto.
Estava tudo certo e tranquilo, até que na lanchonete em que o ônibus realiza uma parada (que deveria ser breve), um senhor passou mau após engasgar com um pastel, o que atrasou o andamento da viagem em quarenta minutos.
Desembarquei em meu destino meia noite e dez, e me lamentei: "é, terei que ir de táxi".
Próximo ao canteiro em que ficam estacionados os táxis (com taxistas ávidos por arrancar dinheiro de viajantes atrasados, com taxímetros em bandeira dois), vi uma moça com um casaco que levava o nome da mesma faculdade que eu frequentei (ou frequento, não sei) durante mais de meia década: "bom, talvez ela more em algum dos bairros universitários, como eu ainda moro nessa região, vou puxar assunto com ela e talvez propor de dividirmos um táxi, vai que somos vizinhos e não sabemos?".
Disse-me que morava em um bairro ao lado do meu, e que estava esperando um taxista que sempre a busca na rodoviária, que ele lhe cobrava menos do que os outros, que já havia combinado o horário com ele e que, sim, claro poderíamos dividir o gasto com este transporte. 
O taxista começou a demorar.
Nós começamos a conversar.
Continuamos conversando.
Conversamos até quase uma hora da manhã, quando demos conta de que o táxi estava demorando a chegar. Continuamos conversando. Tinha simpatia e ternura no olhar (embora quando levantasse a sobrancelha direita se tornasse extremamente provocante)
O celular dela tocou, era o taxista avisando que levaria ainda dez minutos para lá chegar, um pneu havia furado e precisou parar em uma borracharia 24 horas para trocá-lo - senhor se engasgando com pastel, pneu de táxi furando...
Continuamos conversando.
Quando ela reconheceu o carro do taxista, no horizonte distante e escuro da avenida, me pediu desculpas por interromper-me no que eu dizia, realizou uma breve pausa em sua fala (mordendo o canto do lábio direito) e perguntou se eu queria mesmo dividir o táxi com ela.

-Como assim?
-Ah, em vez de dividir o táxi comigo, você não quer tomar um café em casa?
-Bom - deslizei as pontas dos dedos indicador e polegar do centro do bigode (embaixo do nariz) até as pontas do queixo - eu não sou de negar café.
-Hm - era realmente provocante quando levantava a sobrancelha - um café da manhã?

Eu realmente não sou de negar café. Sobretudo, da manhã.


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